domingo, 14 de novembro de 2021

De volta a Corumbá

Dary: histórias e canções (Foto Conexão Magazine)


Dary no Porto Geral (Navepress)


Recepção em Corumbá

Nelson Urt
Navepress

Valeu muito a pena ter de volta o cantor e compositor corumbaense Dary Esteves Jr. Após 14 anos, ele retornou às origens para apresentar seu mais novo trabalho "O menino velho da fronteira - histórias e canções". Trabalho que está disponível no Youtube. Uma horinha na noite caliente deste sábado foi muito pouco para a apresentação de Dary no bar A Chalana, no Porto Geral, ali perto das barrancas do rio Paraguai, em Corumbá.

Um show em voz e violão, intimista, com intervalos para reviver histórias vividas nos paralelepípedos de Corumbá ao lado de amigos como Marcelo e Júlio Galharte, os primeiros componentes da sua banda. Tudo tem um começo. Hoje Dary tem sua própria banda (Dario Julio e os Franciscanos) em Curitiba, no Paraná, onde vive, mais de cem composições e recentemente emprestou sua voz para uma série da Netflix.

No show, ele homenageia amigos, Corumbá, Ladário, e em canções lembra Belchior e Bob Dylan. Destaco "É preciso coragem" e "O tempo não apaga o que é amor". Emoção pura, lágrimas ao vento. Volte sempre Dary, e traga junto sua vocação, seu violão, sua banda e todo esse seu grande amor pelo Pantanal.

De acordo com o Scream & Yell, site de cultura, Dary Esteves é um dos raros escritores de música pop contemporâneo que consegue escrever sobre o Brasil - e sobre si mesmo - sem soar piegas, panfletário ou populista, "um mérito e tanto numa terra que já pariu grandes letristas, mas ainda em débito com a palavra escrita. "Essa verve delicada e a mesmo tempo afiada - diz o site - pode ser conferida em "Suite Bipolar em Dó Maior", o novo EP de Dario Julio & Franciscanos, já nas plataformas digitais.

Assim ele define seu trabalho recente: "Fé, desencanto, resistência, tragédia, resiliência, é um morde-e-assopra que dialoga com a realidade brasileira em tom de esperança", diz Dary. "Sim, esperança, a despeito da falsa simetria que permeia o debate sobre a polarização política no Brasil", acrescenta. "Sabemos que há extremos, mas só um é abertamente fascista e contra a democracia, embora a narrativa pró-terceira via insista em dissimulação". Algumas músicas do album "Suite Bipolar em Dó Maior" ele mostrou sábado para o público corumbaense no Porto Geral, entre elas a belíssima "É preciso ter coragem", que assim ele define: "Foi como quis tratar o negacionismo e a ilusão de controle com moldura de Teenage Fanclub e David Bowie. (A música) reitera a influência do mais importante escritor curitibano, Jamil Snege (1939-2003), sobre o meu trabalho. Os versos do coro feminino no final da canção são adaptações de suas ideias".


SOBRE O MESMO TEMA

Leia mais no canal Artigos deste blog: O Eterno Menino da Fronteira, por Schabib Hany, professor e historiador





 



sexta-feira, 16 de julho de 2021

Norma Atagiba, o primeiro Dó Maior a gente nunca esquece


Bosco Delvizio* 

As folhas dos flamboyants quase cobriam as calçadas, formando um lindo tapete vermelho, anunciando a chegada do outono. Nas manhãs e tardes, a meninada esbaldava-se brincando com as folhas, de cabra-cega, esconde-esconde, pique, jogando bolita, pião, futebol. Convertida em sombreado quintal, a rua era vívida, plena de alegria. Entre os paralelepípedos, rente ao meio-fio, as árvores enfileiradas e coloridas emolduravam lindamente as construções: um conjunto arquitetônico eclético da primeira metade do século XX. À noitinha, as rodas de conversas sempre eram formadas entre vizinhos, com as cadeiras ao longo das calçadas. Era assim a rua Delamare, onde nasci.

Algumas casas - as mais antigas - ficavam um pouco abaixo da calçada, por conta dos terrenos em declive no sentido do Rio Paraguai. Por isso as escadinhas descendo na entrada 


da sala ou alpendre. Quem passava andando, inevitavelmente enxergava, pela janela, o interior dessas casas. Não se tratava de entrever, bisbilhotar. Olhava-se com familiaridade as salas de vizinhos afáveis, de convivência e proximidade diária.


