sexta-feira, 31 de março de 2017

Erasmus Mundus, o desafio de um planeta sustentável

Equipe de mestrandos visitou o Moinho Cultural neste final de março
Eles vêm de diferentes pontos do mundo em busca de intercâmbio e aprendizado. Estudam para ser mestres, especialistas em sustentabilidade, uma palavra que hoje em dia expõe o ser humano a enormes desafios. Afinal, como se discutir e defender sustentabilidade em um planeta poluído, à beira de um colapso, com centenas de desastres ecológicos pipocando nos continentes. Mas assim é o ser humano, nunca desiste, em busca de seus projetos de vida. Com a palavra, Caterina, Janine, Dao Thu, Felipe e Vicent.
O Instituto Moinho Cultural Sul-Americano, pelo quinto ano, recebeu a visita de intercâmbio dos alunos do último semestre da quinta turma do Programa Erasmus Mundus – Mestrado Internacional em Desenvolvimento Territorial Sustentável, em parceria com o programa de pós-graduação em Desenvolvimento Local em Biotecnologia – Mestrado e Doutorado da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), neste dia 27 de março.
O programa é promovido no Brasil pela UCDB em consórcio com três universidades europeias: Universidade Pantheon-Sorbonne Paris 1 (França), Universidade de Estudos de Pádua (Itália) e Universidade de Louvain (Bélgica). Os mestrandos cursaram os três primeiros semestres na Europa e agora iniciam estágio de seis meses no Brasil para o trabalho de conclusão de curso.
Eles vieram acompanhados pela assessora de Relações Internacionais da UCDB e diretora acadêmica do Master Erasmus Mundus, Cleonice Alexandre Le Bourlegat, e pela doutora Dolores Pereira Ribeiro Coutinho, docente e pesquisadora do programa de pós-graduação em Desenvolvimento Local da UCDB. Foram recepcionados pela diretora executiva do Instituto Moinho Cultural Sul-Americano, Márcia Rolon. “É muito importante essa troca de experiências e a oportunidade de conhecerem o trabalho do Moinho, que tem como base a arte que transforma vidas”, destacou Márcia. “Cada vez que venho sinto algo diferente e especial”, contou o secretário do programa de Mestrado e Doutorado da UCDB, Renato Diacopolus.
No Moinho, os mestrandos assistiram a uma apresentação especial dos bailarinos da Companhia de Dança do Pantanal, que acaba de ser criada pelo Moinho como forma de abrir espaço para dançarinos de toda a comunidade. Citados como exemplos de transformação, ex-beneficiários do Moinho agora compõem a Cia da Dança ou se tornaram professores do instituto e de outras instituições de Corumbá, Ladário e na Bolívia.
Cinco mestrandos do Erasmus Mundus compõem o grupo que visitou o Moinho: Caterina Dada (Itália), Janine Alisha Gölz (Alemanha), Dao Thu Trang (Vietnã), Felipe Thornberry Giraldo (Colômbia) e Vicent Vasseur (Bélgica). Suas pesquisas e dissertações abrangem as áreas de ciência lingüística, gestão internacional, arquitetura, ciências sociais e engenharia comercial. Também participa do intercâmbio Miguel Mendoza, acadêmico de Letras da Universidade Silva Henriquez do Chile, bolsista na UCDB.
Pesquisas
 “Minha pesquisa é na área de resíduos sólidos, venho ao Brasil pela primeira vez e percebo extremos: gente muito conectada com a natureza mas uma grande agricultura industrial e produção de carne”, ressaltou a alemã Janine Golz, de 25 anos. “A diversidade me encanta, o Brasil parece ter vários países dentro de um”, afirmou a vietnamita Dao Trang, que como todos os demais tem fluência em francês e inglês (uma exigência do curso), e se esforçou para entender o português de uma pequena integrante do Moinho durante o lanche.
O Moinho mantém 280 beneficiários em aulas de música, dança, apoio escolar, educação ambiental, cidadania e tecnologia no contraturno escolar e conta com o patrocínio máster da Vale, patrocínio da Cielo, parceria da J.Macedo e tem como parceiros institucionais a Prefeitura de Corumbá, Prefeitura de Ladário e a Prefeitura de Puerto Suarez (Bolívia).
Projetos do IHP
Na mesma tarde, os mestrandos visitaram a Casa Vasquez, sede do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), integrante da Rede de Proteção e Conservação da Serra do Amolar. No IHP, ficaram conhecendo seus principais projetos e programas: o Curso de Estratégia para a Conservação da Natureza, a Plataforma de Diálogo e a Plataforma GeoPantanal.

