sexta-feira, 31 de julho de 2020



Bismark e o título de doutor honoris causa
Um maratonista na pista e na gestão portuária

Aos 53 anos, Bismark Rosales participa da Maratona de Nova York e, como gestor, põe Canal do Tamengo na rota dos grandes terminais de exportação pelo Atlântico

Nelson Urt

Ele correu, aos 53 anos, a Maratona de Nova York de 2019 em 4 horas e 37 minutos em um frio de 4 graus. E agora se prepara para a mesma prova, que neste ano de pandemia será disputada em novo formato em novembro: cada atleta correrá em sua própria cidade, monitorado por um aplicativo acionado a um relógio de pulso que medirá a localização e vai cronometrar o tempo, da saída à chegada, sob controle remoto dos organizadores em Nova York.
Em Nova York, desafio na maratona
Não se trata de um desafio para qualquer um. São 42 quilômetros de corrida por cinco diferentes bairros de Nova York, normalmente disputada sob temperatura baixíssima no inverno dos Estados Unidos. Para se ter uma ideia, o brasileiro mais bem colocado na prova do ano passado foi Fredison Costa, um dos 29 maratonistas a cobrir o percurso em menos de 3  horas. Ficou em 28º lugar. Bismark foi um dos 50 mil competidores de 125 países na prova.
Para um desempenho seguro, o boliviano Bismark Rosales treina diariamente, em Corumbá, onde é residente permanente e mora com a família. Sai para correr às 4h da manhã do Centro ao Lampião Aceso, posto rodoviário da BR-262, ou na esteira rolante na própria casa. Com minha idade, tenho de tomar uma série de precauções porque a maratona exige um esforço sobre-humano e um preparo físico impecável para não afetar o coração”, diz Bismark. “Até para os atletas de ponta não se permite disputar mais do que duas maratonas por ano, acrescenta.

Nas ruas de Nova York: suor e frio
ADMINISTRADOR Nº 1

Não só no esporte, mas também nos negócios, os resultados revelam que a vida de Bismark é uma maratona bem sucedida. É que por trás do atleta amador que desafia o peso da idade existe um profissional de enorme capacidade de persistência e superação. Ele acaba de receber  da Organização Mundial dos Defensores de Direitos Humanos OMDDH - Pacto ONU-Nações Unidas, o título de Doutor Honoris Causa pelos serviços prestados no desenvolvimento portuário da Bolívia, país que desde a perda da saída para o mar no conflito com o Chile vive um impasse para escoar produtos de exportação pelo Pacífico.
A ideia de Bismark de oferecer o porto do Canal do Tamengo como saída pelo Atlântico para escoar a produção do país vizinho acabou sendo aceita e se tornou realidade. Bismark estudou na Escola de Pós-graduação da Armada Boliviana, é diplomado em Interesses Marítimos, Fluviais e Lacustres, entre outros cursos da área. A parte mais difícil ele conseguiu com apoio da UNCTAD, braço do comércio e desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU), com que sempre teve ótimas relações. Como parte do programa como instrutor de Gestão Moderna de Portos, o objetivo dele era provar que esse serviço poderia ser feito por um porto privado, no caso o Complexo Portuário Jennefer, da qual é gestor, em Puerto Quijarro, fronteira com Corumbá.
Como Mestre em Gestão e planificação portuária e intermodalidade pelo Portos do Estado da Espanha, com selo de Universidades de Coruña, de Cadiz, de Oviedo e Politécnica de Madrid, o desafio de Bismark foi montar uma estratégia para desenvolver na Bolivia a capacidade de escoar sua produção pelo porto do Canal do Tamengo. O primeiro passo foi convencer as autoridades bolivianas a quebrar a antiga regra de que só o Estado podia realizar comercio exterior via portos.
A normativa da Bolívia não permitia que portos privados realizassem comércio exterior, exceto indústrias com próprios portos para exclusivamente escoar sua própria produção, conta Bismark. Ocorre que em 80% dos países o comércio internacional é por via marítimo fluvial. Somos um país mediterrâneo e por isso a Bolivia não é competitiva no mercado internacional. Sempre faltou uma logística apropriada. E o transporte terrestre é muito mais caro. Por que então não investir no Canal do Tamengo e usar a saída para o Atlântico?”
Para receber a resposta positiva e concessão oficial do governo boliviano, o porto foi desenhado de acordo a normativas bolivianas  e  internacionais. Hoje o Porto Jennefer está incluído no mapa mundial dos negócios de exportação. O curioso e gratificante, segundo Bismark, é que boa parte da mão de obra em prestação de serviços utilizada no porto é brasileira. “São 14 empresas terceirizadas brasileiras e bolivianas atuando na prestação de serviços. Como estamos na fronteira, é mais fácil adquirir produtos de Campo Grande  e Corumbá, do que de Santa Cruz, conta.

