terça-feira, 11 de agosto de 2026

Lejeune Mirhan: memórias e lutas de um militante comunista corumbaense


Maio de 1977. Em plena ditadura militar, um protesto mobiliza 15 mil estudantes para uma passeata em São Paulo. Ao atravessarem o Viaduto do Chá, gritando pelas liberdades democráticas, são duramente reprimidos pela tropa de choque da Polícia Militar. Bombas de gás lacrimogêneo caem sobre as primeiras fileiras de estudantes. Enquanto muitos recuam, um jovem corpulento, de barba e óculos de graus, se adianta e, sozinho, chuta uma das bombas de volta na direção dos policiais. “Era o Lejeune, conhecido na época pelo apelido de Mato Grosso”, conta o jornalista Igor Fuser, ao evocar a histórica passeata e relembrar um traço marcante do jovem militante corumbaense Lejeune Mirhan. A imagem seria retratada pelos jornais paulistas.

Dois anos antes ele havia iniciado sua militância no Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e ajudou a reorganizar o DCE Livre da USP em São Paulo. No fim daquele ano, o partido decidiu deslocá-lo para Campinas, com o objetivo de construir a organização estudantil nas duas universidades da cidade. Décadas depois, em Campinas, criaria sua própria editora, a Apparte, para publicar suas obras e de outros camaradas sem oportunidades.

Ao encerrar seu ciclo neste plano material em 6 de agosto de 2026, aos 69 anos, Lejeune possuía 23 livros publicados, entre eles Marx para principiantes, E se Gaza cair..., Palestina, Reflexões sobre a multipolaridade do mundo, Relatos de viagem: Síria e Líbano, todos baseados em suas minuciosas pesquisas. Sociologia, geopolítica, sindicalismo, marxismo, cultura árabe foram áreas em que se especializou e fez questão de compartilhar, incansavelmente, com seus alunos, amigos e admiradores.

O sociólogo, escritor e ativista político Lejeune Mirhan nasceu em Corumbá em dezembro de 1956, no tempo em que nosso estado era Mato Grosso e nossa capital era Cuiabá. Descendente de sírios e armênios que chegaram a Corumbá em 1913, migrou com a família para São Paulo, onde se estabeleceu e se tornou um dos mais influentes escritores e articulistas da geopolítica internacional, com intensa participação nos podcasts de canais independentes do youtube, entre eles o portal Brasil 247.

Formou-se em Ciências Sociais pela PUC-Campinas em 1981 e fez o mestrado em Filosofia da Educação entre 1982 e 1984 na mesma PUC. Deu aulas em universidades e na rede pública. Foi um árduo defensor da inclusão obrigatória da Sociologia e da Filosofia no ensino médio. Fundou, ao lado de Florestan Fernandes, o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, do qual foi presidente duas vezes.

“No debate geopolítico contemporâneo, Lejeune destacou-se por demonstrar, com absoluto rigor científico, que o mundo já se tornou multipolar”, declarou José Reinaldo, presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz), que Lejeune ajudou a criar.

“Lejeune partiu deste mundo, mas não partiu da história”, escreveu o jornalista Leonardo Attuch, criador do portal e TV Brasil 247. “O mundo pelo qual ele lutou, estudou, ensinou e militou já se impôs. A multipolaridade, que durante muitos anos foi tratada pelos centros de poder ocidentais como uma hipótese distante, uma ameaça ou até uma fantasia, hoje é uma realidade concreta. Lejeune venceu porque a tese central que orientou sua vida pública venceu. O planeta já não aceita ser comandado por uma única potência, por um único sistema financeiro, por uma única narrativa geopolítica ou por um único centro de poder”.

Convivi por algumas semanas com Lejeune – cujo nome, em francês, quer dizer O Jovem – durante o curso de Mestrado dos Estudos Fronteiriços da UFMS, na unidade 3, no Porto Geral de Corumbá. Ele veio cursar uma disciplina optativa ministrada pelo professor de História Paulo Esselin. No final das aulas, escolhíamos os melhores bares corumbaenses para longos bate-papos sobre política, geopolítica, literatura, ao lado de Esselin. Ganhei dele o livro Relatos de Viagem: Síria e Libano, de 2015, que já era um prenúncio do que viria ser, onze anos depois, a guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Tenho também na minha biblioteca comunitária “E se Gaza cair...”

Criou o Comitê pelo Estado da Palestina e o Comitê de Solidariedade ao Povo da Síria, e combatia a exaustão o imperialismo estadunidense e seus aliados sionistas. Tornou-se figura imprescindível nos debates e entrevistas dos canais independentes durante o ápice da guerra EUA-Israel-Irã. Recentemente havia feito uma viagem à China, que resultou na reportagem A “República Popular da China que eu conheci”, compartilhada com seus seguidores em quatro episódios no seu Canal de Geopolítica, no Youtube.

Para sua família e amigos, antes de partir, deixou este lembrete: “Se você quiser me encontrar, pare um pouco e, em silêncio, pense em mim; se quiser me encontrar, olhe bem dentro de você, sinta seu coração bater forte, sinta-se feliz e não procure mais por mim; eu estou aí...dentro do seu coração”.


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