Era comum a parada para um dedo de prosa. Assim como costumava fazer quando 
passava pela casa da Norma. Ela, na cadeira de rodas, ao lado do irmão Edmir (El Boroko) de muletas, eram paraplégicos acometidos por poliomielite ainda pequenos, um seguido do outro. Apesar de mais velhos, sempre tínhamos amenidades para trocar, mas nunca mencionavam seus comentados talentos e habilidades musicais, que intimamente aguçavam minha curiosidade e imaginário.

Um dia, ao me aproximar de sua casa, ouvi o som de uma voz e um violão. Era Norma cantando lindamente, acompanhando-se no instrumento. Plantei-me na janela atraído pela mesma vibração que senti tempos antes, vendo a bandinha do maestro Ozório pela janela da escola logo alí na esquina.


Herdara a musicalidade da família Atagiba. Seu pai Leodoro, o irmão Boroko e o tio Emidio eram hábeis violonistas e seresteiros. Além dos primos músicos Luiz Carlos, Sebastião e Tadeu - este também cantor sensível e de linda voz. Não me lembro qual canção ela cantava naquele dia. Certamente algum sucesso que tocava nas duas únicas emissoras da cidade: Radio Clube ou Difusora. Seria Maysa, Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, algum trio latino de boleros? Ou um dos sucessos da Jovem Guarda, que começava a absorver o gosto dos jovens por aqueles tempos? Certamente não era "Bossa Nova", ainda distante e pouco conhecida no interior brasileiro, apesar de devidamente consolidada no Rio de Janeiro e São Paulo em meados dos anos 60.

Passei a ver Norma sempre cantando em algum lugar da Delamare. Nas noites de racionamento de energia elétrica, a rua iluminava-se pela luz dos vaga-lumes, da lua, ou de sua voz ecoando de esquina a esquina, com audiência e aplausos daqueles nas calçadas. 

Eu tinha por volta dos 11 anos e começava a escarafunchar a coleção de discos dos meus pais, ouvir os sucessos das principais rádios do país. Crescia comigo guardado o sonho de um dia tocar música, duvidando ser capaz. E qual instrumento dentre tantos escolher? Até que um dia perguntei pra minha mãe o que fazia aquele violão esquecido em cima do guarda roupas na casa de uma tia. A resposta veio dias depois. Voltando da escola, surpreendi-me com o violão, de pé no sofá da sala. Aquele mesmo, que para admirá-lo de perto irresistivelmente, subia em uma cadeira. Seu braço era de uma madeira muito escura, o tampo em um azul profundo, caminhando para um tom esverdeado, imitar madrepérola. Na mesma hora, sentei no sofá e escorri, sem jeito, o polegar direito sobre as cordas soltas. O violão de melhor som e mais lindo que tinha visto. Mal podia esperar para mostrar à Norma.

Dia seguinte rumei até sua casa e a encontrei como sempre, tocando e cantando na sala. Vendo-me com o instrumento, exclamou: "Que lindo! É seu?". Respondi que sim e com um olhar mendicante disse: "Pois é...mas, não sei tocar!". Ela, com um sorriso carinhoso e complacente, afinou, testou um acorde qualquer e colocou em meu colo o violão em posição de tocar: "Vou te ensinar. Olha só aqui..." Pacientemente posicionava dedo por dedo da minha mão esquerda formando um acorde, dizendo-me ser aquela a "primeira" posição do Dó Maior, depois mudando para "segunda" posição, depois para "terceira". A dificuldade era grande: o som na mão direita não saia, o acorde não soava limpo... Mas, segui sem desistir até o final do encontro. Ao despedir-me, intimou: "Vou te aguardar amanhã". Fui para casa com uma vontade irrefreável de desenredar aquele mundo. Seguimos nos encontrando, ela me ensinando e aos poucos fui descobrindo a sonoridade do instrumento e meu amor por música.

Cresci, mudei de cidade, a vida mudou, aquela rua Delamare e Norma Atagiba não mais existem. Nunca mais me separei do violão. Depois de Norma, minhas investidas no instrumento sempre foram por minha conta e risco. Tornei-me um músico intuitivo e informal. De sábados, domingos e feriados - digo brincando. Reconheço, toco meu violãozinho modestamente em casa ou entre amigos, mas com muita alegria e prazer. Hoje sei que sem ele, minha existência, até mesmo minha arquitetura - que escolhi e trilhei como profissão e fé - não seriam as mesmas.

Desde aquela tarde com Norma, o tempo estirou longe. Mesmo assim não foi suficiente para poder contar a ela, quantas belas histórias me reservou a vida junto ao violão: amigos de vida toda, noites de serenatas, descobertas de novos mundos, as primeiras namoradas. Quantos mistérios, sonhos, quantas notas, acordes, melodias de diferentes matizes, pude viver e construir no seguir da vida. E nada seria assim sem ela e aquele Dó Maior que me ensinou e nunca esqueci.

