terça-feira, 11 de agosto de 2026

Lejeune Mirhan: memórias e lutas de um militante comunista corumbaense


Maio de 1977. Em plena ditadura militar, um protesto mobiliza 15 mil estudantes para uma passeata em São Paulo. Ao atravessarem o Viaduto do Chá, gritando pelas liberdades democráticas, são duramente reprimidos pela tropa de choque da Polícia Militar. Bombas de gás lacrimogêneo caem sobre as primeiras fileiras de estudantes. Enquanto muitos recuam, um jovem corpulento, de barba e óculos de graus, se adianta e, sozinho, chuta uma das bombas de volta na direção dos policiais. “Era o Lejeune, conhecido na época pelo apelido de Mato Grosso”, conta o jornalista Igor Fuser, ao evocar a histórica passeata e relembrar um traço marcante do jovem militante corumbaense Lejeune Mirhan. A imagem seria retratada pelos jornais paulistas.

Dois anos antes ele havia iniciado sua militância no Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e ajudou a reorganizar o DCE Livre da USP em São Paulo. No fim daquele ano, o partido decidiu deslocá-lo para Campinas, com o objetivo de construir a organização estudantil nas duas universidades da cidade. Décadas depois, em Campinas, criaria sua própria editora, a Apparte, para publicar suas obras e de outros camaradas sem oportunidades.

Ao encerrar seu ciclo neste plano material em 6 de agosto de 2026, aos 69 anos, Lejeune possuía 23 livros publicados, entre eles Marx para principiantes, E se Gaza cair..., Palestina, Reflexões sobre a multipolaridade do mundo, Relatos de viagem: Síria e Líbano, todos baseados em suas minuciosas pesquisas. Sociologia, geopolítica, sindicalismo, marxismo, cultura árabe foram áreas em que se especializou e fez questão de compartilhar, incansavelmente, com seus alunos, amigos e admiradores.

O sociólogo, escritor e ativista político Lejeune Mirhan nasceu em Corumbá em dezembro de 1956, no tempo em que nosso estado era Mato Grosso e nossa capital era Cuiabá. Descendente de sírios e armênios que chegaram a Corumbá em 1913, migrou com a família para São Paulo, onde se estabeleceu e se tornou um dos mais influentes escritores e articulistas da geopolítica internacional, com intensa participação nos podcasts de canais independentes do youtube, entre eles o portal Brasil 247.

Formou-se em Ciências Sociais pela PUC-Campinas em 1981 e fez o mestrado em Filosofia da Educação entre 1982 e 1984 na mesma PUC. Deu aulas em universidades e na rede pública. Foi um árduo defensor da inclusão obrigatória da Sociologia e da Filosofia no ensino médio. Fundou, ao lado de Florestan Fernandes, o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, do qual foi presidente duas vezes.

“No debate geopolítico contemporâneo, Lejeune destacou-se por demonstrar, com absoluto rigor científico, que o mundo já se tornou multipolar”, declarou José Reinaldo, presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz), que Lejeune ajudou a criar.

“Lejeune partiu deste mundo, mas não partiu da história”, escreveu o jornalista Leonardo Attuch, criador do portal e TV Brasil 247. “O mundo pelo qual ele lutou, estudou, ensinou e militou já se impôs. A multipolaridade, que durante muitos anos foi tratada pelos centros de poder ocidentais como uma hipótese distante, uma ameaça ou até uma fantasia, hoje é uma realidade concreta. Lejeune venceu porque a tese central que orientou sua vida pública venceu. O planeta já não aceita ser comandado por uma única potência, por um único sistema financeiro, por uma única narrativa geopolítica ou por um único centro de poder”.

Convivi por algumas semanas com Lejeune – cujo nome, em francês, quer dizer O Jovem – durante o curso de Mestrado dos Estudos Fronteiriços da UFMS, na unidade 3, no Porto Geral de Corumbá. Ele veio cursar uma disciplina optativa ministrada pelo professor de História Paulo Esselin. No final das aulas, escolhíamos os melhores bares corumbaenses para longos bate-papos sobre política, geopolítica, literatura, ao lado de Esselin. Ganhei dele o livro Relatos de Viagem: Síria e Libano, de 2015, que já era um prenúncio do que viria ser, onze anos depois, a guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Tenho também na minha biblioteca comunitária “E se Gaza cair...”

