sexta-feira, 4 de março de 2016

A escola desfigurada: currículo pobre para pobres

Professor Libâneo critica o "empurrãozinho" e a desigualdade social
Em palestra na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS Campus Pantanal, em Corumbá, o filósofo, professor universitário da PUC de Goiás e doutor em Educação, José Carlos Libâneo, de 70 anos, denunciou “o ensino pobre para os pobres”, uma escola descaracterizada, voltada para a empregabilidade e o consumo, norteada pelo pensamento neo-liberal, com currículo desfigurado e centralizado por uma entidade: o Banco Mundial. “Proponho uma escola para formação cultural e científica, baseada no conhecimento e no desenvolvimento cognitivo, afetivo e moral dos alunos, articulada com a diversidade social e cultural dos alunos”, afirmou o professor no auditório lotado do anfiteatro Salomão Baruki. Veja os principais trechos da palestra:

"Estão descaracterizando o papel da escola"

Bom ensino é aquele que promove e amplia o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos, como afirmou Vygotsky (psicólogo bielo-russo). Fazendo isso se consegue desenvolver a capacidade dos alunos. Não quero ser mal-entendido quando digo que a missão pedagógica da escola não pode ser suplantada pela missão social, porque a missão social tem de ser atendida não só pela escola, mas por outras estâncias da sociedade. Hoje estão juntando tudo na escola e descaracterizando o papel da escola.
Se você ler as diretrizes do programa Mais Educação, lá está escrito que a escola precisa responder a uma multiplicidade de funções, é uma escola que visa a prevenção e o remediamento de conflitos sociais. A isso Antonio Nova chama de “escola transbordante’, onde acontece de tudo, menos o trabalho sério dos conteúdos escolares. Há a desfiguração do espaço escolar, da capacidade cognitiva, e com isso a escola perde sua identidade, os professores ficam inseguros.

"Desigualdade é fruto da injustiça social"

Quero esclarecer as criticas que estou fazendo a esse currículo de ações socioeducativa, também chamada de Mais Educação, essa tese de que o papel do sistema educacional é prioritariamente atender a diversidade social. De fato, o reconhecimento da diversidade social representae um avanço no campo da educação, é o primeiro princípio da inclusão social.Também e fato que todos somos iguais, mas todos são diferentes, a diferença é constitutiva, não é excepcionalidade, é uma característica concreta dos seres humanos,e eu não posso ensinar sem levar em conta a diversidade humana.
Mas não podemos valorizar a diversidade ao ponto de deixar de lado as desigualdades sociais. Diversidade e desigualdade social não é são a mesma coisa. Desigualdade não ocorre de diferenças culturais, ela é fruto da injustiça social. Para eu respeitar a igualdade eu preciso assegurar o direito ao acesso ao conhecimento como condição de inserir a criança no mundo do trabalho, da cultura, da política. O problema é que política educacional com práticas voltadas apenas a diversidade podem esta escondendo as desigualdades sociais.

Na igualdade social está o direito das crianças e jovens ao acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento de seus processos psíquicos superiores, como diz Vigotsky.

Palestra lotou o anfiteatro do Campus Pantanal
"Estaremos discriminando os pobres com ensino tolerante"

É freqüente ouvir pessoas dizendo que as crianças pobres são diferentes, tem suas culturas, características sociais, elas precisam de um ensino diferenciado, ou seja, precisam de um “empurrãozinho”. Para atender as diferenças teríamos de fazer um ensino mais facilitado, mais tolerante, compensar carências, botar crianças num turno para educação física, escola de artes e música, é o que dizem. Quem tem esse pensamento acaba estigmatizando a diferença, e com isso pode estar privando os alunos pobres dos direitos que se referem à igualdade. Quando falamos em igualdade, falamos em educação de qualidade.
Então, se a escola for considerada apenas de atendimento à diversidade social e cultural, deixando em segundo plano o direito ao conhecimento e ao desenvolvimento mental, estaremos discriminando os pobres.

