domingo, 2 de outubro de 2016

Ladarense é o novo prefeito de Bandeirantes. Vitória ‘milagrosa’

Álvaro Urt durante a campanha para prefeito em Bandeirantes
Santo de casa não faz milagre, reza o ditado popular. Embora o candidato ladarense a prefeito de Ladário, Roberto Guimarães (PT), e seu parceiro, Diácono Victor Urt, usassem como bandeira o lema “Filhos de Ladário, gente deste chão”, os eleitores responderam com discretos 422 votos. A vitória foi do candidato Carlos Anibal Ruso (PSDB), com 4281 votos, 50% dos 8546 votos válidos. A isso muito se deve a queda em parafuso do PT em nível nacional e a ascensão do PSDB, partido mais votado no País nestas eleições. Não se inclui neste cenário um fenômeno chamado Eduardo Suplicy, vereador mais votado do Brasil, com mais de 300 mil votos. E pelo PT. 
Mas, convenhamos, o santo de casa que, de fato, fez milagre nestas eleições em Mato Grosso do Sul estava a quilômetros de distância, com nome, sobrenome e certidão de nascimento ladarenses: Álvaro Urt. Ele foi eleito prefeito da cidade de Bandeirantes com uma vitória por apenas 35 votos de vantagem sobre seu maior concorrente, Márcio Faustino, que tentava a reeleição. O ladarense de 63 anos, produtor agropecuário, contabilizou 1539 votos contra 1504 do seu rival. Este sim, um "milagre" que seus familiares, amigos e eleitores creditam à sua luta incansável durante a campanha e às bênçãos de Nossa Senhora Aparecida, padroeira de Bandeirantes. Polo agropecuário ao lado da BR-163 e em torno de Camapuã, Rochedo, Jaraguari e Corguinho, a próspera Bandeirantes fica a 70 km de Campo Grande, conta com menos de 7 mil habitantes, IDH alto, de 0,73,e vai completar em novembro 53 anos de fundação. 
Márcio, Marta e Álvaro Urt (em pe),
Maria e Varito (abaixo) em Campinas, 1977
Ainda adolescente, Álvaro e sua família deixaram Ladário ao lado da família para uma nova vida em Sumaré, na grande Campinas, e ao voltar formado a Mato Grosso do Sul seguiu o caminho da política e da pecuária. Pertence a um dos ramos da família Urt, que aportou de navio em Ladário há 103 anos, vinda de Jerusalém, na Palestina, trazendo os irmãos Isaac, Jamil, Abdo e Isaías. Filho de Maria e Varito Urt, neto de Margarida e Isaac Urt, ele também brincou nas ruas de terra da 14 de Março, onde nasceu e cresceu, ao lado dos irmãos Márcio, hoje pecuarista em Campo Grande, e da irmã Marta, que se casou e foi morar nos Estados Unidos. Dos EUA e outros tantos pontos onde existam parentes e admiradores de Álvaro agora chegam, via facebook, centenas de saudações ao único ladarense eleito nas disputas para prefeito em Mato Grosso do Sul. Pela coligação União, Respeito e Trabalho (DEM, PMN, PEN), Álvaro apresentou um plano de governo que pretende transformar Bandeirantes em uma das principais cidades do Estado em qualidade de vida e desenvolvimento sócio-econômico. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