(*) João Bosco Urt Delvizio, corumbaense, é arquiteto em Campo Grande, com projetos
relevantes no Estado de Mato Grosso do Sul, dentre eles o Parque das Nações Indígenas na Capital. Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro (1977) e mestrado em Desenvolvimento Local pela Universidade Católica Dom Bosco (2004).
. Foi professor adjunto do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Nesta crônica, ele resgata e celebra momentos marcantes vividos ao lado de uma amiga de infância em Corumbá. Norma Atagiba faleceu de AVC em maio de 2021 em Corumbá, deixando um legado com sua marcante trajetória nas artes e na música regional.

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Leidiane e a magia da viola de cocho

Educadora musical leva alunos a aprenderem o modo de fazer e tocar o instrumento que é patrimônio pantaneiro

Nelson Urt

Cena rara. Leidiane dedilha a música Mercedita na viola de cocho debaixo de um arvoredo na rua 15 de Novembro, nos paralelepípedos do centro de Corumbá, coração do Pantanal do Mato Grosso do Sul. Poucas pessoas carregam essa habilidade de tocar o sucesso portenho no instrumento típico do Pantanal. Ela se prepara para gravar Mercedita com violão, arranjo feito especialmente por seu primeiro professor. É o seu projeto do momento.

Ela percorre a estrada da música há 20 anos. Leidiane Garcia nasceu em Campo Grande, mas o sangue paraguaio, por parte de mãe, corre nas veias da moça. Quando começou a estudar violão clássico aos 13, ingressou na Orquestra de Violões de Campo Grande, ganhou uma bolsa e não parou mais. “Essa experiencia me levou a escolher a música como profissão, como alimento”, conta, durante uma entrevista à Navepress no Sebo da Rua XV.

Hoje como Educadora Musical, aos 33 anos, tem seu trabalho o Projeto Piloto: Música e Patrimônio (2018), entre os 121 finalistas do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, instituído pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O projeto teve como objetivo realizar a “Oficina do modo de fazer a viola de cocho" e tocar o instrumento típico do Pantanal. O projeto foi desenvolvido entre os alunos da Escola Cássio Leite de Barros, no bairro Nova Corumbá.

Este é apenas um entre os projetos desenvolvidos por Leidiane e inscritos em concursos nacionais. Nesse ano ela também foi semifinalista do XXI Prêmio Arte na Escola Cidadã, realizado pelo Instituto Arte na Escola.

Em 2016, chegou à semifinal do XVII Prêmio Arte na Escola Cidadã. E finalista na etapa estadual no Prêmio Professores do Brasil, em 2015. “Em cada ano desenvolvo um projeto diferente, porém, com a questão do patrimônio sendo um dos eixos do projeto desenvolvido”, diz. “O primeiro projeto que desenvolvi foi em 2014, o Série Concertos na Escola: Vivência e Prática Musical. Levei vários concertos para a sala de aula.”, revela.

O primeiro concerto foi dedicado ao violão clássico. O segundo foi a primeira “Oficina do Modo de Fazer a Viola de Cocho”. Levou o mestre Sebastião Brandã0 para fazer a “Oficina do Modo de Fazer Viola de Cocho” e uma apresentação junto ao mestre Martinho (in Memoriam) e os alunos participantes. Depois levou o Grupo de Percussão do Instituto Moinho Cultural. “No último bimestre, o concerto da Orquestra do Campo e um Quarteto de Cordas”. “Paralelamente, na hora atividade, ocorreram os ensaios com meus alunos estudando percussão e voz, e criei o Grupo Vocal e de Percussão Siriri, com envolvimento das crianças”. 

A primeira apresentação aconteceu na escola, na Feira Pedagógica, e depois em eventos como convidados. “Em 2017 comecei a oferecer bolsa para meus alunos estudarem violão clássico e popular, para depois aprenderem viola de cocho”.

“Consegui conciliar os ensaios aos sábados com o Grupo Vocal e de Percussão do Siriri e as crianças estudando instrumento, assim, passei a ter um aparato maior para apresentações”, conta.

Em 2018 e 2019 seus alunos participaram do Festival América do Sul.  Eles ganharam a oportunidade de se apresentar dentro e fora do espaço da escola. “Muitas crianças não acessariam esses espaços se não fossem por essas ações. Não teriam acesso às oficinas. A ideia principal foi essa: levar até eles um espaço que está próximo ao ambiente deles. Porque a escola é isso: o primeiro espaço social fora do ambiente familiar”, destaca.

Veja 0s principais trechos de sua entrevista à Navepress:


VIOLÃO CLÁSSICO

“Em 2004, com 17 anos, passei no vestibular para Licenciatura em Música na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) em Campo Grande. E, com 18 anos, comecei a dar aulas em conservatórios e escolas de Música, e não parei mais.”