"Currículo precário: ensino pobre para pobres"

Estou criticando dois tipos de escola que funcionam assim, em Goiás e São Paulo. Esse modelo de currículo de resultados imediatos, é currículo precário, é o ensino pobre para pobre, é ensino de habilidades práticas, empregabilidade, isso está ocorrendo no mundo todo. Está ocorrendo no Brasil, em países da África.
E quem está por cima dessa reforma do ensino nesses países pobres? É a entidade chamada Banco Mundial. É um currículo frágil, enfraquecido. É como se dissesse: pobre não precisa grande coisa, apenas coisinhas de português, matemática, para melhorar a competência, e para preparar consumidores.
O sistema capitalismo mudou seu sistema de funcionar. Hoje existe muita produção, tecnologia que produz uma imensidão de produtos, que precisam de consumidos. Hoje você tem iogurte de 1,99, para pobres, e de 10 reais. Essa escola que estou descrevendo aqui serve para três coisas:  preparar o menino para uma empregabilidade precária, preparar consumidores e para preparar usuários para as tecnologias digitais.

"Doutrina da Dama de Ferro defende o individual"

Estou propondo uma resistência. O que seria uma escola diferente do que essa que está sendo posta em prática no País? Que tipo de sociedade e que tipo de educação nós queremos? Façam uma reflexão: para que serve a escola? Qual o sentido que as crianças tem indo à escola?
Temos basicamente duas maneiras de ver a sociedade. Uma delas é por meio da competência individual, do papel empreendedor, da concorrência, do ensino individualista. Esta visão de sociedade é muito bem descrita por uma senhora que foi Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Tatcher, chamada de “A Dama de Ferro”, que impôs no país o neo-liberalismo, que é a doutrina que defende o individual, em que as pessoas só querem saber de resolver seu interesse pessoal. “Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos”, afirmava Tatcher.
Outro projeto é o foco na sociedade, no projeto coletivo, na inclusão, no cidadão participativo, na inclusão de todos, projeto em que você faz um escola que se define como democrática mas no sentindo de possibilitar ensino de qualidade, acesso aos conhecimentos e desenvolvimento das capacidades intelectuais.

"Uma escola para formação cultural e científica"

Proponho, portanto, esse segundo modelo, uma escola para formação cultural e científica, baseada no conhecimento e no desenvolvimento cognitivo, afetivo e moral dos alunos, articulada com a diversidade social e cultural dos alunos.  Não vou desconhecer as condições sociais histórias e concretas dos meninos no seu cotidiano.

Defendo a escolarização igual para sujeitos diferentes. Não podemos separar igualdade diferença. Não podemos privilegiar diferença em prejuízo da igualdade, porque isso é praticar injustiça. Porque Paulo é diference ele tem de ter ensino ruim, fraco? Precisamps promover interfaces pedagógicas e as formas do conhecimento local e cotidiano. Relação dos conhecimentos científico, da escola, e conhecimento do cotidiano que as crianças trazem da sua situação de vida. Concluo afirmando que nosso trabalho, como professores, é um caminho de duplo movimento. Conhecimentos históricos das crianças, da experiência cotidiana, devem ser retrabalhados pelas professores na escolas e, dessa forma, os alunos retornam às suas práticas culturais com compreensão ampliada.

Bibliografia: mais detalhes sobre o pensamento do professor José Carlos Libâneo estão publicados nos seus principais livros, “Democratização da Escola Pública – A Pedagogia Crítico-social dos Conteúdos”, “Didática” e “Pedagogia e Pedagogos, para quê?”




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Até a crise 'dançou' no Carnaval de Corumbá