MPF e MPT garantem reforma do barco Guató

Barco Guató no porto de Corumbá, reformado, antes da viagem reinaugural
O barco Guató zarpou para a ilha Insua, norte do Pantanal, a 350 km da área urbana de Corumbá, em uma viagem de 36 horas, sem pressa, pelas águas modorrentas do rio Paraguai. Houve tempos em que esse trajeto colocava em risco a vida dos chamados índios canoeiros do Pantanal: em condições precárias, com um buraco no casco, eles passavam a viagem inteira tirando a água que invadia o velho barco. Neste dia 12 de agosto, reformado após passar quatro meses no estaleiro, o barco Guató navegou sem medo. “Graças ao Ministério Público reformamos nosso barco”, disse o cacique Severo Ferreira, enquanto ajeitava os últimos carregamentos antes da viagem “reinaugural” do revitalizado Guató.
De fato, uma ação do Ministério Público Federal (MPF), com recursos financeiros do Ministério Público do Trabalho (MPT), garantiu a reforma do barco que pertence à etnia há mais de duas décadas. “Foi a primeira reforma do barco que ganhamos há 23 anos”, acrescentou Dalva, mulher do cacique. 
Doado aos indígenas pela Miserium, organização não-governamenal alemã, em 1993, a embarcação navegava em condições precárias pelo rio Paraguai. Por falta de manutenção, um furo no casco fazia o porão inundar durante as viagens até a aldeia. O barco ficou meses atracado no porto de Corumbá enquanto aguardava a liberação da verba para entrar no estaleiro. “Estava muito cada vez mais arriscada nossa viagem de ida e volta até a ilha”, comentou Dalva.
Os recursos para a reforma saíram em nome da Associação Guatós de Indígenas Canoeiros do Pantanal, que precisou abrir uma conta na agência do Banco do Brasil. O orçamento da reforma ficou em R$ 130 mil, quantia repassada pelo MPT. Recursos provenientes de multas aplicadas pelo MPT em ações de combate à ilegalidade trabalhista.
O barco serve para transportar indígenas das 45 famílias guatós que habitam a ilha Insua, além de mercadorias. A embarcação foi projetada para navegar com dez pessoas, mas para atender as necessidades dos indígenas foi ampliado, além de receber um motor WM 4 cilindros mais potente, doado pelo governo do Estado há dez anos.
O cacique Severo e sua esposa Dalva, evangélicos, comandam a aldeia Uberaba, onde um dos dezesseis filhos do casal, Zaqueu, é professor. Uma das filhas mora em uma casa da família no bairro Cristo Redentor, reduto de outros guatós que, urbanizados, preferem viver na cidade. Na ilha de Insua, duas centenas deles vivem em comunidade, mas em casas separadas, com uma escola municipal e uma igreja evangélica. Comem o que plantam e colhem, mas também recebem cestas básicas do governo.
Severo e Dalva completam neste ano 50 anos de casados. Integrante do Conselho Municipal Indígena, em 2015 Dalva prestou depoimento à Comissão da Verdade, instalada para apurar crimes no período da ditadura militar. Os guatós vivem em uma área muito inferior à que habitavam originalmente, antes da chegada dos colonizadores, por isso consideram legítima qualquer manifestação para a ampliação do território.

Projeto da UFRJ quer manter viva a língua guató

Cacique Severo e Dalva com os netos no barco Guató
A língua tem sido muito importante para fortalecer a cultura, a formação da identidade indígena e a reconquista de territórios dominados. Por sorte os guatós ganham parceiros para tentar manter viva sua língua, ameaçada de extinção. Nesta primeira viagem do barco reformado seguiu a professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Adriana Viana Paravisine, participante de uma oficina de ensino da língua guató em São Lourenço, já no rio Cuiabá, no vizinho Mato Grosso, onde vive outra comunidade guató. A oficina faz parte de um projeto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), criado pela professora Bruna Fracetto. Mato Grosso do Sul possui a segunda maior população indígena do País, depois do Amazonas. Nas duas aldeias da cidade de Japorã, fronteira com o Paraguai, a 480 km de Campo Grande, capital de MS, 60% da população – 4.500 pessoas - pertencem às etnias guarani-nandeva e guarani-kaiowá, e nas quatro escolas indígenas as aulas são ministradas em português e guarani. La, o coordenador pedagógico da rede municipal de ensino é o professor Joaquim Adiala, que pertence à etnia guarani.

Etnia habita ilha ao lado de batalhão do Exército

Professora Adriana participa de projeto da língua guató 
Os guatós são focalizados no documentário "500 almas", do diretor Joel Pizzini, de 2005. Eles perderam suas terras e foram considerados equivocadamente extintos nos anos 70, até serem redescobertos por uma freira salesiana em Corumbá, e em 1998 tiveram território demarcado pela Funai na ilha Insua. Na aldeia funciona a Escola Municipal Indígena João Quirino, nome em homenagem ao líder guató que morreu aos 116 anos de idade. Historiadores e memorialistas registram a presença da etnia guató em terras de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso desde o século XVI. Assim como outras etnias, os guatós foram expulsos de suas terras, ocupadas por fazendas de gado, que avançaram na região a partir de 1940. A aldeia Uberaba hoje ocupa 10.900 hectares, que agora dividem com um batalhão do Exército, no Pantanal norte, fronteira com a Bolívia. Pontos de honra para a etnia guató são o trabalho artesanal com o uso de madeira e talos de camalote (aguapé), vegetação nativa do rio Paraguai, e a construção de canoas de um pau só, ou seja, esculpidas em um tronco de árvore – tanto é assim que ficaram conhecidos como “os últimos índios canoeiros do Pantanal”.