terça-feira, 7 de março de 2017

MPF aciona ALL, IPHAN e DNIT por degradação da ferrovia


Antes e depois: estação privatizada e abandonada em MS
Um patrimônio em ruínas, resultado da falta de respeito com o patrimônio histórico e cultural de Mato Grosso do  Sul. O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF) ajuizou ação civil pública contra a empresa América Latina Logística (ALL) pelo abandono de 14 estações ferroviárias localizadas entre os municípios de Três Lagoas e Água Clara. Os prédios, construídos no início do século XX e tombados por lei estadual como patrimônio histórico e cultural, estão em estágio avançado de degradação pelo efeito do tempo e da ação humana.

Este é o resultado da negligência quando se trata de má administração de um bem público que cai nas mãos de empresas privadas. Coincidentemente, a ferrovia foi relegada ao abandono no período de maior desenvolvimento da indústria automobilística e a pavimentação das rodovias estaduais, entre elas a BR-262, que liga Corumbá a Campo Grande. Este trecho também foi abandonado pela ALL. Querem provas? Basta dar um passeio pela esplanada ferroviária de Corumbá. E o Trem do Pantanal virou lenda.

Na ação ajuizada, o MPF busca medidas efetivas para a conservação do bem público, reparação dos danos causados ao patrimônio histórico e cultural e preservação da memória da ferrovia em Mato Grosso do Sul. Na visão da instituição, “não cuidar desses bens é relegar as próprias origens dos municípios e desprezar a história do desenvolvimento do Bolsão sul-mato-grossense, importante região do Estado”.

Na demanda do MPF, além da ALL Malha Oeste e ALL Holding (controladora da ALLMO), são réus: o Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre (DNIT), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a União. Os órgãos e instituições foram considerados, pelo Ministério Público, inertes e negligentes na fiscalização do patrimônio ferroviário.

À Justiça Federal, o MPF pediu, liminarmente, que a ALL, concessionária dos serviços de ferrovia no estado, seja obrigada a efetuar a limpeza e a dedetização das estações ferroviárias e oficinas que estão sob seus cuidados; adote medidas de conservação e vigilância em tempo integral; repare os danos causados ao patrimônio público e devolva ao DNIT as unidades ferroviárias que não estiverem sendo efetivamente utilizadas.



História da ferrovia



A história da ferrovia em Mato Grosso do Sul se mescla com a história da constituição do Estado. Não por acaso, várias estações ferroviárias foram tombadas pela Lei estadual nº 1.735/97 como patrimônio histórico e cultural. Construída no início década de 20, a ferrovia carrega a história do desenvolvimento político, social e econômico do Bolsão sul-mato-grossense.

Nos anos 90, com a privatização da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), a exploração do transporte ferroviário de cargas foi repassada, por meio de contratos de concessão, a empresas particulares. Em MS, o serviço foi concedido a Ferrovias Novoeste, hoje América Latina Logística Malha Oeste (ALLMO).

Com essa nova configuração, os bens da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil – de propriedade da União e tutelado pelo DNIT - foram arrendados para a ALL, a qual tem o dever contratual de cuidá-los. O que se tem visto, no entanto, é o abandono do patrimônio público.


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Harley-Davidson traduz modo de vida, doação e liberdade


O harleyro Glauco, de 60 anos, conversou com crianças do Moinho
Parece incrível, mas a moda de motorizar bicicletas, comum nas ruas de Ladário e Corumbá, está relacionada com a criação, há 103 anos, das potentes motos Harley-Davidson. Dois jovens dos Estados Unidos, Harley e Davidson, tiveram a ideia de colocar um motor no aro de uma bicicleta para se divertir, sem noção de que estavam criando uma das máquinas mais cobiçadas e incrementadas do mundo moderno. Hoje, mais do que um meio de transporte ou sonho de consumo, essas máquinas significam para milhares de pessoas um estilo vida despojado, a mais pura manifestação de liberdade. Quem compra uma Harley, nova ou usada, por preços que variam de 30 a 60 mil reais, entra automaticamente para clubes com sócios e filiais em todo o planeta. Ser harleyro é um estado de espírito.