Bloco dos Palhaços fechou desfiles do Carnaval de Corumbá
Vejam que frase memorável, digna de intensas reflexões: “a identidade de Mato Grosso do Sul está em Corumbá”. Ela foi dita pelo secretário de Estado do Turismo, Nelson Cintra, no camarote da imprensa, durante o desfile do Grupo Especial do Carnaval corumbaense. Trata-se de um reconhecimento histórico. Cintra lembrou que a divisão do Estado trouxe enormes prejuízos e nos roubou a identidade, agora resgatada por Corumbá. Entendo o recado que Cintra quis passar: Corumbá dá a resposta em nome de todo o Mato Grosso do Sul. Hoje a cidade representa a fina flor da cultura sul-mato-grossense, não só por organizar o melhor Carnaval do Estado. Muitos corumbaenses ainda não acreditam nesse potencial, mas isso virá com o tempo. Desafiando a fria lógica dos números e da economia, que tirou o Carnaval oficial de 33 cidades do Estado, Corumbá decidiu bancar investimentos em um dos seus maiores produtos culturais, apelou para a iniciativa privada, e apostou certo. E o que é o Carnaval senão a maior manifestação cultural brasileira, ao lado do futebol? 
Hélènemarie Fernandes: luxo na avenida e alta no turismo
O balanço do Observatório de Turismo, que será anunciado pela Fundação de Turismo, vai revelar números amplamente favoráveis. Em primeira mão, posso anunciar um deles: o aumento de 10% de entrada de turistas via aérea, um dos portais pesquisados. Cresceu também o número de turistas paraguaios, argentinos e chilenos, impulsionados pela queda do valor do real diante da moeda deles, sem contar, é claro, o explosivo fluxo de bolivianos, nos hotéis, restaurantes, lojas, em todo o comércio. Outro dado que o Observatório de Turismo vai revelar é que os hotéis tiveram 90% de vagas ocupadas no período de Carnaval. "Estamos avançando e atraindo cada vez mais turistas do Centro-Oeste e interior de São Paulo, e no Estado somos imbatíveis", constatou Hélènemarie Fernandes, diretora da Fundação de Turismo de Corumbá, falando do Carnaval.
Tanabi como "a Tia": 40 carnavais
E onde está a crise? Ela, de fato, existe, mas foi devidamente sufocada pelo tratamento adequado dado à cultura e ao turismo. O clima ajudou, choveu pouco, os índices de violência foram reduzidos, os ventos foram tão favoráveis que espalharam alegria por todos os cantos da cidade e até o prefeito Paulo Duarte foi visto sambando ao lado dos garis da limpeza pública, a turismóloga Hélènemarie brilhou na ala das baianas da Vila Mamona e o gestor de cultura José Antonio Garcia, o Tanabi, cumpriu a tradição de levar para o bloco Cibalena seu maior personagem, "a Tia". Enfim, tudo é Carnaval, tudo é cultural. Só mesmo as mentes dualistas ou fundamentalistas ainda insistem em enxergar nestes dias de folia dionisíaca a face diabólica do mal, escondida atrás das máscaras de pierrôs, arlequins e colombinas no Bloco dos Palhaços - e palhacinhos. E aí eu pergunto: se tudo isso é o mal, onde estará o bem? 





segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Desmatam (e matam) o Pantanal para plantar soja

Árvores transformadas em gravetos entre Miranda e Corumbá
Preferia publicar neste blog a imagem de uma onça parda que cruzou meu caminho – ou eu é quem cruzei o dela? – na BR-262, a caminho de Corumbá. Ou de um servo pantaneiro, de uma capivara, de um quati que também vi com vida à beira da rodovia. Mas o que tenho para mostrar a vocês é a imagem da indignação, do espanto, da ameaça, do perigo, da degradação do meio ambiente. É a imagem do desmatamento do Pantanal, não muito longe de Corumbá, no limite com a região de Miranda, à beira da BR-262. Imagens de um Pantanal ferido pela roda de tratores e pelas lâminas das motosserras que trituram as árvores sem piedade. Preparam o terreno para a plantação de soja. E soja transgênica, conforme me garantiu a bióloga Débora Calheiros, da Embrapa de Cuiabá. Devastaram a Mata Atlântica de São Paulo e agora se voltam para o Pantanal. Liberada inescrupulosamente pelos órgãos federais de fiscalização, a soja transgênica traz malefícios para o organismo do ser humano – câncer, por exemplo - e provoca o desequilíbrio do meio ambiente. Isso sem contar que está sendo plantada na maior planície alagável do mundo, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera, uma área que legalmente seria intocável. As fazendas de gado instaladas há dois séculos no Pantanal fazem parte do seu cenário e equilíbrio ambiental, conforme asseguram pesquisadores da Embrapa, mas liberar essa imensa riqueza natural para o avanço da soja chega a ser um ato desumano, insensato, que fere qualquer tipo de acordo
Ferida no Pantanal é aberta para plantio de soja
feito em defesa da sustentabilidade do Pantanal. Ato de descompromisso e negligência com qualquer pacto que se tenha feito em nome da preservação do bioma pantaneiro. Se o desmatamento não for detido agora, o que veremos em breve é um Pantanal totalmente coberto por plantações, com o fim da vegetação nativa e de todos os animais que nela habitam. E que não venham mais falar em preservação da onça-pintada enquanto o governo federal continuar liberando áreas pantaneiras para plantio de soja transgênica. A triste verdade, caros amigos, é que o projeto para transformar a BR-262 em uma “rodovia ecológica”, com velocidade máxima de 100 km por hora e cercas de proteção para os animais, foi sorrateiramente engavetado. Falta comprometimento com a preservação do meio ambiente. E as futuras gerações, nossos filhos e netos, estão condenados a ver apenas réplicas de animais empalhados em museus e algumas reservas de vegetação natural para saber o que havia no passado. Esse é um desastre anunciado tão grave quanto o de Mariana. Só que ele ocorre devagarinho, paulatinamente, na calada da noite, sem que possamos perceber. A onça parda que cruzou o meu caminho – ou fui eu quem cruzou o dela? - na BR-262 sobreviveu – eu corria a menos de 100 km por hora, brequei a tempo de contemplar por segundos o seu passeio pela noite até que desaparecesse na mata. Mas vi muitos corpos estendidos de animais mortos ao longo do percurso entre Campo Grande e Corumbá. E também vi longas feridas provocadas pelo desmatamento do Pantanal. Quantos animais ainda precisarão morrer, quantas árvores precisarão ser derrubadas para que o Pantanal mereça ser olhado com o respeito pelo que representa para a humanidade? Lembro-me que mentes insanas tentaram liberar a instalação de usinas sucroalcooleiras e plantação de cana no Pantanal. Manifestações e até o ato extremo de um ambientalista, que se matou ateando fogo no corpo em Campo Grande, forçaram o veto ao projeto e impediram a degradação.  Agora, o Ministério Público Federal deve agir rápido para evitar o avanço desse crime ambiental de lesa patrimônio. É um caso sério de Justiça.