segunda-feira, 11 de julho de 2016

Família Urt: 103 anos em Ladário

As duas meninas da frente, sentadas: Helô e Malu; mais acima, sentada,
Margareth, e mais atrás Zezinho; sentados, Maria Assad e Jamil Urt; ao
lado, Rosângela e mais atrás Jamilzinho. Na fileira de trás, em pé, estão
o casal Octavio, com Nelson no colo, e Beia, Biga, Lila, Naná, Myrtes
e o casal Edith e Heldo Delvizio, com João Bosco no colo. Ao fundo,
estão os casais Demétrio, com Tantino no colo, e Edith; Bebé e Izel;
Railda e Vitor, com Rosinha no colo (Arquivo Família Urt)
O navio vapor Venuz aportou no rio Paraguai trazendo os pioneiros da família Urt. Exatamente no dia 28 de junho de 1913 os irmãos Jamil, Isaac, Abdo e Isaías carimbavam seus passaportes de chegada a Ladário, que adotaram como novo lar. São 103 anos de um desembarque que definiu a trajetória de mais de uma centena de pessoas que hoje carregam e honram este sobrenome, formaram suas famílias, construíram suas histórias. Vieram de Jerusalém, da nação Palestina, eram filhos de Nakle Urt e Almaza Baranke Urt. Em Ladário Jamil se uniu a Maria Assad, enquanto Isaac se casou com a irmã dela, Margarida Assad. Igualmente descendentes árabes, os Assad vieram do Líbano, que por sinal abriga hoje o grande contingente de imigrantes palestinos refugiados após a ocupação do Estado da Palestina por Israel. Os casais Urt-Assad formaram a base de quatro gerações e mais de uma centena de descendentes espalhados por Ladário, Corumbá, Campo Grande, Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão, por todo o País.  A imagem desta página mostra o ramo de três gerações dos Urt formado pela união entre Jamil e Maria. Neste aniversário de 103 anos da chegada da família Urt, é o momento em que todos nós, espiritualmente unidos, agradecemos por todas as benções que nos são concedidas do céu e da terra, pelas mãos de Deus. Parabéns aos que se foram e deixaram saudade, aos que ficam e ainda escrevem a sua história, e aos muitos que ainda virão para preencher de luz, justiça e honestidade o futuro da nossa linhagem. Sim, a cultura árabe permanece viva em nossos corações. E para celebrar esta data nada melhor do que uma canção da libanesa Tania Kassis, uma ativista pelos direitos humanos no Líbano e nos países do Oriente Médio.
ttps://www.youtube.com/watch?v=toXZrXqmCE0