CANAL DE LUXO

O terminal hidroviário Jennefer possui 105 hectares, o equivalente a 100 quadras de uma pequena cidade. Temos de ser muito eficientes para competir com dois gigantes como Brasil e Argentina e conseguir uma fatia no mercado internacional de exportações”, diz. E hoje, enfim, o Tamengo poderia ser transformado num canal de luxo, como diz Bismark: são apenas 7,5 quilômetros que se convertem na única saída da Bolívia para o mar. A nova concessão hidroviária proporciona os primeiros resultados, com o aumento do comercio internacional e a elevação do PIB boliviano.
Com mestrado em Gestão portuária e intermodalidade na Espanha, o Doutor H.c. Bismark Rosales Rojas agora parte para o curso de doutorado na mesma área. Especializou-se num setor que até o século passado era restrito aos militares das forças armadas. Motivado por esta honraria e outras menções de louvor recebidas na Sessão Online no dia 25 de julho,  continua motivado junto a sua família, para seguir seu autodesenvolvimento e o desenvolvimento social desta região de fronteira.

(Veja no canal Reportagens esta publicação em espanhol e inglês)


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Diário do fim do mundo - 9ª Parte


Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira de Ladário-MS
1. QUANDO cito neste diário a expressão “fim do mundo” me refiro ao fim deste mundo tal qual ele se configurava até fevereiro de 2020. Acredito efetivamente que está pandemia carrega o dom de construir um mundo melhor quando cessar o bafo venenoso do Covid-19. Vai provocar uma mudança de atitude das pessoas – e de toda a humanidade – levando a uma transformação esperada por todos os profetas. 
2. O CALENDÁRIO MAIA profetizou o fim do mundo (ou o começo de uma nova era) para 2012. Chico Xavier, em sua última entrevista, revelou que haveria grandes transformações a partir de junho de 2019. O professor e doutor Andris Tebecis, da Sukyo Mahikari, durante um Seminário em Campo Grande-MS, afirmou que, naquele ano, 2010, começava a “era da Luz e o governo de Deus”. Hoje poucos duvidam dos efeitos concretos dessas três profecias, mas há outras, que prefiro não citar para não estender o assunto. 
3. VOCÊS JÁ pararam para pensar como os trilhões de dólares movimentados nos megaespectáculos de toda a natureza, nas vultosas operações das empresas multinacionais, nas gigantescas negociações das corporações promovem o acúmulo de riqueza de uma casta privilegiada, provocam desequilíbrio social que beneficia poucos e tira o sustento básico de alimentação e habitação de milhares de pessoas em todo o mundo? Pois é, e agora? Com quase tudo parado, ou desacelerado, o mundo tal qual o conhecíamos, feito de conquistas materiais, desenfreado  consumo, poder econômico e acúmulo financeiro deve dar lugar a um modo de vida mais equilibrado, sustentável, racional, solidário ou seja lá como queiram conceituar – por obra do acaso, da natureza ou do sopro divino. É pelo menos o que todos esperamos. Não se aceita mais a retórica de que os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres. 
4. O DISTANCIAMENTO, as quarentenas, os isolamentos sociais, as máscaras de proteção, a higienização, a reforma dos sistemas sanitários são apenas pano de fundo nesta crise que deve culminar com um novo estilo de vida marcado pelo fim do desperdício, pelo reaproveitamento material, a reciclagem, o fim do descartável e da nefasta indústria que desde o advento do capitalismo promoveu a massificação de produtos. Pode não ser uma volta completa às origens, mesmo porque hoje dispomos de uma tecnologia avançada, mas com certeza um novo olhar aos bem duráveis, ao maior respeito à natureza e às condições naturais de sobrevivência. As máscaras sanitárias estão na ordem do dia como proteção na pandemia, mas o sistema capitalista que só visa o lucro a qualquer custo precisa e deve ser desmascarado para que tenhamos um futuro melhor. 
5. FILME. Como dica cinéfila hoje eu indico “Encontro Marcado” (1998), com impecáveis atuações de Anthony Hopkins, Brad Pitt e Claire Forlaine, pela plataforma Netflix, bem adequado a esses tempos da Covid-19, o vírus da morte. Prestes a ter um colapso cardíaco e desencarnar, o Magnata de 65 anos pergunta à Morte: “Devo ter medo?”. E a Morte responde: “Um homem como você, não”. 
6. MÚSICA. Over de Rainbow compõe a trilha sonora no final apoteótico de Encontro Marcado. Indico a música instrumental ou na voz do havaiano Israel Kamakawiwo’ole. 
7. ENCERRO ilustrando com essa imagem do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, a santa da cura, padroeira de Ladário, cidade de onde escrevo este modesto e breve diário, às margens do rio Paraguai, nas proximidades da fronteira com a Bolivia, ao sul do Pantanal do MS. (Nelson Urt/Navepress)