NOTA DE RODAPÉ - Mais de 90% dos 31 milhões de hectares cultivados com soja no Brasil utilizam sementes de plantas geneticamente modificadas (transgênicos) para a resistência ao herbicida glifosato, conforme informações da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), do Ministério da Agricultura. Pesquisas recentes feitas por cientistas independentes e responsáveis revelam que o glifosato é usado para matar ervas daninhas, mas provoca danos aos alimentos produzidos e à saúde dos consumidores. O comércio e plantio de sementes transgênicas estão liberados no Brasil desde 2005.








quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O que nos espera em 2016

O mundo passa por transformações na ordem social, econômica e política, e as recentes conclusões do encontro ambientalista COP21 em Paris, neste final de ano, deixaram claro, de uma vez por todas, que as reservas naturais do planeta estão esgotadas e que nada mais nos resta do que adotar um novo modo de vida, com menos emissão de gases de efeito estufa, mais sustentabilidade, enfim, mais simplicidade e menos ostentação. Infelizmente não é o comportamento adotado pela maioria das pessoas, dos líderes políticos, das empresas multinacionais que controlam nações e economias. O que se vê, nesta segunda década do segundo milênio, é um retrocesso aos tempos medievais, com centenas de guerra e guerrilhas espalhadas pelo mundo, a ofensiva dos estados militaristas, liderados pelos EUA, para conter o avanço do Estado Islâmico, tragédias ambientais como a de Mariana, o crescente desmatamento da Amazônia, a sede de poder dos grupos e empresas capitalistas, o fundamentalismo religioso – enfim, um conjunto de ações e anomalias que levam cada vez mais o planeta e a autoestima de homens e mulheres para o fundo do poço. Um mar de lama que insiste em encobrir nosso direito a liberdade e dignidade. No entanto, mesmo diante deste tsunami de horrores, ninguém pode nos negar o direito de pensar e agir livremente, fazer as nossas escolhas, manter projetos e ainda sonhar com um século mais justo e menos opressor. O direito de planejar, investir, arriscar, libertar-se de velhos conceitos e preconceitos. O futuro pode estar na capacidade das cidades e seus cidadãos administrarem as crises e adversidades com criatividade, justiça e simplicidade. Como habitantes de um dos maiores e mais ricos patrimônios naturais do planeta, o Pantanal, resta-nos como bons filhos protegê-lo da praga mercantilista que polui rios e matas em nome de uma política desenvolvimentista suicida. Lutemos pela vida. Biomas como o Pantanal e a Amazônia são termômetros que refletem exatamente o sentimento dos homens sobre a natureza. E esse sentimento ultimamente oscila entre o amor e o ódio. (Veja neste blog o artigo “O ano em que a Terra perdeu sua biocapacidade” do articulista Leonardo Boff).