ONDE FICA CORUMBÁ?

“Em 2008, terminando a faculdade, surge a oportunidade de ministrar aula num projeto social em Corumbá. Só que eu não sabia onde ficava Corumbá, não conhecia a cidade. Faltava a experiência com projeto social, então falei pra minha família: eu vou embora. Vim sozinha, deixei todo mundo desesperado em casa. Avisei: vou embora, vou trabalhar, se não der certo volto pra casa. Estava com 21 anos. Cheguei em março de 2008”.

COM AGRIPINO NO MOINHO

“Decido então dar aula no Moinho Cultural, que na época era um projeto social, não era um instituto ainda. Vim pra cá. Não conhecia a viola de cocho. Então no Moinho me falaram: aqui tem seu Agripino, o mestre da viola de cocho, você vai ter contato com ele”.

A MAGIA DA VIOLA

“Comecei a me aproximar da viola de cocho junto ao seu Agripino, em 2008. Fiquei surpresa em ouvir o som daquele instrumento tocado por ele. Uma coisa é o instrumento executado pelo tocador e outra coisa é o instrumento na mão de outra pessoa. Parecia que a magia não vinha junto quando entregava o instrumento nas mãos. Você vê maravilhas com o tocador, com o mestre. Faltava a vivência musical, que veio com a prática e o contato com os mestres”.

VISITA A CUIABÁ

“Em 2009 fui para Cuiabá para conhecer em Santo Antônio do Leverger o trabalho do Alcides Ribeiro, um artesão da viola de cocho. (Nesse momento a entrevista é interrompida por uma professora que passa pela rua 15 de Novembro; ela elogia o trabalho de Leidiane: “a música faz bem para a alma das crianças, elas amam a música; parabéns!”)

CRIANÇAS E MESTRES

“A ideia principal do projeto, trazendo seu Sebastião Brandão como parceiro, meu amigo, é justamente para que exista essa aproximação das crianças aos mestres.”


TRÊS DIAS EM MATO GROSSO

“Em três dias em Mato Grosso consegui muitas referências para trabalhar. Foi um divisor de águas ali. Foram três dias, em 2009, mas até hoje em dia tenho contato. Comprei algumas violas para inserir no Moinho in Concert daquele ano, a Rainha Nuvem. Também comprei duas para mim. Tenho há 11 anos essas violas”.

DUO MIRANDA & GARCIA

“Em 2014, iniciei parceria e realizei o primeiro concerto com o tenor Virgílio Miranda. Em 2015, realizamos o Concerto 100% Brasileiro, com apresentação de abertura do concerto feita por meus alunos do “Grupo Vocal, de Percussão e Dança”, no SESC Corumbá, na época localizado no Porto Geral.”

TRABALHO EM TRÊS PERÍODOS

“O Projeto Piloto não é o único que desenvolvi, vem de uma cadência para chegar até ele. Eu costumo dizer que não trabalho só dois períodos, mas tenho três períodos. No terceiro período eu preciso tocar, me apresentar, escrever para meus alunos tocarem e fazer minhas adaptações.”

 

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

As relações de poder no reino das falcatruas

Livro de 405 páginas focaliza SP no período colonial
Novo livro de Adelto Gonçalves revela subterrâneos da capitania de São Paulo no governo Lorena

Nelson Urt

Um escândalo: o caso das arcas que ao serem abertas diante do rei continham chumbo no lugar de ouro.  Um profano: o frei capuccino que usava o dinheiro das esmolas para levar confortável vida de senhor de escravos. Uma caçada: a perseguição aos irmãos Leme, aos quais o governo atribuía uma lista de crimes em Cuiabá e Itu. Uma amante: Lorena era filho dos Távora ou fruto de um envolvimento adúltero do rei?

Fascinantes histórias de conflitos, perseguições e falcatruas percorrem os subterrâneos, mas vem à tona em cada capítulo de O reino, a colônia e o poder – O governo de Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo, 2019) graças à astúcia investigativa de quem já frequentou as principais redações de jornais de São Paulo, como o escritor Adelto Gonçalves.

Adelto: faro de repórter e texto elucidativo 
O aguçado faro de repórter se completa por meio do texto leve e elucidativo, e assim Adelto Gonçalves consegue romper com os padrões e clichês adotados por outros historiadores ao montar um curioso painel sobre as relações de poder e suas influências – oficiais, extraoficiais e clandestinas – de um período do colonialismo que representou a consolidação de São Paulo como cidade e de Cuiabá como vila.