https://www.youtube.com/watch?v=mBmDg-CNFqY&t=20s



segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Dez emoções nunca vistas no Festival




Danielle, Noemi, Marcelle, Mara e Lucilene: elas por elas
Nelson Urt
Navepress

Gostou do Festival América do Sul? - perguntam-me. na saída do Stand da Literatura. Gostei, respondo, de pronto. Porque consegui extrair deste festival a energia positiva de cada momento que vivi ao lado de amigos e companheiros, artistas, poetas, artesãos, ativistas. Gostei porque dancei e cantei com o MJ6, a mais querida banda pop corumbaense de todos os tempos, durante o show dos seus 50 anos, no último dia do Festival. Chorei ouvindo “Caminho eu” na voz de Tadeu Atagiba. E me arrepiei ao ver o poeta Augusto César Proença literalmente atirar a bengala de lado para bailar como menino diante do palco, do alto dos seus 80 anos e centenas de crônicas publicadas, entre elas uma que virou filme, “Atrás da poeira não vem mais seu pai”. Gostei porque vendi livros, muitos livros artesanais da Maria Preta Cartonera, no stand, ao lado de companheiros da Academia de Literatura e Estudos de Corumbá. Nunca vi na cidade tanto fluxo de pessoas por metro quadrado - isso só na Bienal. Gostei de ter conversado tantas horas com tanta gente interessada em literatura. Sim, também me manifestei: ergui meus punhos em defesa, revolta e protesto contra o massacre dos irmãos bolivianos no ato deflagrado pelo senador-suplente Anísio Guató, pelo professor Schabib Hany e pelo ativista cultural Anibal Monzon na Tenda dos Povos Indígenas, ao lado de etnias terenas, guatós, kadiweus, guarani-kaiowá...
Samuel, Fabián, Marcelo, Férrez e Urt no Quebra Torto
E, de quebra, integrei a mesa de debates do Quebra Torto com Letras, no Moinho Cultural, e aprendi muito com pesos pesados da literatura como os escritores Reginaldo Férrez (roteirista paulista da série e filme Cidade de Deus), Fabián Severo (autor uruguaio de poesias em portunhol),  Marcelo Silva (que lançou o livro Estrada Parque Pantanal) e Samuel Medeiros (autor de Senhorinha – a resiliência feminina na Guerra do Paraguai), com mediação da professa Rosângela Villa. Um dia antes, o Quebra Torto foi das mulheres, belas e empoderadas: Lucilene Machado (autora de Os homens não amam as mulheres), Mara Calvis (As aventuras de Ygor, o peixe barbado, nas águas de Campo Grande), Noemi Jaffe, Danielle Ferreira (O Reino Perdido de Odara), com mediação de Marcelle Saboya. Comprovei que um festival nunca morre quando a gente consegue carregar ele dentro do coração, sabendo que ele, como arte, cultura e educação, é um catalizador, um transformador de vidas. Porque o coração sempre bate mais forte, é uma porta aberta para novas emoções.