terça-feira, 10 de maio de 2016

Como fotografar uma onça-pintada

Onça-pintada será tema de um dos livros de Araquém Alcântara
Engana-se quem imagina que Araquém Alcântara não tem medo de onça-pintada. O maior fotógrafo de natureza do País, de 64 anos, confessa que sempre fica trêmulo quando vê o felino, mesmo mantendo uma certa distância. A potente lente de sua câmera digital de 800 milimetros faz com que a fera fique bem próxima, parece estar a poucos metros do fotógrafo, e aí vem o medo. Foi o que sentiu em dezembro de 2015, quando esteve no Pantanal da Serra do Amolar capturando imagens para seu novo livro.
“Foi uma conspiração do destino, se tivesse saído na hora certa teria perdido ela”, diz. “Era para eu sair às cinco da manhã, mas o carro quebrou e só consegui sair às oito e meia, e dali a quinhentos metros da porteira lá estava ela, no capão, eu não tinha visto ela mas ela tinha me visto, estava me espreitando enquanto eu, distraído, fotografava uma arapuã (ave pantaneira cantante parecida a uma galinha de angola)”.
Araquém estava no chão, afastado do carro, e foi avisado pelo seu amigo e assistente Leonello Concha, engenheiro e fotógrafo paulista. “Ela estava parada, com água até a canela, olhando pra mim. E eu olhando pro lado. Com medo total. E os caras lá em cima conversando. Eu estava no chão”. Passado o susto, Araquém disparou a câmera e armazenou as imagens da onça-pintada do capão neste que chamou de “grande encontro” no segundo dia de viagem, em dezembro passado. A imagem ilustra esta reportagem e vai estar no próximo livro, Pantanal do Amolar, patrocinado pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), gestor da Rede de Proteção e Conservação da Serra do Amolar. O livro fica pronto dentro de três anos. “A presença de uma figura enigmática como Araquém projeta para todo o País a riqueza do Pantanal do Amolar, e nos ajuda no importante trabalho de preservação", destaca o presidente do IHP, Angelo Rabelo.
De volta a Corumbá para coordenar um workshop para profissionais e amantes da fotografia, de 20 a 27 de maio no Pantanal da Serra do Amolar, Araquém passou pela sede do IHP nesta segunda-feira, 9 de maio de 2016. Ele ainda sofre muito com o calor de Corumbá, e está sempre em mãos com uma toalhinha para enxugar as gotas de suor que pingam como cachoeira pela testa. Sabe, porém, que o calor e os mosquitos do Pantanal são um preço irrisório diante do espetáculo de vida proporcionado pela natureza. “Além da Serra do Amolar, um mundo macro do Pantanal, vou percorrer outros pantanais (ao todo, são onze), passando pela Nheolândia, o Paiaguás. São fisionomias geográficas diferentes. O Pantanal da Nhecolândia, visto de cima, é um negócio de doido”, exulta o fotógrafo. “São lagoas redondas, finas, com cores diferentes, às vezes tem areia e capões, parecem olhos d’água”.

Araquém e seu livro no Porto Geral de Corumbá
Em busca da Sussuarana, a onça vermelha, no Paiaguás

O Pantanal do Paiaguás, conta Araquém, é a terra da sussuarana, que possui o pelo com tonalidade marrom avermelhada. “É a felis concolor, conhecida como a onça vermelha, é um bicho lindo, parece um leão”, conta Araquém, revelando conhecimento sobre os nomes científicos das feras que ilustram as páginas de seus livros. Ele também persegue a onça preta, outro animal cada vez mais raro de se encontrar na planície pantaneira. Trata-se da mesma onça pintada, porém com mais pigmentação de melanina.
Tanto fascínio levou Araquém a produzir um livro dedicado às onças, com o título provisório de “Jaguaretê” (em língua tupi-guarani, onça verdadeira), que pretende lançar em 2017. Seu livro mais conhecido é Terra Brasil, editado em 1998, que já vendeu 120 mil exemplares, recorde no País entre as publicações voltadas à natureza.

Gansos selvagens retratados pelas lentes de Araquém Alcântara
Passo a passo para quem quer aprender segredos do mestre

O workshop na Serra do Amolar será o primeiro, por isso Araquém prevê dificuldades durante a capacitação do grupo de fotógrafos, que vão aprender desde as melhores técnicas, até a maneira de se posicionar na mata, equacionar distância, enquanto espera-se a passagem dos bichos. É o passo a passo para quem pretende, por exemplo, fotografar uma onça-pintada tão bem quanto Araquém. Não custa tentar. Ela pode demorar a aparecer. E quando aparece é preciso controlar a emoção e o medo, para o dedo não tremer.
Para este workshop havia apenas oito vagas, ao preço de R$ 9.800 para fotógrafos de outros Estados e R$ 8.000 para os locais, por uma semana, com direito a acomodação e alimentação. Os custos são sempre muito altos, devido à distância, à locomoção e à logistica, com base em uma pousada no coração do Amolar. “Trata-se de uma imersão na fotografia no Pantanal, um privilégio, uma semana que vale por meses”, acentua Araquém. E para breve ele pretende coordenar em Corumbá uma oficina de dois dias com preços mais acessíveis a iniciantes e profissionais. Afinal, quem ama a fotografia de natureza sonha um dia fotografar ao menos uma inofensiva arapuã.