A construção da Calçada do Lorena, estrada que ligava São Paulo a Santos por um trecho da Serra do Mar, é a marca principal do governo de dom Bernardo José Maria da Silveira e Lorena. Mas o livro vai muito além das edificações e estratégias para permitir que São Paulo fique mais próxima da Coroa, driblando a interferência econômica e política do Rio de Janeiro - ao reunir episódios do recorte de nove anos do governo Lorena em São Paulo.

Lorena foi o mais jovem capitão-general a governar a capitania de São Paulo: tinha 32 anos ao desembarcar e tomar posse em julho de 1788. Seria filho de Nuno Gaspar de Távora, irmão do marquês de Távora, e de sua segunda mulher e cunhada, dona Maria Inácia da Silveira. É o que diz seu assento de batismo, lavrado em Lisboa, segundo o autor. Faria parte da primeira nobreza portuguesa com ascendentes em uma das mais distintas famílias da França, os Lorena. Pelo menos era essa a informação oficial porque sempre correram rumores de que seria filho adulterino do rei dom José I com sua amante, a marquesa Teresa de Távora e Lorena, esposa do jovem marques dom Luis Bernardo de Távora.

Baseada em primorosa documentação histórica, o autor desvela as raízes da corrupção e malversação do dinheiro público no Brasil em uma situação análoga aos tempos atuais de um País que parece condenado a viver preso ao passado tortuoso da Colônia e à cultura da propina, do suborno e da barganha.

Nesse aspecto, há o risco de vermos a corrupção como fruto exclusivo da política, conforme alerta o sociólogo Jessé de Souza em A elite do atraso (2017). “A população (...) foi convencida de que existe corrupção apenas na política – essa é a corrupção dos tolos – e não enxerga a corrupção real, a corrupção no mercado, o problema central, que é a manutenção de uma sociedade desigual”, afirma.

A capitania passou nas mãos de antecessores pouco confiáveis antes da chegada de Lorena. Um deles foi Antônio da Silva Caldeira Pimentel, um dos raros governadores coloniais que se transferiram para o Brasil com a família, conforme revela o autor. Pimentel chegou em 1727 e um ano depois já estourava o escândalo que apressaria sua queda. “Em Lisboa, quando as autoridades metropolitanas, à frente de dom João V, abriram arcas recém-chegadas do Brasil com 7 arrobas de ouro dos quintos reais, descobriram, estupefatas, que ali só havia chumbo”. Obra de Pimentel e seus protegidos, entre eles Sebastião Fernandes do Rego, definido pelo historiador Afonso de Taunay como “aventureiro da pior espécie”.

O ouvidor-geral da comarca de São Paulo, desembargador Francisco Galvão da Fonseca, abriu a devassa para apurar os nomes dos responsáveis pelo descaminho. Logo as suspeitas pairaram sobre homes de confiança do governador Pimentel, conforme descreve o escritor. “Mas a corrupção era praga tão disseminada por todo o corpo do Estado que o primeiro a cair foi o próprio ouvidor-geral Fonseca, suspenso de suas funções e preso por ordem do juiz do Fisco do Rio de Janeiro. Era acusado de numerosas falcatruas”, conta Adelto Gonçalves.

O juiz de fora da vila de Santos, Bernardo do Vale, assumiu as investigações e concluiu que o autor do delito havia sido Sebastião Fernandes do Rego, provedor da Casa de Fundição no governo Caldeira Pimentel e provedor dos quintos (impostos) no tempo do governador Rodrigo César de Meneses. Surgiram denúncias de que Rego sempre levava duas oitavas de ouro de quem pagava os quintos, “dizendo que era pelo seu trabalho”.

Vale concluiria ainda que o governador Pimentel protegia o provedor da Casa de Fundição. Rego foi acusado de fazer grandes negócios com sonegadores e de marcar e fundir ouro fora da Casa de Fundição. Na tentativa de denunciar o governador, João Leite Ortiz viajou para Portugal mas no navio teria sido envenenado por um padre, “verdadeiro bandido, coberto de crimes praticados em Mato Grosso”, conforme relatou o historiador Taunay.

No livro, Adelto Gonçalves refuta o conceito da historiografia tradicional de que a capitania de São Paulo estava isolada em relação às demais regiões da América portuguesa e despovoada naquela época, em torno de 1748. Hoje esse conceito está sendo revisto, segundo o autor. São Paulo não dispunha de uma economia pautada na grande lavoura e na monocultura escravista, tampouco na extração mineral, mas teve participação decisiva em direção ao Oeste e à descoberta das minas de ouro no final do século XVII, além de ocupar uma estratégica posição no entroncamento de importantes circuitos regionais, terrestres e fluviais, o que pesou decisivamente no desenvolvimento da capitania.

