Costumo dizer aos amigos que “a sexta-feira é minha”, um jargão que
criei nos tempos em que varava as madrugadas de São Paulo percorrendo os cinemas, os teatros, casas de shows e as mesas de sinuca das ruas Augusta e Major Quedinho. Nesta sexta quente de Corumbá, não tive tantas opções como na noite paulistana, mas recebi a benção de
ver de bem perto um show de Delinha, a rainha do rasqueado de Mato Grosso do
Sul. Mais que isto, tive o privilégio de conversar com ela durante quase uma hora no
camarim, enquanto aguardávamos o início do show na Noite da Seresta, no coreto da
Praça da Independência. Desfrutei da singela companhia da cantora de 77 anos e tomei um gole quando me ofereceu sua bebida favorita antes de cada show: conhaque com guaraná. João Paulo, o único filho que
teve com o ex-marido e parceiro Délio, acerta o som e abre o show com um
repertório regional, enquanto pouco a pouco todas as cadeiras vão sendo
ocupadas na praça. No show, Delinha canta “O Sol e a Lua”, consagrada ao lado
de Délio, agora com João Paulo, “Por onde andei" e outros hits de mais de 50
anos de trajetória. Se dessemos mais atenção às raízes da nossa música e à
história de nossos compositores, um show como o de Delinha, gratuito, em praça
pública, seria capaz de paralisar Corumbá, mas não é o que acontece, porque no
Brasil a cultura é vista como artigo de segunda linha, fragmentada. Grandes compositores e intérpretes como Delinha são esquecidos, em
detrimento dos hits populares descartáveis que o público canta em um ano e no
seguinte não se lembra mais – seguindo a linha do capitalismo e sua economia de
consumo. Quem ainda se lembra de "Ai se eu te pego", de Michel Teló? Pois as composições de Delinha são eternas e há quem saiba dar-lhe o
devido valor e colocar no lugar que merece. A Fundação de Cultura, em um gesto
ousado, bancou a sua vinda a Corumbá. A mesma Delinha que, em 2012, foi
apresentada para um grande público como estrela da música de raízes sul-mato-grosssense no Festival de Chamamé de Corrientes, na Argentina. “Não fiquei rica, mas não sou pobre, moro na mesma Velha Casinha (que virou música) e carrego dentro de mim a riqueza dos grandes momentos”, resume, pouco antes de cantar o
tango "Corrientes". Acesse o canal Reportagem para ler mais sobre a trajetória de Delinha e veja a apresentação dela em Corrientes no link http://www.youtube.com/watch?v=KAZ9eY7_ckU
Agosto, para muitos, pode ser o mês do
desgosto. Mas para outros tantos, como eu, é o mês do prazer. Prazer pela boa
música. Por exemplo, a música de Helena Meirelles, que se estivesse viva completaria
90 anos no dia 13. Autodidada, benzedeira, lavadeira e parteira que ficou conhecida mesmo como Dama da Viola, o fenômeno brasileiro
eleito pela revista Guitar Player como uma das melhores instrumentistas do
mundo, comparada a Keith Richards, do Roling Stores, e Eric Clapton, isso em
1993, aos 69 anos. Estrela com reconhecimento tardio, Helena fugiu de casa aos
15 anos, teve o primeiro dos onze filhos aos 17 e três casamentos. Deixou o
segundo marido para morar na zona, quando passou a tocar viola nos bordéis do
Porto 15 e Presidente Epitácio, Mato Grosso do Sul. Só em 1992, aos 68 anos,
apareceu pela primeira vez em um programa de televisão, com Enezita Barroso. A
história completa da Dama da Viola, que virou documentário produzido pela GNT (http://www.youtube.com/watch?v=_ljCRJN7t4M)
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