Um desses clubes, o Harley Owers Group (HOG Pantanal), passou neste fim de semana por Corumbá arrancando suspiros dos fãs e sorrisos afetuosos das crianças do Moinho Cultural. Com sede em Campo Grande, ponto de concentração, os rapazes e garotas do HOG romperam os 420 km da Capital até Corumbá e foram recebidos com todas as honras no Moinho, para de cara saborearem um quebra-torto, prato típico da culinária pantaneira, e assistirem a uma apresentação de dança e música pelos integrantes do Moinho. Para alguns como Glauco Oliveira, de 60 anos de idade e mais de 30 de estrada, ser chamado de rapaz é força de expressao. "Andar sem regras, sobre moto, é minha paixão", diz.

Harleyros recebidos no Moinho com quebra-torno e música
É a terceira vez que o grupo vem a Corumbá para o HOG Pantanal Weekend, mas é a primeira vez que escolhem o Moinho como parceiro para doação. A filantropia é uma das missões do grupo. Todo o dinheiro arrecadado em leilões de peças originais Harey – suporte de capacete, tanque de combustível e casaco de couro – os harleyros, como são conhecidos, doaram para o Moinho, que mantém 280 crianças, adolescentes e jovens de Corumbá, Ladário e da Bolívia em aulas de dança, música, cidadania, tecnologia e apoio escolar, e anualmente realiza o espetáculo Moinho in Concert.

Criado em 1982 em Campo Grande, o HOG Pantanal Weekend trouxe a Corumbá 120 pessoas, de diferentes pontos do País. Além da Capital, havia harleyros de São Paulo, Cuiabá, Maracaju, Dourados e Santa Cruz de la Sierra (Bolívia). Para o próximo encontro, em 2017, o diretor do HOG, Reinaldo Castilho, pretende trazer pelo menos 150 harleyros.

Grupo HOG visitou Moinho dia 10 de fevereiro
Entre o grupo estão advogados, comerciantes, empresários, publicitários, sozinhos ou formando casais, alguns com crianças. O advogado Sebastião Rolon Neto e a terapeuta ocupacional Alessandra trouxeram a filha Luana mas a família vai receber em breve mais duas meninas. Alessandra está grávida de gêmeas e desta vez, por precaução, não veio na garupa da moto do marido, preferiu o carro. “Sou parceira dele em todas as viagens de Harley-Davidson e não podia deixar de vir de novo a Corumbá”, afirmou a gaúcha Alessandra. “Sempre me emociono muito quando venho ao Moinho e vejo as crianças”, acrescentou.

O antropólogo paulista Adalto Carneiro veio com sua Harley de Cuiabá, Mato Grosso, prepara um artigo focalizando “a tribo nos motociclistas” e, como historiador, certamente vai se lembrar das aparições de astros do cinema como Marlon Brando e James Dean em cima de uma Harley-Davidson em filmes dos anos 50 que começavam a associar motociclistas à fama de cauboys do asfalto, rapazes rebeldes e amantes da aventura. Menos rebeldes e mais caritativos, os harleyros entram neste século XXI cultivando o velho lema da calça jeans desbotada e o intenso desejo de liberdade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Em oficina no Moinho, teatrólogo aplica a descolonização do corpo