Criou o Comitê pelo Estado da Palestina e o Comitê de Solidariedade ao Povo da Síria, e combatia a exaustão o imperialismo estadunidense e seus aliados sionistas. Tornou-se figura imprescindível nos debates e entrevistas dos canais independentes durante o ápice da guerra EUA-Israel-Irã. Recentemente havia feito uma viagem à China, que resultou na reportagem A “República Popular da China que eu conheci”, compartilhada com seus seguidores em quatro episódios no seu Canal de Geopolítica, no Youtube.

Para sua família e amigos, antes de partir, deixou este lembrete: “Se você quiser me encontrar, pare um pouco e, em silêncio, pense em mim; se quiser me encontrar, olhe bem dentro de você, sinta seu coração bater forte, sinta-se feliz e não procure mais por mim; eu estou aí...dentro do seu coração”.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

O rap indígena da retomada

 

Nelson Urt/Navepress

O show do Brô MCs, sexta no Moinho Cultural, trouxe para o coração de Corumbá e do Pantanal a realidade dos indígenas Bruno Vn, Tio Creb, Kelvin Mbaretê e CH, integrantes do primeiro grupo de rap indígena do País, de toda a etnia guarani kaiwoá e o clamor dos povos originários brasileiros, em um momento crítico de opressão. A apresentação fez parte do Forum e Teia Cultural de Mato Grosso do Sul, que reuniu Pontos e Pontões de Cultura de MS, seus gestores, artistas, coletivos e fazedores de cultura de todo o estado, em um espaço de troca, formação, articulação e fortalecimento da Cultura Viva no território. O encontro durou dois dias e se encerrou com um cotejo pela orla do rio Paraguai, marcado pela diversidade cultural e sincretismo religioso, com o entrelaçamento da imagem de Nossa Senhora de Urkupiña, trazida de Puerto Suarez, junto do grupo de dança boliviano Los Caporales, e os rituais de umbanda e candomblé num culto a Iemanjá, a rainha das águas, com oferendas de velas e flores na beira do rio. Nesse aspecto, os pontos culturais cumprem seus principais objetivos: a promoção do conhecimento, da tolerância, da alteridade e o congraçamento de povos, em nome da paz. Os integrantes do Brô MCs ainda moram nas aldeias Bororo e Jaguapiru, onde o grupo se formou há 16 anos, quase que engolidos por grandes fazendas monocultoras situadas no município de Dourados, em Mato Grosso do Sul, um dos estados com maior índice de mortes violentas de indígenas no Brasil. Os indígenas vivem em pequenos terrenos, encurralados pelo mar de fazendas do agronegócio que rodeiam a reserva Francisco Horta Barbosa, sobreposta às suas aldeias. Em suas músicas, cantadas em guarani e Kaiowá, os Brô’s entoam e denunciam as consequências do empobrecimento cíclico em que seu povo foi condicionado. Anunciam a luta e resistência através das retomadas. O movimento de retomadas das terras ancestrais por parte dos indígenas Guarani e Kaiowá está se fortalecendo nos últimos anos, e é uma forma que eles encontraram de reivindicar seus territórios que foram sendo espoliados. (Fonte: Instituto Socioambiental/Fotos: João Albuquerque/Dzawi Filmes /ISA e Nelson Urt/Navepress.