Serviço: Workshop de Fotografia Araquém Alcântara no Pantanal do Amolar. De 20 a 27 de maio. Inscrições: Terra Brasil Editora, telefone 11-3044-1013, e-mail: araquem1@terra.com.br

Leia mais sobre Araquém Alcântara na reportagem "Olhar amoroso sobre a natureza" no canal Reportagens deste blog: http://nelsonurt.blogspot.com.br/p/reportagens.html















segunda-feira, 4 de abril de 2016

Democracia, golpe, corrupção e o complexo de vira-latas

Aula Pública no Campus Pantanal: momento de reflexão e ação
Imaginem cursar jornalismo nos anos 70, anos de chumbo da ditadura, quando o jornalista Vladimir Herzog acabava de ser assassinado nos porões do DOI-Codi, aparelho de repressão militar em São Paulo, e a censura ditava a lei da mordaça aos meios de comunicação e universitários. Tempos proibidos a Marx, Engels e a qualquer outro nome da esquerda, enquanto a disciplina de Geopolítica versava apenas sobre as suntuosas obras da ditadura para garantir o “milagre brasileiro” em um currículo totalmente esvaziado. Fazer faculdade do faz-de-conta era, no mínimo, um chute no saco (quando não se era preso e torturado). Passei por essa amarga experiência como estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, na avenida Paulista. Época em que o Centro Acadêmico era um razoável ponto de resistência, pois ali pelo menos poderíamos tocar e cantar Chico Buarque e outros da MPB. Em 1978 participei da greve dos jornalistas e de piquetes na porta da Folha de S.Paulo, na tentativa de barrar a saída dos jornais para as bancas. Inútil, havia muitos fura-greves a serviço dos patrões. As assembléias da categoria eram realizadas não no sindicato na rua Rego Freitas, mas diante do altar da Igreja da Consolação – território neutro, onde estaríamos protegidos de uma provável repressão militar. Mais da metade da categoria perdeu o emprego, como retaliação das empresas - e eu fui um deles. Mas a greve serviu como um divisor de águas para colocar de um lado os jornalistas de princípios éticos e coletivos, e aqueles que posavam como jornalistas mas eram apenas marionetes nas mãos da chamada imprensa-empresa.
Quatro décadas depois, eis-me aqui neste auditório do Campus Pantanal UFMS, superlotado de estudantes e professores que respiram os bons ventos da liberdade e da democracia nesta Aula Pública. Que façamos bom proveito. Podemos e devemos, sim, com certeza e bons propósitos, ler e discutir Marx e Engels, exercer nossos direitos sem sermos taxados de subversivos. Discutir a verdadeira geopolítica, a sociologia, a filosofia, a antropologia, reconstruir e cobrir a história com um espírito isento e crítico.
Neste emblemático e de triste memória 31 de março, manchado pelo golpe de 1964 que nos amordaçou durante 21 anos, nada melhor do que repetir de alto e bom som que “este erro não queremos repetir”. Sobram motivos, e eles foram perfilados durante a  Aula Pública “Geopolitica Global e a Crise no Brasil: um convite à reflexão”, encabeçada no Campus Pantanal UFMS pelas mentes brilhantes dos professores Elisa Freitas (Geografia), Fabricio Santiago (Filosofia) e Ahmad Schabib (História).

Eis algumas das reflexões colocadas pelo professor Ahmad Schabib, do curso de História:

“A  gente tem que ver a historia sem preconceito, tem de ter grandeza da alma, tem de perder esse jeito vira-lata de ser.” ( A frase "complexo de vira-latas", cunhada pelo jornalista, dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, referia-se à baixa auto-estima do povo brasileiro, que se sente inferior aos demais povos, principalmente europeus e norte-americanos. “O brasileiro (...) cospe na própria imagem”, afirmou Nelson.

“Dizem que o capitalismo deu certo, mas deu certo para menos de 1% da humanidade, o resto foi navio negreiro, foi assim que eles fizeram dinheiro, levando a batata andina que virou batata inglesa, levando chocolate asteca que virou chocolate suíço. Então , o capitalismo vive da roubalheira. Essa operação lava-jato poderia ter sido denotada muito tempo antes”. (A esse respeito, a professora Elisa Freitas, doutora em Geografia Humana pela USP, afirma que o PT (Partido dos Trabalhadores) errou ao não trocar a diretoria da Petrobras herdada do governo FHC, diante dos indícios de corrupção; e “o abacaxi caiu no colo da Dilma”, concluiu.

“Quando ficaram sabendo que FHC (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) havia recebido 7 milhões de dólares de algumas empreiteiras antes do final do mandato, quando já havia criado o Instituto FHC, disseram: “deixe o velhinho trabalhar, deixa o velhinho sobreviver”. Isso foi dito por um jornalista”.