Iván Nogales (centro) durante roda de conversa no Espaço Motirô
O teatrólogo e escritor boliviano Iván Nogales coordena a oficina “Descolonização do corpo” nesta segunda e terça-feira no Instituto Moinho Cultural. Linhas gerais da oficina estão condensados em três livros lançados por Nogales neste domingo, durante roda de conversa no Espaço Motirô, no Moinho, com representantes do teatro, artes plásticas e visuais, dança, música, assistência social e comunicação de Corumbá.
Nogales dirige a Fundacion Compa, uma das mais atuantes da América do Sul, com sede em El Alto, cidade andina ao lado de La Paz, em um trabalho que envolve crianças, adolescentes e jovens. Em 1989 ele fundou o Teatro Trono, o grupo de teatro boliviano com maior projeção internacional, com extenso diálogo e comunicação cultural com o exterior.
A proposta de Nogales para os povos da América do Sul tem muito a ver com o conceito do poeta e ativista sul-africano Mia Couto sobre a descolonização na questão do continente africano. “Uma coisa é a independência, e outra a descolonização. A descolonização do pensamento ainda não ocorreu. Olhamos para a África com valores europeus. É preciso uma ruptura para mudar a situação”, diz Mia Couto.
A ideia de Nogales se encaixa no objetivo do Instituto Moinho Cultural na integração cultural dos povos sul-americanos. Márcia Rolon, fundadora do Moinho, conheceu Iván Nogales há 13 anos em La Paz e ficou admirada por seu trabalho. “Ivan foi uma pessoa que fortaleceu a ideia de fazer o Moinho integrado com a Bolívia. Queremos fazer com que Corumbá seja um centro sul-americano, fazendo essa ponte, para que nossa cidade seja um laboratório, com troca de experiências”, destacou Márcia.
Iván Nogales propõe um teatro para a comunidade. “Não queremos um teatro muito separado da gente. Por isso fazemos um teatro comunitário, pouco a pouco chegamos a esse conceito de descolonização do corpo. Quando chegaram os colonizadores foi uma época muito difícil, de genocídios e negação das culturas. Agora tentamos superar esses códigos coloniais", afirmou.

O teatrólogo reproduz seus trabalhos em livros
Em seu livro La Descolonización del Cuerpo, Nogales diz: “Apesar do tempo, das constituições republicanas e dos discursos, o inimigo principal do corpo hoje segue sendo a Colônia: uma máquina de planar que passa e repassa sobre nós, recordando-nos a cada dia nossa condição de pessoas inferiores e historicamente negadas”.
Colônia, conforme descrito por Nogales, significa toda forma de uso e abuso do outro ou de usurpação dos domínios do outro, do espaço, do tempo e da energia do outro. “É por isso que descolonização do corpo é uma tarefa de altíssimo interesse estratégico’, diz.

Iván aplicou oficina aos integrantes do Moinho Cultural
Em El Alto, cidade a 4 mil metros de altitude, na Bolívia, Iván mora na casa que pertenceu ao pai dele, Indalecio Nogales, um dos membros da guerrilha boliviana de Teoponte, que defendeu os ideais de Che Guevara após a morte do revolucionário. É para a altiplano andino que Iván segue nesta quinta, 9 de fevereiro, onde traça os novos rumos da excursão da Oficina La Descolonización del Cuerpo e do grupo de teatro Trono. Até o final do ano, ele vai percorrer a Espanha e outros países europeus. Iván conta que ficou órfão aos seis anos de idade após perder o pai, morto na guerrilha. "É um homem que nunca esqueço, seus ideais eu carrego comigo até hoje, me inspiro nele", revela.







sábado, 31 de dezembro de 2016

APA Baía Negra, o legado de Ladário à natureza

Baía Negra, santuário ecológico no Pantanal de Ladário-MS
A APA Baía Negra é um divisor de águas na administração do meio ambiente em Ladário, cidade de 22 mil habitantes no Pantanal de Mato Grosso do Sul, a 420 km da Capital. A importância da criação da Área de Preservação Ambiental no espaço da antiga estrada da Codrasa é tanta que o prefeito José Antonio e sua equipe acreditam que a história do município ganhou um perfil ambientalista a partir de sua instituição, em 2010. “Ladário passou a ser conhecida como a Ladário da APA Baía Negra, e começou a chamar muito mais a atenção de pesquisadores e ambientalistas de todo o País”, analisa o prefeito. “E no futuro, temos certeza, essa área será um destino turístico de relevância e uma vasta fonte de recursos para o município”, prevê.
E uma das peças chaves das ações implementadas na APA Baia Negra é a bióloga Ligia Teixeira, mestre em Estudos Fronteiriços pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde se graduou, e ex-professora de Ciências da Escola Municipal João Baptista. Ela ainda lecionava quando a Prefeitura, em 2009, estava em busca de uma bióloga para atender as demandas ambientais da Secretaria de Obras e Serviço Públicos. Foi cedida pela Secretaria de Educação e, em 2010, nomeada gerente de Meio Ambiente. “Fiz um trabalho de formiguinha, busquei me informar e capacitar na Fundação de Meio Ambiente de Corumbá e no primeiro ano fizemos juntos a Semana do Meio Ambiente”, lembra Ligia.
Neste ano, com as mudanças provocadas pelas eleições, Ligia Teixeira assumiu o cargo de diretora presidente da Fundação de Meio Ambiente de Ladário e assim concluiu os oito anos de mandato da administração de José Antonio. Ela acaba de tomar posse no cargo de bióloga gestora de atividades organizacionais, agora como efetiva. E vai assessorar a nova diretora presidente da Fundação, a bióloga Andréa Victorio, também funcionária efetiva da Prefeitura.
Bióloga Lígia Teixeira ajudou a instalar a APA
Ligia Teixeira considera a APA Baia Negra o maior legado deixado pela Fundação de Meio Ambiente às novas gerações. Ela foi uma das primeiras pessoas a chegar de barco na baía Negra, após atravessar pelos estreitos canais, ziguezagueando, rompendo os camalotes da baia do Arrozal. Isso ocorreu durante uma expedição neste ano organizado pela Fundação, com participação de diretores e técnicos da Embrapa Pantanal, Ibama, Agraer e outras entidades ligadas ao Meio Ambiente. “É um percurso de seiscentos metros entre a baia do Arrozal e baia Negra, quando o rio está mais cheio,e os barcos entram zingando pelos canais”, conta. “É uma região belíssima, que vale a pena ser visitada para pesquisa, contemplação, e que ainda vai significar muitas reservas para o turismo”, diz.