 







quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Miguelito, o menino da Vila, derruba o Brasil do altar

NELSON URT/NAVEPRESS

Confesso que planejei ver o jogo pessoalmente nas arquibancadas do estádio Titán de Vila Ingenio, o estádio mais alto do mundo, nos 4150 metros de altitude de El Alto, na cordilheira da Bolívia. Mas não consegui, e acompanhei o jogo aqui embaixo, na planície do Pantanal, nas bordas do rio Paraguai, em Ladário. Mesmo distante do temido Titán, observei um raro fenômeno por aqui: o espocar de fogos quando Miguelito marcou o gol que deu a vitória para a Bolívia diante do Brasil. Uma vitória, como disse em manchete o boliviano El Deber, de “puro corazón”, que coloca a Bolívia às portas da Copa do Mundo de 2026 (está qualificada a disputar um torneio complementar com outras cinco equipes e buscar uma das duas vagas restantes). Outra surpresa para os menos informados é que o herói do jogo, um menino de 21 anos, Miguel Angel Terceros, número 7 na camisa, é o que chamam de “Menino da Vila”. Embora tenha nascido em Santa Cruz de la Sierra, foi descoberto pelo Santos aos 14 anos durante uma excursão do Projeto Bolívia na Vila Belmiro, passou nos testes e ganhou um contrato até 2027. Por uma série de motivos, inclusive por questões familiares, não se firmou no time principal e hoje disputa o Campeonato Brasileiro da Série B pelo América Mineiro, por empréstimo (ou seja, o Santos esconde na segunda divisão uma jóia da casa). Mas na Bolívia, depois de altos e baixos, hoje Miguelito é o dono da camisa 7, um ponta canhoto que cai para o meio e finaliza muito bem, e se tornou o artilheiro do time e terceiro goleador das Eliminatórias: nessa terça, marcou seu sétimo gol. Comentaristas influentes culpam a Bolívia por ter levado o jogo para a altura insuportável do Titán de El Alto, um ato desumano contra o escrete brasileiro e outras seleções que foram jogar lá e também apanharam. Juca Kfouri, em trocadilho infame com o nome de Miguelito (e com todos os meninos de nome Miguel), afirmou que a Bolívia deu uma de “migué”. Outro influente, Mauro César, aponta como defeito o fato de o VAR ter descoberto um pênalti para “garfar” a Venezuela (garfar Maduro, ele quis dizer, em clara alusão a uma teoria da conspiração acionada por Donald Trump na guerra fria contra a Venezuela). O fato é que a Venezuela perdeu a vaga ao cair por 6 a 3 diante da Colômbia, no mesmo horário, dentro de casa. Após ver e ouvir tantas aberrações, fico a matutar se os mesmos comentaristas se esqueceram dos tempos em que a Bolívia era governada por ditadores militares aquartelados em Santa Cruz e nas Eliminatórias a Seleção Brasileira ganhava, passeava e exibia sua beleza nos jogos contra a Bolívia – sempre em Santa Cruz, é claro. O fato é que os bolivianos, que sempre tiveram o Brasil como segunda opção para torcer – porque a Bolívia não vai à Copa desde 1994 – ganharam uma rara oportunidade de comemorar uma vitória épica contra o Brasil, com espocar de fogos nos dois lados da fronteira: em Puerto Suarez, Puerto Quijarro, Corumbá e Ladário. Se quiserem, podem botar na conta do Titán, do VAR, do balão de oxigênio, das bolas furadas...mas não se esqueçam de Miguelito, o menino da Vila, e do puro corazón de jogadores bolivianos que choravam ao ouvir o hino do seu país e o grito dos torcedores. Puro corazón. Será que não é isso que anda faltando ao Brasil?

 

 

 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Maria, Carnaval e cinzas...e feminicídio



Nelson Urt/Navepress

No dia 8 de março, quatro dias após o encerramento do Carnaval, convém substituir os confetes e serpentinas por momentos de discussão social, reflexão e atitudes diante de um problema que afeta diretamente brasileiras e brasileiros: o feminicídio. É hora de falarmos de cinzas, da Lei Maria da Penha, das leis que não são cumpridas, da normalização do ódio.

Nesta data oficialmente se celebra o Dia Internacional da Mulher. Mas, em vez de entregarmos ramalhetes de flores e bombons às mulheres de todas as classes, gêneros e profissões, propomos marcar a data entregando um pacote com pertinentes debates que nos levem a conclusões e soluções para uma questão de enorme gravidade em nosso País: o crescente número de mortes violentas contra mulheres por questões de gênero.