“Esses dois (Karl Marx e Friedrich Engels, autores do Manifesto Comunista)  em 1848 falaram o óbvio que até então ninguém tinha falado, que a sociedade se constitui de classes, que tem um lado de quem está por cima da carne seca e tem o lado de quem nem tem a carne seca, sua própria carne é seca, já nos ossos.”

“A luta de classes se dá por interesses antagônicos. Se uma determinada classe tem uma maneira de enxergar a vida, as outras que estão na outra  ponta têm legítimos interesses pelos quais tem de lutar, é a assim que a humanidade vai se superando. Parece chavão, mas na história não há marcha-ré”.

“O presidente da OAB jurava que em 1964 não era golpe. Tivemos 21 anos para ele se desmentir. Não temos o direito de repetir esse erro. Mas não vai ser com militares, não. O golpe hoje é unicamente pelo judiciário. E pelo aparelho policial. Eles estão passando para todos os países que consideram democráticos, entre aspas, um modelo de policia independente. Banco central independente. Sabem o que vai virar o presidente? Um gerente. Eles não querem um presidente estadista, querem presidente gestor.”

Auditóriaofoi pequeno para receber estudantes e profesores
“O maior inimigo dos Estados Unidos não é ideológico mas a questão econômica. Estão em pleno declínio.  Capitalismo vive da crise, da guerra e do roubo. Cria-se estratégia para desovar material obsoleto. Pólvora já não faz parte da estratégia. Espectro global é a estratégia. Se faz através da mídia golpista, que é sonegadora e não paga impostos”.
“Nossa elite tem vergonha de ser brasileira, de conviver no mesmo espaço com o povo brasileiro. Ela só se realiza quando faz papel de agregada da metrópole na Europa e agora nos Estados Unidos.”

“Leiam mais e sejam seletivos. Escolham o que é bom para a formação de vocês, sejam protagonistas. É importante ter orgulho de ser brasileiro, ser latino americano e de viver em uma sociedade miscigenada, mesclada. Por que essa historia de querer ter pedigree? Deixa isso para os pets, porque não somos pet, somos gente, e como gente somos exigentes”

“Além da reflexão, é preciso ação. Tenham orgulho desse país continente, a grande democracia está aqui e agora. Não a deixem ser estuprada.”

Leia no canal Artigos o comentário da professora Elisa de Freitas, doutora em Geografia Humana pela USP, "Geopolitica global e a crise no Brasil".







sexta-feira, 4 de março de 2016

A escola desfigurada: currículo pobre para pobres

Professor Libâneo critica o "empurrãozinho" e a desigualdade social
Em palestra na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS Campus Pantanal, em Corumbá, o filósofo, professor universitário da PUC de Goiás e doutor em Educação, José Carlos Libâneo, de 70 anos, denunciou “o ensino pobre para os pobres”, uma escola descaracterizada, voltada para a empregabilidade e o consumo, norteada pelo pensamento neo-liberal, com currículo desfigurado e centralizado por uma entidade: o Banco Mundial. “Proponho uma escola para formação cultural e científica, baseada no conhecimento e no desenvolvimento cognitivo, afetivo e moral dos alunos, articulada com a diversidade social e cultural dos alunos”, afirmou o professor no auditório lotado do anfiteatro Salomão Baruki. Veja os principais trechos da palestra:

"Estão descaracterizando o papel da escola"

Bom ensino é aquele que promove e amplia o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos, como afirmou Vygotsky (psicólogo bielo-russo). Fazendo isso se consegue desenvolver a capacidade dos alunos. Não quero ser mal-entendido quando digo que a missão pedagógica da escola não pode ser suplantada pela missão social, porque a missão social tem de ser atendida não só pela escola, mas por outras estâncias da sociedade. Hoje estão juntando tudo na escola e descaracterizando o papel da escola.
Se você ler as diretrizes do programa Mais Educação, lá está escrito que a escola precisa responder a uma multiplicidade de funções, é uma escola que visa a prevenção e o remediamento de conflitos sociais. A isso Antonio Nova chama de “escola transbordante’, onde acontece de tudo, menos o trabalho sério dos conteúdos escolares. Há a desfiguração do espaço escolar, da capacidade cognitiva, e com isso a escola perde sua identidade, os professores ficam inseguros.