SOBRE O AUTOR

Adelto Gonçalves, 68 anos, é jornalista desde 1972, com passagens pelo jornal Cidade de Santos, do grupo Folhas, A Tribuna, de Santos, O Estado de São Paulo (Estadão) e Folha da Tarde, além das editoras Abril e Globo.

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela USP e mestre em Língua Espanhola e Hispano-americana pela USP, é autor de Gonzaga, um poeta do iluminismo (Editora Nova Fronteira), Bocage, o perfil perdido (Editora Caminho, de Lisboa), Mariela Morta, contos (Ourinhos, Complemento, 1977), Os Vira-latas da Madrugada, romance (Rio de Janeiro, José Olympio, 1981; Taubaté-SP, Editora Letra Selvagem, 2015), Barcelona Brasileira, romance (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2003), Fernando Pessoa: a Voz de Deus, artigos e ensaios (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Tomás Antônio Gonzaga, estudo biográfico-crítico (Rio de Janeiro/São Paulo, ABL/Imesp, 2012); e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial – 1709-1822, ensaio histórico (São Paulo, Imesp, 2015).

Ganhou os prêmios Assis Chateaubriand de 1987 e Aníbal Freire de 1994 da ABL. Em 2013-14, com bolsa da Unip, desenvolveu o projeto que resultou no livro O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 31 de julho de 2020



Bismark e o título de doutor honoris causa
Um maratonista na pista e na gestão portuária

Aos 53 anos, Bismark Rosales participa da Maratona de Nova York e, como gestor, põe Canal do Tamengo na rota dos grandes terminais de exportação pelo Atlântico

Nelson Urt

Ele correu, aos 53 anos, a Maratona de Nova York de 2019 em 4 horas e 37 minutos em um frio de 4 graus. E agora se prepara para a mesma prova, que neste ano de pandemia será disputada em novo formato em novembro: cada atleta correrá em sua própria cidade, monitorado por um aplicativo acionado a um relógio de pulso que medirá a localização e vai cronometrar o tempo, da saída à chegada, sob controle remoto dos organizadores em Nova York.
Em Nova York, desafio na maratona
Não se trata de um desafio para qualquer um. São 42 quilômetros de corrida por cinco diferentes bairros de Nova York, normalmente disputada sob temperatura baixíssima no inverno dos Estados Unidos. Para se ter uma ideia, o brasileiro mais bem colocado na prova do ano passado foi Fredison Costa, um dos 29 maratonistas a cobrir o percurso em menos de 3  horas. Ficou em 28º lugar. Bismark foi um dos 50 mil competidores de 125 países na prova.
Para um desempenho seguro, o boliviano Bismark Rosales treina diariamente, em Corumbá, onde é residente permanente e mora com a família. Sai para correr às 4h da manhã do Centro ao Lampião Aceso, posto rodoviário da BR-262, ou na esteira rolante na própria casa. “Com minha idade, tenho de tomar uma série de precauções porque a maratona exige um esforço sobre-humano e um preparo físico impecável para não afetar o coração”, diz Bismark. “Até para os atletas de ponta não se permite disputar mais do que duas maratonas por ano”, acrescenta.