Neste começo de ano de 2025, foram dois casos e um dos crimes de ódio vitimou a jornalista Vanessa Ricarte, assessora de comunicação do Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso do Sul, na capital Campo Grande. Vanessa procurou a Delegacia da Mulher para relatar perseguição do ex-noivo e pedir medida protetiva. Estava fora de casa havia dois dias. Ao voltar para a casa compartilhada com o parceiro para pedir sua saída, foi morta por ele com três facadas. Ficou mais uma vez evidente o despreparo de policiais no trato com casos como esse, em que o homem, autor das ameaças, continua sendo substimado. O crime ocorre quando a vítima está desprotegida, dentro de casa, a covardia é recorrente nesse tipo de assassinato.

O feminicídio coloca o Brasil na 5ª posição no ranking mundial, atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. Em comparação com outros países, aqui se mata 48 vezes mais mulheres que no Reino Unido, 24 vezes mais que na Dinamarca e 16 vezes mais que no Japão, de acordo com dados do Alto Comissariado das Nações Unidades para os Direitos Humanos.

Em 2020, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, foram registradas 105.821 denúncias de violência contra a mulher através do Ligue 180 e do Disque 100. O número representa um chamado a cada 5 minutos.

A legislação que incluiu o feminicídio como qualificadora do crime de homicídio - Lei nº 13.104 - data de março de 2015, tendo o Brasil sido o 16º país da América Latina a criar a legislação.

Mato Grosso do Sul é um dos estados brasileiros onde mais ocorrem feminicídios. De janeiro a novembro de 2024, MS registrou 31 feminicídios e 78 tentativas de morte contra mulheres por questões de gênero, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública divulgados pelo Observatório da Mulher de Campo Grande. Nesse período, só a Capital somou 9 assassinatos e 15 tentativas.

Uma nota de pesar do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e de Ladário, Pacto pela Cidadania e do Comitê Corumbá pela Paz repudia o crime contra a jornalista e a escalada da violência contra as mulheres.

O professor e historiador Ahmad Schabib Hany, do Pacto pela Cidadania, pede mobilização para deter a normalização do ódio: “Nossos Espaços Públicos não Estatais em Corumbá e Ladário entendem que devemos nos mobilizar, e convocamos a sociedade civil em todo o estado a se posicionar de forma altiva e contundente contra a postura procrastinadora e prevaricadora dos responsáveis pelos órgãos que deveriam assegurar direitos consignados na Constituição e em leis há décadas sancionadas e implementadas, como a própria Lei Maria da Penha.”

(Charge: Latuff/2013)

 


quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Agronegócio financia lobby para censurar livro didático


Nelson Urt/Navepress

Não bastasse a voracidade com que devastam a Amazônia, o Pantanal e outros biomas nativos brasileiros, em nome do avanço do agronegócio que garante os pomposos números de exportação na balança comercial do Brasil, agora o setor que mais consome e usa agrotóxico no mundo quer, com negacionismo, apagar sua imagem negativa dos livros didáticos escolares de todo o País. E, por extensão, das mentes dos jovens estudantes brasileiros. Mais uma tentativa de tratar o brasileiro como um imbecil.

É isso mesmo: o agronegócio financia um lobby (palavra de origem inglesa que designa influência, pressão, jogo de interesses particulares sobre o poder público) para patrulhar e censurar os livros didáticos. Para tanto, um grupo de políticos e empresários do setor criou uma associação chamada “De olho no material escolar”, agora conhecida como “Donme”.

Criada em São Paulo, a Donme tem ligações com secretarias de Agricultura e Educação do Estado e mantem diálogos com a cúpula do Congresso Nacional, na tentativa de influenciar a formação do Plano Nacional de Educação (PNE), que será definido em 2025 com validade para os próximos dez anos. Entre suas ações, promove excursões a feiras de agronegócio com professores, alunos e editores, e se reúne com parlamentares chaves na Câmara e no Senado.