A APA Baia Negra é um programa em construção e deve crescer muito mais, segundo Ligia Teixeira. Está previsto a instalação de um píer dentro da baia do Arrozal para facilitar a imersão de pesquisadores e turistas. Caiaques e stand-ups devem ser disponibilizados para turistas, que terão as visitas monitoradas pelos próprios moradores, que serão funcionários capacitados pela Fundação de Meio Ambiente. “No mesmo espaço, está previsto a criação de um receptivo para turistas e ao lado uma torre de 30 metros, como temos na Estrada Parque, onde pesquisadores e visitantes poderão fazer suas observações e fotografar animais do Pantanal”, destaca a bióloga.

Ex-pousada agora é sede do Conselho Gestor
Canais são cercados por camalotes em área paradisíaca
Outra mudança favorável à APA Baía Negra foi a reintegração de posse da antiga Pousada Vitória Régia, cujo imóvel estava instalado irregularmente em área da União. O órgão responsável por essa fiscalização é o SPU (Serviço de Patrimônio da União). Agora quem administra a pousada é o Conselho Gestor da APA Baia Negra, que tem como presidente Ligia Teixeira e conta com moradores como representantes. Na sede da ex-pousada são promovidas ações como corrida rústica, ciclismo, Moto Cross, dentro da semana de aniversário da APA Baia Negra, com apoio do Exército, que cede barracas, e da Marinha e do Corpo de Bombeiros. Neste ano o Ibama ofereceu um barco de passeio para que estudantes da rede municipal. “Na baia Negra, as árvores ficam infestadas de macaquinhos, os bugios”, conta a bióloga.

Município cede área para Aterro Sanitário
Outros avanços são o Plano Municipal de Resíduos Sólidos e o Plano Municipal de Saneamento Básico, que acabam de ser aprovados pela Câmara e foram repassados à nova administração. Também existe um termo assinado com Corumbá em que Ladário entra como consorciada na construção do Aterro Sanitário, que será responsável pelo armazenamento sustentável e reciclagem de todo o lixo descartado pelas duas cidades, quase 200 toneladas diárias. A área de construção do aterro fica em território de Ladário, na zona rural, imediações do Lampiao Aceso, e já conta com uma pré-licença ambiental do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul). Todos os recursos para a construção do aterro intermunicipal serão destinados pelo Ministério do Meio Ambiente. 




sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Banda Ministério Betel e o Natal dos enfermos