sábado, 28 de setembro de 2019

30 razões para gostar da Feira do Imigrante


Os venezuelanos Richardi e Jesus tocaram na Praça da República
Nelson Urt

Do que gostei na feira? – perguntam-me no grupo do Circuito Imigrante, organizador da Feira do Imigrante em Corumbá, em parceria com a UFMS, MPF, Pastoral da Mobilidade Humana e Fundação de Cultura e Patrimônio Histórico. Ah, gostei de um monte de coisas. Cheguei antes das 8h, ainda havia sombras escondendo nosso astro rei neste começo de primavera, 28 de setembro.
Gostei da salteña do Arturito que foi meu café da manhã. Entre mordidas na salteña via as meninas de esticarem numa sessão de yoga dirigida pela professora Claudia Natacha. 
O grafiteiro e desenhista Helker Hernany, de chapéu de palha, chegou em seguida para dar sua oficina de stencil debaixo da copa de uma árvore.
Helker ensinou desenho stencil às crianças
Gostei do vory vory paraguaio, que foi o meu almoço. Vory vory é um cozido de frango e bolinas de queijo preparado por dona Anuncia Ayala, presidente do Asilo São José.
Gostei da poesia do Acelino Chumbo Grosso, meu poeta preferido. 
Comprei o livro Um Texto Meu, da Bruna Souza Arruda, ela já usa aquela maquininha que facilita o troco. Troquei com a escritora algumas palavras. Ela prepara o oitavo livro, essa menina vai longe. Ao lado da Bruna estava a poeta e ativista argentina Vivi Mendez, que expos seus livros na escadaria do monumento aos heróis da guerra do Paraguai. 
Gostei da dança paraguaia do Anjos Dourados, grupo da minha terra Ladário. Gostei do play list da Caroline Leandro, que me atendeu e tocou até Mercedes Sosa, a rainha da música latino americana. 
Gostei da poesia do Anibal Monzon e do Virgilio Miranda, integrantes do grupo Argos de teatro. Gostei de ver o Varal de Cartões do Eneo da Nóbrega – cartões e capas de livros desenhados com a boca ou os pés por uma comunidade de paraplégicos paulistas. 
Grupo Anjos Dourados levou dança paraguaia à praça
Gostei do Varal de Poesias do mestre Benedito C.G. Lima, que dividiu seu tempo e energia entre a feira e o projeto de todos os sábados na Praça da Independência, Passa na Praça que a Arte te Abraça.  
Gostei da declamação de Vitória Toledo, poetisa estreante. Gostei de ouvir violino e trompete dos venezuelanos Jesus Zacarias e Richardi Urbano. Gostei dos geladinhos da Andri Rodrigues e seu atraente carrinho cor-de-rosa. 
Gostei da locução vibrante de Arturo Ardaya na apresentação dos convidados. Gostei da presença solar da estilista Ju Gamboa. Gostei de rever o professor de educação física Carlo Golin. E de rever o boliviano Guzman ao lado de filhas e netos – ele um imigrante pendular, com serviços de turismo em Corumbá e Puerto Quijarro.
Professora Natacha deu aula experimental de yoga 
Enfim, gostei do novo espaço, a histórica e charmosa Praça da República, de onde se avista os prédios centenários da Igreja Candelária e do Instituto Luiz Albuquerque, e do lado norte vemos a ladeira que desemboca nas barrancas do rio Paraguai. Isso só Corumbá tem. Cenário ideal para as próximas feiras. 
Feira do Imigrante que se consolida nos corações e mentes de todos aqueles que veem nela um novo caminho para encontros e reencontros, divertimento, reflexões, discussões e maior entendimento sobre o que de fato é a fronteira e as relações fraternas e democráticas entre os povos da América do Sul.


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Salve o Sarobá! Biblioteca Lobivar é reaberta ao público.