O vice-presidente da associação é Christian Lohbauer, cientista político e um dos fundadores do Partido Novo. Dezenas de corporações e empresas do agronegócio estão por trás do grupo fundado em 2021 pela pecuarista Letícia Jacintho, atual presidente da associação.

O financiamento é pesado, e conta com cerca de 70 empresas. Na lista estão siglas do porte da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que representa companhias como a JBS, Cargill, Itaú BBA e Cosan.

Como se sabe, a JBS substituiu a Vale (que se foi) e explora o minério de ferro e o manganês do maciço do Urucum, em Corumbá, mas seu ramo original é o agronegócio.

A Donme também é financiada pela Coplife Brasil, representante das maiores fabricantes multinacionais de agrotóxicos e que era presidida por Christian Lohbauer (o do Partido Novo) até 2023, quando ele deixou o cargo para assumir como vice-presidente da Donme.

Neste trecho de uma reportagem publicada no dia 30 de outubro deste ano pela ONG Repórter Brasil, fica claro como o grupo Donme pretende “domar” o Ensino e interferir no aprendizado das crianças usando como artifício o negacionismo:

“O que as crianças e os adolescentes estão aprendendo que vai ser bom para o mundo do trabalho?”, perguntou Christian Lohbauer, vice-presidente da associação De Olho No Material Escolar, a uma plateia de políticos e empresários reunidos na capital paulista, no início de outubro. Ele discursava durante evento do Lide, grupo criado pelo ex-governador de São Paulo João Dória.

“Ela não pode aprender, todos os dias, em todos os materiais, há 30 anos, que tem trabalho escravo na cana-de-açúcar. Ela não pode aprender que o alimento brasileiro está envenenado com agrotóxicos. Ela não pode aprender que a pecuária é responsável pela destruição da Amazônia, porque não é verdade”, o próprio Lohbauer respondeu. 

Como se observa, trata-se de um grupo que se apresenta interessado em contribuir com o desenvolvimento do Ensino educacional brasileiro, mas que na verdade defende puramente os interesses das multinacionais do agronegócio e do agrotóxico.

Não interessa para esse grupo a diversidade de temas, conceitos e informações nos livros didáticos, mas sim a hegemonização desses livros em torno de conceitos que as companhias multinacionais defendem, ou seja, o lucro acima de tudo.

A Donme afirma o seguinte em seu site: “Somos uma entidade que busca a atualização do material escolar com base em conteúdo científico, equilibrado e que gere perspectivas positivas para os estudantes”.

Disseminar conteúdos que negam ser o Brasil o maior consumidor de agrotóxicos do mundo (dados comprovados em estatísticas oficiais) é uma das principais estratégias da Donme. Tanto que a organização criou a Agroteca, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), uma biblioteca virtual com publicações sobre o agronegócio, e nela encontram-se conteúdos negacionistas e que tentam implantar uma imagem positiva do setor quando o mundo sabe que a aplicação de agrotóxico é um malefício para a saúde.

Senão, vejamos: segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil lidera, e com folga, o ranking de consumo de pesticidas, quando considerados os dez países cm as maiores áreas da lavoura no mundo. A média no Brasil é de mais de 12 quilos aplicados por hectare; na sequência estão a Indonésia (6,5 quilos por hectare), a Argentina (5,9) e os Estados Unidos (com 3).

O que as crianças e adolescentes precisam aprender com clareza é que existe um outro tipo de agricultura, real e sustentável, capaz de produzir alimentos sem o uso de pesticidas nocivos à saúde, sem agredir o meio ambiente. Essa agricultura, que pode ser chamada de familiar ou agroecológica, e que surge a partir de assentamentos em todo o Brasil, e inclui sítios e pequenas plantações, fornece hoje cerca de 70% dos alimentos que chegam à nossa mesa – ou até mais. E nós, brasileiros, que não somos nada imbecis, temos o direito e o dever de fazer a nossa escolha. A vida não está à venda.