sábado, 12 de dezembro de 2015

Araquém Alcântara, o fotógrafo do Brasil

Papo com Araquém na barranca do rio Paraguai (Agência Navepress)
Quem gosta de futebol já deve ter ouvido falar de Araken Patusca, o oitavo maior artilheiro da história do Santos, com 177 gols em 193 jogos, ídolo na Vila Belmiro entre 1923 e 1929 e depois entre 1935 e 1937. Dos anos 90 para cá quem gosta de arte e cultura em Santos aprendeu a admirar outro Araquém, só que com outra grafia. “O meu Araquém meu pai tirou de Iracema, o romance do José de Alencar”, conta Araquém Alcântara, enquanto limpa o suor da testa, numa manhã mormacenta, neste começo de dezembro, à beira do rio Paraguai, em Corumbá. “Era o Araquém, o pai da Iracema, a virgem dos lábios de mel”, completa. Este Araquém de José de Alencar nasceu em Florianópolis e se criou em São Vicente, na Baixada Santista. Claro, também se apaixonou pelo Santos de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, considerado o maior ataque de todos os tempos do futebol brasileiro. “Como é que eu vou ver esse jogo hoje se vou estar lá dentro do Pantanal?”, questionava-se Araquém, falando baixinho, consigo mesmo, enquanto consultava o celular. Este é o castigo, talvez o único, que o Pantanal impõe aos seus visitantes: não há o menor sinal de internet naquela imensidão verde. Pois bem, Araquém não viu, ao vivo, seu Santos perder a final da Copa do Brasil para o Palmeiras. Sofreu muito menos. Camuflado nas matas, na tocaia, com duas bazucas – como costuma chamar suas potentes lentes das câmeras digitais – apontadas para lados opostos, ele buscava naquela noite captar imagens que irão compor seu novo livro, “Pantanal Serra do Amolar”, em parceria com o Instituto Homem Pantaneiro (IHP), gestor da Rede de Proteção e Conservação da Serra do Amolar. Entre tantas obras e prêmios, Araquém, de 64 anos, é autor de Terra Brasil, o livro de fotografias de natureza mais vendido do País, com 120 mil cópias, na décima edição. Também produziu “Bichos do Brasil” para a National Geographic. Conheci Araquém nos anos 70, quando amigos dele, como Fernando Barros, com quem dividi um AP na Vila Buarque, nos tempos do Diário da Noite, para zuar diziam que gostava de fotografar borboletas. Correspondente do Estadão em Santos, ele também gostava de fotografar urubus. E foram as fotos dos urubus do lixão e da miséria de Santos e Cubatão que lhe renderam o primeiro ensaio fotojornalístico. Ali no meio da miséria ele descobriu que também precisava descrever, com suas imagens, o que o Brasil tinha de mais belo, a natureza, como forma de preservá-la. E saiu por aí para fotografar o Brasil. Hoje considerado o precursor da fotografia de natureza e o mais combativo fotojornalista na defesa do patrimônio natural, possui imagens expostas em museus de Paris, Londres, Itália e já participou de mais de 40 livros. A capa do livro Terra Brasil traz o olhar penetrante de uma onça-pintada. Que animal vai ter a honra de exibir sua beleza selvagem na capa do Pantanal Serra do Amolar? Livros como esses já nascem com edições esgotadas. E não mostram apenas urubus. Saiba mais sobre Araquém na canal Reportagens deste blog http://nelsonurt.blogspot.com.br/p/reportagens.html.



sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Vem aí o I Festival Cultural do Mercosul