Obras do poeta corumbaense já podem ser consultadas na biblioteca
Nelson Urt
Navepress

Quem anda a procura de livros, principalmente aqueles com histórias da nossa região e suas figuras populares, já pode recorrer à Biblioteca Municipal Lobivar Matos, que teve as portas reabertas na rua Delamare, entre a Major Sertório e a Firmo de Matos, no centro de Corumbá. Na verdade, a biblioteca está de volta às origens, pois desde sua inauguração, em 1948, aquele prédio lhe pertencia.

Lá dentro podem ser consultados os dois únicos e raros livros publicados por Lobivar: Areôtorare (1935) e Sarobá (1936), este com poesias e personagens sobre uma favela de negros formada em Corumbá no período pós-abolição. Só essas duas obras bastam para agregar um rico acervo, mas há muitas outras. O acervo contém 30 mil itens, entre livros, revistas e jornais.

Sarobá e Areôtorare, obras de Lobivar no acervo
A biblioteca foi reaberta ao público neste começo de agosto, após seis meses sem funcionar. Nela, além das obras de Lobivar, podem ser encontrados livros referências na história regional de autores como Manoel de Barros, Pedro de Medeiros, Valmir Corrêa, Augusto César Proença, Benedito C.G.Lima. Há um raro exemplar de Sopa Paraguaia, livro de crônicas e poesias do escritor ladarense João Lisboa de Macedo, além de jornais e revistas do século passado.

Com as cada vez mais constantes anomalias econômicas, políticas e sociais destes tempos nebulosos, os livros, acreditem, foram deixando de ser prioridade para uma certa classe dominante, e a biblioteca acabou perdendo seu espaço. O salão passou a ser destinado a outros setores administrativos ligados à Educação, e ficou conhecido como Espaço Educacional. Foi sede do Cartório Eleitoral e passou uns tempos nas mãos da IFMS. Enquanto isso, a cidade ficava com uma biblioteca municipal sem-teto, provisória e itinerante.

A biblioteca chegou a funcionar no andar térreo do Grande Hotel de Corumbá, onde se instalou por um período a Fundação de Cultura, presidida por Helô Urt. Os demais blocos do Grande Hotel estavam desabitados e interditados pela Defesa Civil.

Meu primeiro contato com as obras de Lobivar Matos foram por meio de Helô, uma apaixonada pelo poeta corumbaense e grande incentivadora da biblioteca fundada em 1948. O acervo ganhou o nome de Biblioteca Municipal Lobivar Matos em 1975, por meio de lei estadual no então Mato Grosso, portanto, antes da divisão do Estado. 

Helô me contou que seu sonho era ver o Grande Hotel um dia revitalizado para se tornar a grande sede da cultura no centro de Corumbá, assim como são o Centro Cultural Luiz Otávio Guizzo e o Centro Cultural da avenida Fernando Correa em Campo Grande.

Quando o prédio inteiro do Grande Hotel foi interditado pela Defesa Civil, por questões de segurança, a biblioteca passou uma temporada em uma sala do prédio da Missão Salesiana, na rua Dom Aquino. Seguindo sua peregrinação, foi transferida para o prédio histórico do Instituto Luiz Albuquerque, na esquina da rua Antônio Maria com a Praça da República. Um dos primeiros conjuntos arquitetônicos construídos em Corumbá, há 148 anos, o ILA já necessitava naquela época de uma revitalização, mas faltavam projetos e recursos para isso.

Em 2014 o prédio do ILA passou por uma reforma emergencial no telhado, que estava caindo. Outros reparos foram feitos nas instalações elétricas. Mesmo deteriorado, o prédio abrigou por longo tempo a sede da Fundação de Cultura, com salas ocupadas pela Biblioteca Municipal Lobivar Matos e o Museu Regional. Durante o Carnaval e o Banho de São João as salas serviam como oficinas de montagem. Ali costuravam-se as fantasias do Bloco dos Palhaços e da Ala das Pastorinhas.