"Desigualdade é fruto da injustiça social"

Quero esclarecer as criticas que estou fazendo a esse currículo de ações socioeducativa, também chamada de Mais Educação, essa tese de que o papel do sistema educacional é prioritariamente atender a diversidade social. De fato, o reconhecimento da diversidade social representae um avanço no campo da educação, é o primeiro princípio da inclusão social.Também e fato que todos somos iguais, mas todos são diferentes, a diferença é constitutiva, não é excepcionalidade, é uma característica concreta dos seres humanos,e eu não posso ensinar sem levar em conta a diversidade humana.
Mas não podemos valorizar a diversidade ao ponto de deixar de lado as desigualdades sociais. Diversidade e desigualdade social não é são a mesma coisa. Desigualdade não ocorre de diferenças culturais, ela é fruto da injustiça social. Para eu respeitar a igualdade eu preciso assegurar o direito ao acesso ao conhecimento como condição de inserir a criança no mundo do trabalho, da cultura, da política. O problema é que política educacional com práticas voltadas apenas a diversidade podem esta escondendo as desigualdades sociais.

Na igualdade social está o direito das crianças e jovens ao acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento de seus processos psíquicos superiores, como diz Vigotsky.

Palestra lotou o anfiteatro do Campus Pantanal
"Estaremos discriminando os pobres com ensino tolerante"

É freqüente ouvir pessoas dizendo que as crianças pobres são diferentes, tem suas culturas, características sociais, elas precisam de um ensino diferenciado, ou seja, precisam de um “empurrãozinho”. Para atender as diferenças teríamos de fazer um ensino mais facilitado, mais tolerante, compensar carências, botar crianças num turno para educação física, escola de artes e música, é o que dizem. Quem tem esse pensamento acaba estigmatizando a diferença, e com isso pode estar privando os alunos pobres dos direitos que se referem à igualdade. Quando falamos em igualdade, falamos em educação de qualidade.
Então, se a escola for considerada apenas de atendimento à diversidade social e cultural, deixando em segundo plano o direito ao conhecimento e ao desenvolvimento mental, estaremos discriminando os pobres.

"Currículo precário: ensino pobre para pobres"

Estou criticando dois tipos de escola que funcionam assim, em Goiás e São Paulo. Esse modelo de currículo de resultados imediatos, é currículo precário, é o ensino pobre para pobre, é ensino de habilidades práticas, empregabilidade, isso está ocorrendo no mundo todo. Está ocorrendo no Brasil, em países da África.
E quem está por cima dessa reforma do ensino nesses países pobres? É a entidade chamada Banco Mundial. É um currículo frágil, enfraquecido. É como se dissesse: pobre não precisa grande coisa, apenas coisinhas de português, matemática, para melhorar a competência, e para preparar consumidores.
O sistema capitalismo mudou seu sistema de funcionar. Hoje existe muita produção, tecnologia que produz uma imensidão de produtos, que precisam de consumidos. Hoje você tem iogurte de 1,99, para pobres, e de 10 reais. Essa escola que estou descrevendo aqui serve para três coisas:  preparar o menino para uma empregabilidade precária, preparar consumidores e para preparar usuários para as tecnologias digitais.

"Doutrina da Dama de Ferro defende o individual"

Estou propondo uma resistência. O que seria uma escola diferente do que essa que está sendo posta em prática no País? Que tipo de sociedade e que tipo de educação nós queremos? Façam uma reflexão: para que serve a escola? Qual o sentido que as crianças tem indo à escola?
Temos basicamente duas maneiras de ver a sociedade. Uma delas é por meio da competência individual, do papel empreendedor, da concorrência, do ensino individualista. Esta visão de sociedade é muito bem descrita por uma senhora que foi Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Tatcher, chamada de “A Dama de Ferro”, que impôs no país o neo-liberalismo, que é a doutrina que defende o individual, em que as pessoas só querem saber de resolver seu interesse pessoal. “Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos”, afirmava Tatcher.
Outro projeto é o foco na sociedade, no projeto coletivo, na inclusão, no cidadão participativo, na inclusão de todos, projeto em que você faz um escola que se define como democrática mas no sentindo de possibilitar ensino de qualidade, acesso aos conhecimentos e desenvolvimento das capacidades intelectuais.

"Uma escola para formação cultural e científica"

Proponho, portanto, esse segundo modelo, uma escola para formação cultural e científica, baseada no conhecimento e no desenvolvimento cognitivo, afetivo e moral dos alunos, articulada com a diversidade social e cultural dos alunos.  Não vou desconhecer as condições sociais histórias e concretas dos meninos no seu cotidiano.