(Com informações da ONG Repórter Brasil/Charge: Latuff)


domingo, 13 de outubro de 2024

Punkcururu do Duo Chipa dá nova pegada à viola de cocho


 Nelson Urt/Navepress

Encerrando turnê com apoio do Fundo de Investimento Cultural (FIC) na Estação Cultural Teatro do Mundo, neste sábado, 12, em Campo Grande, o trio Duo Chipa deixa um rastro de coragem e inovação ao fazer uma releitura e dar nova pegada à música raiz.

Definido pelo escritor, músico e produtor cultural Rodrigo Teixeira como punkcururu, a nova proposta consegue associar elementos do punk ao ritmo de dois acordes da viola de cocho, o instrumento criado pelos povos originários do Pantanal e que serve como base para as cantigas de roda do cururu e do siriri presentes hoje em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

Na apresentação de Audria Lucas (voz e viola de cocho), Cleozinhu Oliveira (voz, violão e viola de cocho) e Rafael Omar (viola de cocho, ganzá e mocho), o cururu ganha outra dimensão ao se associar a elementos do punk, como nas interpretações furiosas do trio para Tramelado e Marrequinha na Lagoa, canções originárias de comunidades de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

As outras nove músicas do álbum Lugar Distante, lançado nesta turnê e disponível na plataforma Spotify, são autorais do trio, com destaque para Polca do Desprezado, Feitiço e Noite Crua.

Estabelecido atualmente em São Paulo, o Duo Chipa começou em 2020 com o paulistano Cleozinhu e a campo-grandense Audria Lucas e em 2022 o grupo recebeu a adesão do corumbaense Rafael Omar.

Até chegar aqui, o grupo havia lançado cinco álbuns pela internet. O repertório do quinto álbum, Lugar Distante (Curupah, na língua da etnia guarani e como Corumbá era chamada pelos indígenas) teve um concerto de lançamento no auditório do Moinho Cultural, outro no Resistência Rock Bar e no dia seguinte um show especial para alunos da Escola Gabriel Vandoni.

O Duo Chipa aproveitou a apresentação em terra sul-mato-grossense para realizar a pré-estreia de “Mestre Sebastião Entre Causos e Toadas”, documentário feito pelo próprio grupo durante os dias que passaram convivendo em Ladário com o mestre Sebastião Brandão, de 80 anos, o mais importante cururueiro e tocador de viola de cocho da região.

Desde novembro de 2023, com incentivo cultural da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, está aberta em Ladário a Casa de Memória Sebastião Brandão, com exposição dos instrumentos e a oficina onde o mestre cururueiro ensina a qualquer interessado o modo de fazer da viola de cocho. “Foi uma emoção incrível se apresentar para uma plateia que tinha o mestre Brandão na primeira fileira”, destacou Rafael Omar.

Aplaudido de pé no final da turnê em Campo Grande, o Duo Chipa provavelmente terá uma volta triunfal à região para fazer o show de abertura do Quebra Torto com Letras, o famoso encontro literário do Festival América do Sul em Corumbá.

Show no Resistência Rock Bar em Corumbá



sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Gaza brasileira: nem casas de reza escapam ao massacre contra indígenas em Douradina


Nem as casas de reza dos povos indígenas estão escapando dos ataques dos jagunços (agora conhecidos como milicianos), a mando de fazendeiros que se recusam a aceitar a lei de demarcação, temerosos em perder suas terras. De 2019 e 2023, foram queimadas ou destruídas 13 dessas Oga Pissy, o nome em guarani das casas de reza. Desse total, 9 ataques criminosos ocorreram em Mato Grosso do Sul.

No momento, a comunidade indígena de Douradina é alvo de um massacre intermitente, ataques com uso de balas de chumbo (e não apenas de borracha, como se imaginava), uso de potentes holofotes para impedir que os indígenas durmam à noite (um verdadeiro ato de tortura pós-ditadura), emprego de tratores para destruir moradias e plantações, além do uso de queimadas como forma de espantar os moradores.