Nas ruas de Nova York: suor e frio
ADMINISTRADOR Nº 1

Não só no esporte, mas também nos negócios, os resultados revelam que a vida de Bismark é uma maratona bem sucedida. É que por trás do atleta amador que desafia o peso da idade existe um profissional de enorme capacidade de persistência e superação. Ele acaba de receber  da Organização Mundial dos Defensores de Direitos Humanos OMDDH - Pacto ONU-Nações Unidas, o título de Doutor Honoris Causa pelos serviços prestados no desenvolvimento portuário da Bolívia, país que desde a perda da saída para o mar no conflito com o Chile vive um impasse para escoar produtos de exportação pelo Pacífico.
A ideia de Bismark de oferecer o porto do Canal do Tamengo como saída pelo Atlântico para escoar a produção do país vizinho acabou sendo aceita e se tornou realidade. Bismark estudou na Escola de Pós-graduação da Armada Boliviana, é diplomado em Interesses Marítimos, Fluviais e Lacustres, entre outros cursos da área. A parte mais difícil ele conseguiu com apoio da UNCTAD, braço do comércio e desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU), com que sempre teve ótimas relações. Como parte do programa como instrutor de Gestão Moderna de Portos, o objetivo dele era provar que esse serviço poderia ser feito por um porto privado, no caso o Complexo Portuário Jennefer, da qual é gestor, em Puerto Quijarro, fronteira com Corumbá.
Como Mestre em Gestão e planificação portuária e intermodalidade pelo Portos do Estado da Espanha, com selo de Universidades de Coruña, de Cadiz, de Oviedo e Politécnica de Madrid, o desafio de Bismark foi montar uma estratégia para desenvolver na Bolivia a capacidade de escoar sua produção pelo porto do Canal do Tamengo. O primeiro passo foi convencer as autoridades bolivianas a quebrar a antiga regra de que só o Estado podia realizar comercio exterior via portos.
“A normativa da Bolívia não permitia que portos privados realizassem comércio exterior, exceto indústrias com próprios portos para exclusivamente escoar sua própria produção”, conta Bismark. “Ocorre que em 80% dos países o comércio internacional é por via marítimo fluvial. Somos um país mediterrâneo e por isso a Bolivia não é competitiva no mercado internacional. Sempre faltou uma logística apropriada. E o transporte terrestre é muito mais caro. Por que então não investir no Canal do Tamengo e usar a saída para o Atlântico?”
Para receber a resposta positiva e concessão oficial do governo boliviano, o porto foi desenhado de acordo a normativas bolivianas  e  internacionais. Hoje o Porto Jennefer está incluído no mapa mundial dos negócios de exportação. O curioso e gratificante, segundo Bismark, é que boa parte da mão de obra em prestação de serviços utilizada no porto é brasileira. “São 14 empresas terceirizadas brasileiras e bolivianas atuando na prestação de serviços. Como estamos na fronteira, é mais fácil adquirir produtos de Campo Grande  e Corumbá, do que de Santa Cruz”, conta.

CANAL DE LUXO

O terminal hidroviário Jennefer possui 105 hectares, o equivalente a 100 quadras de uma pequena cidade. “Temos de ser muito eficientes para competir com dois gigantes como Brasil e Argentina e conseguir uma fatia no mercado internacional de exportações”, diz. E hoje, enfim, o Tamengo poderia ser transformado num “canal de luxo”, como diz Bismark: são apenas 7,5 quilômetros que se convertem na única saída da Bolívia para o mar. A nova concessão hidroviária proporciona os primeiros resultados, com o aumento do comercio internacional e a elevação do PIB boliviano.
Com mestrado em Gestão portuária e intermodalidade na Espanha, o Doutor H.c. Bismark Rosales Rojas agora parte para o curso de doutorado na mesma área. Especializou-se num setor que até o século passado era restrito aos militares das forças armadas. Motivado por esta honraria e outras menções de louvor recebidas na Sessão Online no dia 25 de julho,  continua motivado junto a sua família, para seguir seu autodesenvolvimento e o desenvolvimento social desta região de fronteira.

(Veja no canal Reportagens esta publicação em espanhol e inglês)


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Diário do fim do mundo - 9ª Parte


Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira de Ladário-MS
1. QUANDO cito neste diário a expressão “fim do mundo” me refiro ao fim deste mundo tal qual ele se configurava até fevereiro de 2020. Acredito efetivamente que está pandemia carrega o dom de construir um mundo melhor quando cessar o bafo venenoso do Covid-19. Vai provocar uma mudança de atitude das pessoas – e de toda a humanidade – levando a uma transformação esperada por todos os profetas. 
2. O CALENDÁRIO MAIA profetizou o fim do mundo (ou o começo de uma nova era) para 2012. Chico Xavier, em sua última entrevista, revelou que haveria grandes transformações a partir de junho de 2019. O professor e doutor Andris Tebecis, da Sukyo Mahikari, durante um Seminário em Campo Grande-MS, afirmou que, naquele ano, 2010, começava a “era da Luz e o governo de Deus”. Hoje poucos duvidam dos efeitos concretos dessas três profecias, mas há outras, que prefiro não citar para não estender o assunto. 
3. VOCÊS JÁ pararam para pensar como os trilhões de dólares movimentados nos megaespectáculos de toda a natureza, nas vultosas operações das empresas multinacionais, nas gigantescas negociações das corporações promovem o acúmulo de riqueza de uma casta privilegiada, provocam desequilíbrio social que beneficia poucos e tira o sustento básico de alimentação e habitação de milhares de pessoas em todo o mundo? Pois é, e agora? Com quase tudo parado, ou desacelerado, o mundo tal qual o conhecíamos, feito de conquistas materiais, desenfreado  consumo, poder econômico e acúmulo financeiro deve dar lugar a um modo de vida mais equilibrado, sustentável, racional, solidário ou seja lá como queiram conceituar – por obra do acaso, da natureza ou do sopro divino. É pelo menos o que todos esperamos. Não se aceita mais a retórica de que os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres. 
4. O DISTANCIAMENTO, as quarentenas, os isolamentos sociais, as máscaras de proteção, a higienização, a reforma dos sistemas sanitários são apenas pano de fundo nesta crise que deve culminar com um novo estilo de vida marcado pelo fim do desperdício, pelo reaproveitamento material, a reciclagem, o fim do descartável e da nefasta indústria que desde o advento do capitalismo promoveu a massificação de produtos. Pode não ser uma volta completa às origens, mesmo porque hoje dispomos de uma tecnologia avançada, mas com certeza um novo olhar aos bem duráveis, ao maior respeito à natureza e às condições naturais de sobrevivência. As máscaras sanitárias estão na ordem do dia como proteção na pandemia, mas o sistema capitalista que só visa o lucro a qualquer custo precisa e deve ser desmascarado para que tenhamos um futuro melhor. 
5. FILME. Como dica cinéfila hoje eu indico “Encontro Marcado” (1998), com impecáveis atuações de Anthony Hopkins, Brad Pitt e Claire Forlaine, pela plataforma Netflix, bem adequado a esses tempos da Covid-19, o vírus da morte. Prestes a ter um colapso cardíaco e desencarnar, o Magnata de 65 anos pergunta à Morte: “Devo ter medo?”. E a Morte responde: “Um homem como você, não”. 
6. MÚSICA. Over de Rainbow compõe a trilha sonora no final apoteótico de Encontro Marcado. Indico a música instrumental ou na voz do havaiano Israel Kamakawiwo’ole. 
7. ENCERRO ilustrando com essa imagem do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, a santa da cura, padroeira de Ladário, cidade de onde escrevo este modesto e breve diário, às margens do rio Paraguai, nas proximidades da fronteira com a Bolivia, ao sul do Pantanal do MS. (Nelson Urt/Navepress)