Defendo a escolarização igual para sujeitos diferentes. Não podemos separar igualdade diferença. Não podemos privilegiar diferença em prejuízo da igualdade, porque isso é praticar injustiça. Porque Paulo é diference ele tem de ter ensino ruim, fraco? Precisamps promover interfaces pedagógicas e as formas do conhecimento local e cotidiano. Relação dos conhecimentos científico, da escola, e conhecimento do cotidiano que as crianças trazem da sua situação de vida. Concluo afirmando que nosso trabalho, como professores, é um caminho de duplo movimento. Conhecimentos históricos das crianças, da experiência cotidiana, devem ser retrabalhados pelas professores na escolas e, dessa forma, os alunos retornam às suas práticas culturais com compreensão ampliada.

Bibliografia: mais detalhes sobre o pensamento do professor José Carlos Libâneo estão publicados nos seus principais livros, “Democratização da Escola Pública – A Pedagogia Crítico-social dos Conteúdos”, “Didática” e “Pedagogia e Pedagogos, para quê?”




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Até a crise 'dançou' no Carnaval de Corumbá

Bloco dos Palhaços fechou desfiles do Carnaval de Corumbá
Vejam que frase memorável, digna de intensas reflexões: “a identidade de Mato Grosso do Sul está em Corumbá”. Ela foi dita pelo secretário de Estado do Turismo, Nelson Cintra, no camarote da imprensa, durante o desfile do Grupo Especial do Carnaval corumbaense. Trata-se de um reconhecimento histórico. Cintra lembrou que a divisão do Estado trouxe enormes prejuízos e nos roubou a identidade, agora resgatada por Corumbá. Entendo o recado que Cintra quis passar: Corumbá dá a resposta em nome de todo o Mato Grosso do Sul. Hoje a cidade representa a fina flor da cultura sul-mato-grossense, não só por organizar o melhor Carnaval do Estado. Muitos corumbaenses ainda não acreditam nesse potencial, mas isso virá com o tempo. Desafiando a fria lógica dos números e da economia, que tirou o Carnaval oficial de 33 cidades do Estado, Corumbá decidiu bancar investimentos em um dos seus maiores produtos culturais, apelou para a iniciativa privada, e apostou certo. E o que é o Carnaval senão a maior manifestação cultural brasileira, ao lado do futebol? 
Hélènemarie Fernandes: luxo na avenida e alta no turismo
O balanço do Observatório de Turismo, que será anunciado pela Fundação de Turismo, vai revelar números amplamente favoráveis. Em primeira mão, posso anunciar um deles: o aumento de 10% de entrada de turistas via aérea, um dos portais pesquisados. Cresceu também o número de turistas paraguaios, argentinos e chilenos, impulsionados pela queda do valor do real diante da moeda deles, sem contar, é claro, o explosivo fluxo de bolivianos, nos hotéis, restaurantes, lojas, em todo o comércio. Outro dado que o Observatório de Turismo vai revelar é que os hotéis tiveram 90% de vagas ocupadas no período de Carnaval. "Estamos avançando e atraindo cada vez mais turistas do Centro-Oeste e interior de São Paulo, e no Estado somos imbatíveis", constatou Hélènemarie Fernandes, diretora da Fundação de Turismo de Corumbá, falando do Carnaval.
Tanabi como "a Tia": 40 carnavais
E onde está a crise? Ela, de fato, existe, mas foi devidamente sufocada pelo tratamento adequado dado à cultura e ao turismo. O clima ajudou, choveu pouco, os índices de violência foram reduzidos, os ventos foram tão favoráveis que espalharam alegria por todos os cantos da cidade e até o prefeito Paulo Duarte foi visto sambando ao lado dos garis da limpeza pública, a turismóloga Hélènemarie brilhou na ala das baianas da Vila Mamona e o gestor de cultura José Antonio Garcia, o Tanabi, cumpriu a tradição de levar para o bloco Cibalena seu maior personagem, "a Tia". Enfim, tudo é Carnaval, tudo é cultural. Só mesmo as mentes dualistas ou fundamentalistas ainda insistem em enxergar nestes dias de folia dionisíaca a face diabólica do mal, escondida atrás das máscaras de pierrôs, arlequins e colombinas no Bloco dos Palhaços - e palhacinhos. E aí eu pergunto: se tudo isso é o mal, onde estará o bem?