Esses ataques ocorrem desde agosto do ano passado e ganharam mais intensidade enquanto as autoridades discutem se aprovam ou não o Marco Temporal, um projeto de lei criado para impedir novas demarcações de terras mas que está prestes de ser derrubado. Os ataques são uma forma de fazendeiros pressionarem os políticos parlamentares a aprovarem o Marco Temporal e protegerem suas propriedades que se encontram em terras indígenas.

Douradina fica no sul do Estado e possui pouco menos que 6 mil habitantes, sendo o menor município de Mato Grosso do Sul em área territorial, fazendo divisa com Dourados. Foi uma cidade criada por fazendeiros, proprietários dos latifúndios naquela região antes pertencente aos povos originários.

Quando os povos indígenas foram expulsos a toque de caixa de suas terras, no começo do século passado, o Governo criou a Reserva Indígena Guarani Kaiowá, em Dourados, como forma de aldear e apaziguar os nativos. Com o passar do tempo, a região tornou-se um ponto de conflito e manifestações, quando houve um despertar da consciência e os povos indígenas passaram a reivindicar a retomada de suas terras que ficam no entorno dessa reserva, cansados de esperar por novas demarcações. Douradina é apenas um desses pontos.

As Oga Pissy não são simplesmente casas de reza, mas locais de encontros sociais, culturais e políticos das comunidades indígenas. Ali são discutidas as principais questões que afligem a comunidade. Queimar e destruir Oga Pissy é uma tentativa de o oponente apagar os principais traços culturais do povo, trata-se de um atentado às tradições seculares. As Oga Pissy são consideradas centros sagrados pelos indígenas, que nelas guardam apetrechos de seus rituais.

O fato é que o movimento das retomadas em TI (Terras Indígenas) está escancarando uma onda de violência que vem crescendo na medida em que os fazendeiros, megaempresários do agronegócio brasileiro, sentem-se ameaçados em perder bens e lucros acumulados desde a instalação da República, quando a ordem vigente passou a ser desalojar indígenas de suas terras e repassá-las aos produtores rurais com a formação dos enormes latifúndios.

E o governo progressista permanece neutro, apesar do massacre. Tanto é que, em vídeo gravado por agências de notícias independentes, fica claro o tom conciliador com que a ministra dos Povos Originários, Sonia Guajajara, trata a questão durante sua visita à Douradina, ao solicitar que as vítimas do massacre fossem “mais pacíficas”.

A Força Nacional também esteve presente, mas a barbárie continua, tanto é que no fim de semana de 3 e 4 de agosto dois novos ataques com armas de fogo foi perpetrado, deixando 11 indígenas feridos, dois deles com gravidade, na cabeça e no pescoço.

A retomada Guaaroka é uma das sete ocupações feitas pelos Guarani Kaiowá dentro da Terra Indígena (TI) Panambi-Lagoa Rica. A área de 12,1 mil hectares já foi identificada e delimitada pela Funai em 2011, mas o processo demarcatório está estagnado desde então.    

Vinculada ao Ministério da Justiça (MJ) e com a atuação criticada pelos indígenas, a Força Nacional delimitou um espaço para cada um dos dois grupos que acampam na área sobre a qual está a fazenda do agropecuarista Cleto Spessato. De um lado, os povos originários na retomada Yvy Ajere. De outro, os ruralistas armados, que contam com o apoio dos deputados federais ligados à bancada do agronegócio.

No início da noite de domingo, 4 de agosto, fazendeiros avançaram com fogo, trator, rojão e tiros, a despeito da presença da Força Nacional, contra a retomada Yvy Ajere.  Segundo relatório do Conselho Missionário Indígena (CIMI), "os agentes se mantiveram atrás da linha de ataque dos jagunços sem esboçar qualquer reação para impedir as agressões". Cenas que, se mostradas em rede nacional pela tevê comercial patrocinada, lembrariam ataques contra palestinos na faixa de Gaza. Mas esse massacre aos povos indígenas continua restrito à cobertura de uma pequena parcela da imprensa independente e a pedidos de socorro das próprias vítimas.