https://www.youtube.com/watch?v=mBmDg-CNFqY&t=20s



segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Dez emoções nunca vistas no Festival




Danielle, Noemi, Marcelle, Mara e Lucilene: elas por elas
Nelson Urt
Navepress

Gostou do Festival América do Sul? - perguntam-me. na saída do Stand da Literatura. Gostei, respondo, de pronto. Porque consegui extrair deste festival a energia positiva de cada momento que vivi ao lado de amigos e companheiros, artistas, poetas, artesãos, ativistas. Gostei porque dancei e cantei com o MJ6, a mais querida banda pop corumbaense de todos os tempos, durante o show dos seus 50 anos, no último dia do Festival. Chorei ouvindo “Caminho eu” na voz de Tadeu Atagiba. E me arrepiei ao ver o poeta Augusto César Proença literalmente atirar a bengala de lado para bailar como menino diante do palco, do alto dos seus 80 anos e centenas de crônicas publicadas, entre elas uma que virou filme, “Atrás da poeira não vem mais seu pai”. Gostei porque vendi livros, muitos livros artesanais da Maria Preta Cartonera, no stand, ao lado de companheiros da Academia de Literatura e Estudos de Corumbá. Nunca vi na cidade tanto fluxo de pessoas por metro quadrado - isso só na Bienal. Gostei de ter conversado tantas horas com tanta gente interessada em literatura. Sim, também me manifestei: ergui meus punhos em defesa, revolta e protesto contra o massacre dos irmãos bolivianos no ato deflagrado pelo senador-suplente Anísio Guató, pelo professor Schabib Hany e pelo ativista cultural Anibal Monzon na Tenda dos Povos Indígenas, ao lado de etnias terenas, guatós, kadiweus, guarani-kaiowá...
Samuel, Fabián, Marcelo, Férrez e Urt no Quebra Torto
E, de quebra, integrei a mesa de debates do Quebra Torto com Letras, no Moinho Cultural, e aprendi muito com pesos pesados da literatura como os escritores Reginaldo Férrez (roteirista paulista da série e filme Cidade de Deus), Fabián Severo (autor uruguaio de poesias em portunhol),  Marcelo Silva (que lançou o livro Estrada Parque Pantanal) e Samuel Medeiros (autor de Senhorinha – a resiliência feminina na Guerra do Paraguai), com mediação da professa Rosângela Villa. Um dia antes, o Quebra Torto foi das mulheres, belas e empoderadas: Lucilene Machado (autora de Os homens não amam as mulheres), Mara Calvis (As aventuras de Ygor, o peixe barbado, nas águas de Campo Grande), Noemi Jaffe, Danielle Ferreira (O Reino Perdido de Odara), com mediação de Marcelle Saboya. Comprovei que um festival nunca morre quando a gente consegue carregar ele dentro do coração, sabendo que ele, como arte, cultura e educação, é um catalizador, um transformador de vidas. Porque o coração sempre bate mais forte, é uma porta aberta para novas emoções.