E enquanto isso o teto desabava gradativamente, o piso apodrecido de madeira das salas e escadas cedia, num caminho sem volta para a deterioração. O ILA é um dos prédios históricos contemplados para revitalização completa com recursos da União do PAC Cidades Históricas. Mas até este mês de agosto de 2019, acreditem, o projeto de revitalização ainda não foi concluído pelos órgãos públicos responsáveis – Estado, Prefeitura e IPHAN – e, portanto, os recursos não foram liberados pelo governo federal.

O resultado foi a interdição do prédio, por decisão da Prefeitura de Corumbá, após Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF). Na verdade, o MPF quis acelerar o processo, exigindo da administração pública que fossem tomadas medidas urgentes em atenção à segurança do prédio, seu acervo e funcionários. Com tanto material inflamável, era constante o risco de incêndio e de desabamentos do teto.

Dessa forma, o acervo da Biblioteca Lobivar Matos é agora transferido para o Espaço Educacional, que por sua vez precisa passar por readequações e reformas – os dois aparelhos de ar-condicionado estão quebrados - constatamos isso nesta semana ao entrar na biblioteca.

Serviço – Biblioteca Municipal Lobivar Matos, rua Delamare, 1557, Centro, prédio do Espaço Educacional, entre as ruas Major Gama e Firmo de Matos. Aberta ao público de segunda a sexta das 8h às 17h.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Juventude despedaçada: homicídios crescem entre jovens e negros


O equilíbrio do Pantanal também corre riscos diante da economia de mercado 
Nelson Urt
Navepress

Esta é uma imagem que captei na BR-262 no momento em que regressava pelo Pantanal do Mato Grosso do Sul, no caminho que liga a capital Campo Grande à minha cidade natal, Ladário, à beira do rio Paraguai, na linha de fronteira com a Bolívia. O fato é que há uma tênue linha invisível separando o que se vê e o que se sente neste pôr do sol e o que a sociedade de consumo nos impõe externamente. Mesmo o Pantanal, com sua beleza que parece infinita, corre tantos riscos quanto a Amazônia de perder seu equilíbrio e sua harmonia, e os que dependem dele para sobreviver também são passíveis de ameaças - há mineradoras trabalhando por perto.

Nesse sentido, a economia de mercado, com todos os seus tentáculos, visando o acúmulo de capital e o lucro a qualquer preço, tornou-se uma máquina muito cruel contra os homens e a natureza. E o preço maior está sendo pago pelas camadas mais pobres da população. Negros, jovens e pobres, mais precisamente.

Vejam os números do Atlas da Violência 2019, divulgados neste começo de agosto pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Números oficiais, científicos, nada de achismo, propaganda ou especulação política. 

O Brasil atingiu pela primeira vez em sua história o índice de 31,6 homicídios por 100 mil habitantes, correspondente aos 65.602 homicídios registrados em 2017.  São 179 mortes por dia. O correspondente a uma guerra a cada ano.

E, mais uma vez, a pesquisa comprova que o homem jovem, negro, com até sete anos de estudo, compõe o perfil das pessoas mais sujeitas a esse tipo de morte violenta intencional. A taxa de negros vítimas de violência cresceu 33% entre 2007 e 2017, em dez anos. Em 2017, eram pretas ou pardas 75,5% das pessoas vítimas de homicídio.

Quase 5 mil mulheres mortas violentamente no ano

O ano de 2017 registrou, também, um crescimento dos homicídios femininos no Brasil, chegando a 13 por dia. Ao todo, 4.936 mulheres foram mortas, o maior número registrado desde 2007 – sendo que 66% delas eram negras. Entre 2007 e 2017, houve um crescimento de 30,7% nos homicídios de mulheres no Brasil. 

O Ipea leva em conta um fator crucial para tanta disparidade: há um abismo de desenvolvimento humano entre os municípios mais violentos e os mais pacíficos do Brasil. E o que fazer para encurtar essa diferença? Esta é a questão que muitos preferem responder e combater de modo simplista, elegendo o tráfico e o consumo de drogas como maiores vilões da sociedade. Dentro desse raciocínio, basta aumentar as forças militares, aumentar o número de presídios e colocar mais polícia na rua para buscar a solução. Mas houve solução?