O violonista Rodrigo, o sanfoneiro Claiton e as vocalistas Luana, Quezia e Valeska costumam percorrer os leitos dos enfermos do Hospital de Caridade, na Santa Casa de Corumbá, pelo menos uma vez por mês. Eles formam a Banda Ministério Betel Casa de Deus e criaram o Projeto Música nos Leitos, com a proposta de levar a música de louvor com mensagens cristãs, palavras e gestos de amor e carinho para os acamados. E nesta véspera de Natal não podia ser diferente. Acompanhei-os na visita da manhã esta sexta-feira, 23 de dezembro, e constatei o quanto é importante esta atitude de solidariedade, que recebe como resposta imediata os largos sorrisos das crianças, jovens e idosos adoentados, no momento em que o grupo “invade” os quartos e derrama sobre aqueles pacientes canções de amor e esperança. Compartilham o pensamento do grande aniversariante deste final de semana natalino, Jesus Cristo. Duas crianças, Tiago e Tarcis, este em um traje vermelho de Homem Aranha, apoiavam o grupo e distribuíam pequenos panetones aos pacientes. “Eles fazem com que as pessoas não se sintam sozinhas”, afirmava dona Deise Campos, em visita ao hospital. “Quebram a monotonia, amenizam as dores, trazem alegria”, definia a psicóloga Eva Mateus, coordenadora do setor de Humanização da Santa Casa. 
O importante é que a Banda Ministério Betel voltará mais vezes durante todo o ano de 2017 e enquanto durar o projeto. Especializado em música gospel pop e sertaneja, o grupo prepara o lançamento do seu primeiro CD. A mistura do violão de Rodrigo e a sanfona de Claiton, com a vibração afinada das garotas vocalistas, resultam num efeito diferenciado e de muito bom gosto à banda corumbaense.

domingo, 13 de novembro de 2016

No Quebra-torto com Letras, os segredos de poetas e letristas

No Moinho Cultural, poetas contam lições de vida para o público
Nesta mormacenta manhã de domingo, debaixo de pingos quentes de chuva, aqui nas barrancas do rio Paraguai, na sede do Instituto Moinho Cultural, em Corumbá, o segundo dia do Quebra-torto com Letras do Festival América do Sul começa com um toque do hit de Frejat: “Por você, eu dançaria tango no teto/Eu limparia os trilhos do metrô/Eu iria a pé do Rio a Salvador/Eu aceitaria a vida como ela é/Viajaria a prazo pro inferno/Eu tomaria banho gelado no inverno/Por você eu deixaria de beber/Por você eu ficaria rico num mês/Eu dormiria de meia pra virar burguês”. Ora, mas aí vocês podem perguntar o que tem a ver Frejat com o Quebra-torto com Letras. Bem, quem conta a história é o próprio autor do poema, um dos convidados da mesa redonda, Mauro Santa Cecília, carioca de 54 anos. Ele escreveu essa poesia inspirada em uma vizinha de quem estava apaixonado e queria conquistar, e a mostrou para Frejat, seu amigo desde os tempos de colégio, que resolveu transformá-la em letra de música. “Por você” explodiu nas paradas, pela banda Barão Vermelho, e mudou a vida de Mauro Santa Cecília, que virou letrista e passou a viver de direitos autorais. Esse é apenas um dos segredos da poesia, que pode, sim, render uma grande música. Mais uma vez, os poetas conseguem mostrar  ao público o potencial transformador da literatura. 
Emmanuel, de macacão: 'operário das palavras'
No mesmo caso se enquadra outro escritor convidado, Emmanuel Marinho, poeta e ator douradense, que produz e vende CDs com suas poesias musicalizadas. Quase tudo o que compõe vira música, e ele já gravou dois CDs, Teré e Encantares. Mas ele também é conhecido por ser uma voz de protesto na sociedade com poemas como “Etanol” e autor de performances como o “Poeta Palhaço”, “Porã” e “O Encantador de Palavras”. Usa macacão por considerar-se um “operário da palavra”. Outra contribuição veio do escritor e jornalista paulista Bruno Molinero, repórter da Folha de S.Paulo, ganhador do Prêmio Guavira de Literatura com o livro do poemas “Alarido”. E o que faz Bruno de tão extraordinário, podem perguntar? Ora, ele apenas transforma em linguagem poética os perfis das pessoas que entrevista em suas reportagens, quase sempre figuras invisíveis da periferia paulistana. Mauro, Emmanuel e Bruno comprovam que, por meio da literatura, podemos realizar sonhos e projetos considerados impossíveis. Porque a poesia é como nossa própria vida. "Por você, eu mudaria até o meu nome/eu viveria em greve de fome/desejaria todo dia a mesma mulher". Querem saber o final da história, não é: Mauro não conquistou a vizinha, mas a poesia dele conquistou o País.