sexta-feira, 31 de julho de 2020



Bismark e o título de doutor honoris causa
Um maratonista na pista e na gestão portuária

Aos 53 anos, Bismark Rosales participa da Maratona de Nova York e, como gestor, põe Canal do Tamengo na rota dos grandes terminais de exportação pelo Atlântico

Nelson Urt

Ele correu, aos 53 anos, a Maratona de Nova York de 2019 em 4 horas e 37 minutos em um frio de 4 graus. E agora se prepara para a mesma prova, que neste ano de pandemia será disputada em novo formato em novembro: cada atleta correrá em sua própria cidade, monitorado por um aplicativo acionado a um relógio de pulso que medirá a localização e vai cronometrar o tempo, da saída à chegada, sob controle remoto dos organizadores em Nova York.
Em Nova York, desafio na maratona
Não se trata de um desafio para qualquer um. São 42 quilômetros de corrida por cinco diferentes bairros de Nova York, normalmente disputada sob temperatura baixíssima no inverno dos Estados Unidos. Para se ter uma ideia, o brasileiro mais bem colocado na prova do ano passado foi Fredison Costa, um dos 29 maratonistas a cobrir o percurso em menos de 3  horas. Ficou em 28º lugar. Bismark foi um dos 50 mil competidores de 125 países na prova.
Para um desempenho seguro, o boliviano Bismark Rosales treina diariamente, em Corumbá, onde é residente permanente e mora com a família. Sai para correr às 4h da manhã do Centro ao Lampião Aceso, posto rodoviário da BR-262, ou na esteira rolante na própria casa. Com minha idade, tenho de tomar uma série de precauções porque a maratona exige um esforço sobre-humano e um preparo físico impecável para não afetar o coração”, diz Bismark. “Até para os atletas de ponta não se permite disputar mais do que duas maratonas por ano, acrescenta.

Nas ruas de Nova York: suor e frio
ADMINISTRADOR Nº 1

Não só no esporte, mas também nos negócios, os resultados revelam que a vida de Bismark é uma maratona bem sucedida. É que por trás do atleta amador que desafia o peso da idade existe um profissional de enorme capacidade de persistência e superação. Ele acaba de receber  da Organização Mundial dos Defensores de Direitos Humanos OMDDH - Pacto ONU-Nações Unidas, o título de Doutor Honoris Causa pelos serviços prestados no desenvolvimento portuário da Bolívia, país que desde a perda da saída para o mar no conflito com o Chile vive um impasse para escoar produtos de exportação pelo Pacífico.
A ideia de Bismark de oferecer o porto do Canal do Tamengo como saída pelo Atlântico para escoar a produção do país vizinho acabou sendo aceita e se tornou realidade. Bismark estudou na Escola de Pós-graduação da Armada Boliviana, é diplomado em Interesses Marítimos, Fluviais e Lacustres, entre outros cursos da área. A parte mais difícil ele conseguiu com apoio da UNCTAD, braço do comércio e desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU), com que sempre teve ótimas relações. Como parte do programa como instrutor de Gestão Moderna de Portos, o objetivo dele era provar que esse serviço poderia ser feito por um porto privado, no caso o Complexo Portuário Jennefer, da qual é gestor, em Puerto Quijarro, fronteira com Corumbá.
Como Mestre em Gestão e planificação portuária e intermodalidade pelo Portos do Estado da Espanha, com selo de Universidades de Coruña, de Cadiz, de Oviedo e Politécnica de Madrid, o desafio de Bismark foi montar uma estratégia para desenvolver na Bolivia a capacidade de escoar sua produção pelo porto do Canal do Tamengo. O primeiro passo foi convencer as autoridades bolivianas a quebrar a antiga regra de que só o Estado podia realizar comercio exterior via portos.
A normativa da Bolívia não permitia que portos privados realizassem comércio exterior, exceto indústrias com próprios portos para exclusivamente escoar sua própria produção, conta Bismark. Ocorre que em 80% dos países o comércio internacional é por via marítimo fluvial. Somos um país mediterrâneo e por isso a Bolivia não é competitiva no mercado internacional. Sempre faltou uma logística apropriada. E o transporte terrestre é muito mais caro. Por que então não investir no Canal do Tamengo e usar a saída para o Atlântico?”
Para receber a resposta positiva e concessão oficial do governo boliviano, o porto foi desenhado de acordo a normativas bolivianas  e  internacionais. Hoje o Porto Jennefer está incluído no mapa mundial dos negócios de exportação. O curioso e gratificante, segundo Bismark, é que boa parte da mão de obra em prestação de serviços utilizada no porto é brasileira. “São 14 empresas terceirizadas brasileiras e bolivianas atuando na prestação de serviços. Como estamos na fronteira, é mais fácil adquirir produtos de Campo Grande  e Corumbá, do que de Santa Cruz, conta.

CANAL DE LUXO

O terminal hidroviário Jennefer possui 105 hectares, o equivalente a 100 quadras de uma pequena cidade. Temos de ser muito eficientes para competir com dois gigantes como Brasil e Argentina e conseguir uma fatia no mercado internacional de exportações”, diz. E hoje, enfim, o Tamengo poderia ser transformado num canal de luxo, como diz Bismark: são apenas 7,5 quilômetros que se convertem na única saída da Bolívia para o mar. A nova concessão hidroviária proporciona os primeiros resultados, com o aumento do comercio internacional e a elevação do PIB boliviano.
Com mestrado em Gestão portuária e intermodalidade na Espanha, o Doutor H.c. Bismark Rosales Rojas agora parte para o curso de doutorado na mesma área. Especializou-se num setor que até o século passado era restrito aos militares das forças armadas. Motivado por esta honraria e outras menções de louvor recebidas na Sessão Online no dia 25 de julho,  continua motivado junto a sua família, para seguir seu autodesenvolvimento e o desenvolvimento social desta região de fronteira.

(Veja no canal Reportagens esta publicação em espanhol e inglês)


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