Hermanos Irmãos no show de setembro em Ladário (Agência Navepress)
Vocês devem estar lembrados do grande show protagonizado pela banda Hermanos Irmãos, em setembro, em Ladário, dentro das celebrações do aniversário da cidade e da Semana América do Sul. Com Rodrigo Teixeira, Jerry Espíndola e Márcio de Camillo, esse mesmo trio campo-grandense representa o Brasil no I Festival Cultural do Mercosul, nos dias 6 e 7 de novembro em Assunção, capital do Paraguai. O Festival Cultural do Mercosul conta com patrocínio dos governos federais, no caso brasileiro do Ministério da Cultura, e vai girar entre os países integrantes do Mercosul. Foi aprovado na II Reunião de Artes, em maio, no Rio de Janeiro, como forma de promover a circulação de artistas e da cultura regionais pelo continente, dando visibilidade à extensa diversidade cultural dos países sul-americanos. Criou-se o Comitê Coordenador Regional (CCR) para sua realização regular nos países do bloco. O festival oferece dois dias de programação, e contará também com Diego Drexler, do Uruguai; Tonolec, da Argentina; e o grupo Legado Regional de Misiones, da Argentina, além de ciclo de cinema, exposições e poetas repentistas argentinos, uruguaios, chilenos e brasileiros. Entre as atrações paraguaias aparecem Efrén Kamba’i Echeverría, Pynandi, Tekove, Sixto Corbalán y Pedro Martínez Trío, Tribu Sónica, Ovejas Negras, Banana Pereira y la República, Ballet Nacional de Paraguai e Conjunto Folclórico da Orquesta Sinfónica Nacional. Os shows serão no Teatro do Hotel Guarani Esplendor de Assunção. No festival, serão declarados como Patrimônio Culturais do Mercosul o Recital de Poetas e as Missões Jesuíticas Guaranis, Moxos e Chiquitos. O Mercosul (Mercado Comum do Sul) foi criado em 1991 com a assinatura do Tratado de Assunção para formar o bloco econômico dos países da América do Sul entre Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Venezuela e agora também com a Bolívia. Sobrevive, apesar da constante pressão do imperialismo norte-americano, mantendo acesa a chama da integração dos povos descendentes das nações originárias da América.


sábado, 24 de outubro de 2015

N.S.dos Remédios: para quem acredita na paz

Procissão Fluvial percorreu o rio Paraguai (Fotos: Marilene Rodrigues)
Badalam os sinos do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios anunciando, à meia-noite deste sábado, o final da Festa da Padroeira. Foram treze dias de festa que viveram seu auge com a Procissão Luminosa e o show do padre-cantor Antonio Maria. A fé cristã, a mensagem de paz e a solidariedade foram mais uma vez marcas das celebrações em Ladário. Em um mundo sufocado por desacordos, guerras, atentados, catástrofes, conflitos sociais, polarizado entre o bem e o mal, mensagens de ódio, preconceito e intolerância, a Pérola do Pantanal deixa lições opostas. Acompanhei a Procissão Luminosa que percorreu na noite de sábado as ruas centrais, saindo do Santuário, passando pela rua Riachuelo, as avenidas Getúlio Vargas e 14 de Março até subir de novo a Riachuelo e retornar ao Santuário. Pelo caminho, idosos que não podem mais caminhar estavam na porta de casa com seus terços e imagens da santa, para acompanhar os cânticos na passagem da procissão. À minha frente, um fiel ignorava a dor da vela que derretia e escorria sobre sua mão. Havia como sempre gente de todas as partes do Brasil. Pela manhã, as águas do rio Paraguai e os ribeirinhos de Corumbá e Ladário também foram abençoados durante a Procissão Fluvial. A imagem acima, capturada pela repórter-fotográfica, cronista e poeta Marilene Rodrigues retrata o exato momento que padre Celso Ricardo, de chapéu e batina pretos, debaixo do sol escaldante, chega ao porto de Ladário e entrega a imagem a um missionário. Marilene acabava de retornar de Belém do Pará onde acompanhou o tradicional Círio de Nazaré, que levou mais de 1 milhão de pessoas às ruas, e pôde notar a diferença: "No Círio quase tudo é comercializado, vendem até vagas em camarotes, enquanto em Ladário a relação é fraternal, é uma festa pensada para o povo", comparou. E não vai demorar muito para a imagem da santa padroeira de Ladário seja tombada como patrimônio histórico e religioso de Mato Grosso do Sul. Por iniciativa de devotos ladarenses, um documento com o história da santa, da imagem e da Festa da Padroeira percorre as outras 77 cidades do Estado para colher assinaturas que mais tarde serão entregues ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão responsável pela avaliação. Odilon Lisboa de Macedo, idealizador da proposta, conta que os apoios estão vindo de todas as partes e que em breve o documento também vai percorrer cidades da Bolívia.