Muitos outros, como nós, defendem outro ponto de vista e dentro de uma nova postura. Uma educação de qualidade para todos, o acesso de todas as classes sociais  às moradias e aos bens de consumo e culturais, a preservação do meio ambiente, o culto às tradições históricas e patrimoniais e o respeito aos direitos civis no Brasil – são princípios chaves que precisamos cultivar para reverter esses números constrangedores que colocam nosso País como um dos mais violentos do planeta.

Campo Grande, a segunda capital mais segura

Se é que isso possa servir de conforto para a gente do Mato Grosso do Sul, Campo Grande ocupa hoje o posto de segunda capital menos violenta do País, com 18,8 homicídios por 100 mil habitantes, atrás apenas de São Paulo. Entre as cidades com mais de 100 mil habitantes em MS, Corumbá é a segunda menos violenta, vindo logo atrás da capital, com 29,6 homicídios por 100 mil, com 30 mortes violentas em 2017, apesar de se localizar na linha da fronteira. Ladário ficou com taxa estimada de 20,6, com 4 homicídios em 2017. 

Os municípios mais violentos de MS ocupam a faixa da fronteira com o Paraguai: são eles Paranhos (índice de 91,3), Antônio João (90,8), Ponta Porã (48) e Itaquiraí (67,8).  
Para se ter uma ideia desse abismo de desenvolvimento humano, entre os dez municípios menos violentos do País, todos do interior de São Paulo, os índices vão de 2,7 de Jaú até 8,5 de Sertãozinho.

Leia mais sobre o tema nesta reportagem do Universa:

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/08/08/mulheres-com-filhos-mortos-pela-policia-vivem-medo-pelos-que-estao-vivos.htm



quarta-feira, 17 de julho de 2019

‘Azul dentro do banheiro”, o livro que comoveu Manoel de Barros

Peninha relançou "Azul" na Casa de Memória Dr. Gabi em Corumbá
Nelson Urt
Navepresss 
Lançado na noite desta quarta-feira, 17 de julho, na Casa de Memória Dr. Gabi, em Corumbá, Pantanal de Mato Grosso do Sul, o livro "Azul dentro do banheiro" leva a assinatura de Marzinha, um dos pseudônimos da poeta e artista plástica Marlene Mourão. 
O livro é uma reedição da obra publicada em 1976 e  traz uma carta que o poeta Manoel de Barros escreveu para Marzinha em 16 de agosto de 1976, pouco depois de ler a primeira edição. “Não sei dizer nada de sua poesia, senão que ela me deu um sacolejão e me jogou no cansanção e me buleversou, desbarrancou, me floresceu, frutificou e me deixou debaixo de um trilho de trem onde eu morri de amores por Marzinha”, escreve Manoel. ‘Louvo o Azul dentro do banheiro, que não tem destinatário, que não pretende nada, que não tem prefácio nem orelha, que não tem padrinho e nem mesmo não tem o nome do autor – mas é um legítimo livro de poesia”, acrescentou.
Marlene, também conhecida como Peninha, se tornou íntima de Manoel de Barros em Campo Grande porque era amiga de uma de suas sobrinhas. “Gosto de ir ao banheiro pra conversar. É o lugar onde eu posso ser eu”, escreve Peninha no livro que funde a poesia com a prosa em um estilo conhecido como prosa poética. 
Ela usa o azul metaforicamente para expressar a neutralidade e a paz que encontra entre as quatro paredes do banheiro. “Eu quero ser eu, eu tenho que ser eu...isso eu preciso”, repete seguidamente nas páginas do livro escrito nos anos 1970, no início dos movimentos feministas que proporcionaram o empoderamento das mulheres – nem todas, é claro – nos dias atuais.
Azul dentro do banheiro é uma obra intimista, capaz de revelar muito da personalidade livre, humilde, pura e despojada da escritora, alguém que – como bem observou o mestre Manoel de Barros – não tem pretensões, e por isso mesmo consegue produzir uma poesia legítima. "Você é uma criança andando perdida no meio das ruínas. É o que me comove em sua poesia, que é legítima, inventiva, despreza as convenções, as falsas ladainhas", resumiu Manoel.