quinta-feira, 28 de março de 2019

A coisificação da mulher


Todos querem saber o que há por trás da violência contra a mulher
Nelson Urt
Navepress
A execução a tiros da vereadora Marielle Franco, no Rio, há um ano, e o assassinato a facadas da professora Nádia Sol, neste dia 10 de março, em Corumbá, escancaram um Brasil cada vez mais violento e que coloca a mulher como ponto vulnerável. Marielle por motivação política e Nádia com causa passional, não importa, o que se vê é uma  naturalização da violência contra a mulher que começa dentro de casa e ganha as ruas, com o assédio e casos de estupro. Levando-se em conta o papel da mulher como mãe, como trabalhadora, como base da formação da família, estaremos então diante de uma situação assustadora. Que modelo de sociedade estamos oferecendo para as futuras gerações? Toda essa violência não estaria agora sendo reproduzida pelos estudantes nas escolas?
“Há uma coisificação da mulher”, alertou o promotor do Ministério Público Estadual (MPE), Marcos Martins Brito, durante palestra na Mesa Redonda com o tema “Assédio não é sedução, é falta de educação”, nesta quarta, 27 de março, no Anfiteatro Salomão Baruki, no Campus Pantanal da UFMS em Corumbá. Brito se fundamenta na tese da socióloga brasileira Heleieth Saffioti para concluir que a violência contra a mulher tem como causa o “modelo de sociedade patriarcal” surgido com a industrialização e o capitalismo. De uma maneira geral, o homem vê a mulher como posse, obrigando-a a seguir suas ordens em todos os aspectos. Trata-se de uma relação de poder.
Promotor do MPE apresenta números assustadores
O auditório do Campus Pantanal recebeu tanta gente que na porta havia um aviso: lotação esgotada. Lá dentro, sentados até nos degraus do corredor, estudantes universitários e secundaristas participaram das discussões e ouviram o promotor do MPE revelar números assustadores: 1011 ações processuais correm na Justiça de Corumbá hoje por conta de casos de violência doméstica contra a mulher. Nos três primeiros meses do ano já são 110 medidas protetivas de urgência concedidas a mulheres vítimas de violência. Pesquisas apontam a ocorrência de 5 casos de feminicídio por dia no Brasil.
Durante o evento, prestou-se homenagem à ex-aluna da UFMS Nádia Sol assassinada no dia em que completava 38 anos. O encontro contou com o apoio da UFMS, cursos de Letras e Pedagogia. Sobre o tema também falou a professora Jane Contu, assessora da Secretaria Especial de Cidadania e Direitos Humanos de Corumbá. A UFMS apoiou a ação e foi representada pelas professoras Cláudia Araújo, do curso de Pedagogia, Heloisa Portugal, curso de Direito, representando o diretor do CPAN, e pela mediadora Rosângela Villa, professora pesquisadora do curso de Letras e do Mestrado em Estudos de Linguagens.

domingo, 17 de março de 2019

E enquanto isso, no Brasil, 5 milhões passam fome


Nelson Urt
Navepress

Para onde caminha este modelo capitalista em que uma minoria acumula fortunas em detrimento de milhares que passam fome ou correm atrás do prejuízo nas filas de desemprego? Vejam o resultado de um sistema que leva a humanidade para o fundo do poço, explora todas as reservas naturais do planeta sem reposição – muito pelo contrário, provocando mais desastres e tragédias como Mariana e Brumadinho – e prega o discurso do ódio, distanciando-se cada vez mais da verdadeira mensagem cristã de amor e solidariedade ao próximo. O resultado é a fome de muitos - quase todos invisíveis, parte de uma sociedade que ninguém quer ver ou mostrar.
Os números divulgados no Relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo-2018” da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostrou que a fome aumentou no mundo. 821 milhões de pessoas passavam fome em todo o planeta em 2017. Pelo terceiro ano consecutivo, este número aumenta, segundo a FAO. 
O relatório cita como as principais causas do avanço da subnutrição os conflitos armados, as crises econômicas e fenômenos naturais extremos, como secas e enchentes. 
No Brasil, 2,5% da população passou fome em 2017. Isso corresponde a 5,2 milhões de pessoas. O Brasil só saiu do mapa da fome em 2014, quando o índice de pessoas ingerindo menos calorias que o recomendado caiu para 3% da população. Para que um país saia do Mapa da Fome, de acordo com a ONU, é necessário que a quantidade de pessoas ingerindo menos calorias do que o recomendado seja inferior a 5% da população. Trata-se, na verdade, de uma questão de direitos humanos - palavra sobre a qual certas autoridades sentem aversão, até pavor. O estudo aponta como riscos para o aumento da fome no País o avanço da pobreza, o congelamento dos investimentos sociais por 20 anos, a alta do desemprego e o corte de pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família. (Fonte: Observatório do Terceiro Setor)


domingo, 3 de março de 2019

Escritora luta para transformar vidas na fronteira


Vivi Mendez lançou livro de poemas na Bienal de São Paulo em 2018
Nelson Urt
Navepress

Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, o encontro deste blog é com a escritora, poeta e professora Vivi Mendez, uma argentina por nascimento, boliviana por casamento e brasileira por coração. Na linha da fronteira Brasil-Bolívia, Alicia Viviane Mendez Rosales é uma imigrante pendular, com atividades em Corumbá e Puerto Quijarro. Representa a linha de frente na luta pelos direitos humanos, do empoderamento das mulheres e na defesa de minorias, com atuação em comunidades indígenas. É uma mulher em incessante busca pela transformação da sociedade por meio da arte, da literatura, da educação. Um trabalho de formiguinha, como diz.

Atua como professora, escritora, médica e terapeuta. Detém o título de doutora honoris causa em Direitos Humanos concedido em 2018 por uma universidade da Espanha. Seu primeiro emprego como professora foi em uma aldeia indígena na fronteira da Argentina com a Bolívia, onde além de ensinar tinha de resolver conflitos nas comunidades. Um enorme aprendizado.

Ela passou parte da infância e adolescência em Córdoba, interior da Argentina. Casou-se com Bismarck de Rosales, boliviano que conheceu na Universidade Nacional de Salta, na Argentina. Percorreram alguns países antes de se estabelecer em Corumbá para criar os dois filhos, Daniel Matías e Adrián Emanuel, que hoje fazem graduação na Europa. Pensando em guia-los para um futuro melhor ela escreveu “10 deseos para mis hijos”, livro em espanhol também lançado na Argentina, onde moram suas irmãs.

Alicia Viviana Mendez, aos 47 anos, está sempre com um pé do outro lado da fronteira, em Puerto Quijarro, onde comanda projetos de educação, e outro pé em Corumbá. Mas jamais esquece suas raízes da cidade argentina onde nasceu, Tucumán, mesma terra natal da imortal Mercedes Sosa, consagrada como a voz da América do Sul. “Gosto muito de cantar as músicas de La Negra (como Mercedes Sosa era conhecida devido sua ascendência indígena)”, diz. “Criei-me no deleite da arte, fazia teatro e tinha um programa de tevê na Argentina”, conta.

Em Corumbá, Vivi conheceu o poeta e ativista cultural Benedito C.G.Lima, logo que chegou, aos 24 anos, amizade longa que floresce atualmente em ações como o Passa na Praça que a Arte te Abraça, encontro de poetas, contistas, romancistas, artesãos e outros multiplicadores da cultura na Praça Independência, nas manhãs de sábado.

Em 2018, ela lançou os livros de poemas “Poetize-se” na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty-RJ) e “Inspiração em Verso” na Bienal de São Paulo, pela Editora Futurama. Publica seus livros em português e espanhol, e consegue lançá-los alternadamente em Corumbá, na Bolívia, na Argentina, Espanha e até na Inglaterra, onde estudam os filhos.

Na Bolívia, Vivi Mendez estudou Administração Educativa na Universidade Católica. Cursou pedagogia, psicopedagogia, arte-terapia, fotografia e Medicina, com atuação na Cruz Vermelha.

Poucas mulheres como ela tem a capacidade de integrar os jovens bolivianos e brasileiros por meio da arte e educação na fronteira, apesar de tantos entraves. Em Puerto Quijarro, como professora, mantém um Clube de Leitura e promove intercâmbio com poetas corumbaenses. Em Corumbá ela apoia o projeto Novo Olhar, com 83 alunos que saíram da situação de vulnerabilidade.

Na FLIP de Parati em 2018: "Poetize-se"
A poesia de Vivi carrega toda a influência da mãe, que gostava de compor e cantar, e do pai, que tocava violão e “adorava escrever cartas e poesias” em um período de chumbo da ditadura argentina, nos anos 1970, em que quase tudo era censurado ou proibido.

“Meu pai escrevia poesias secretas, ninguém podia ouvir, só a gente, era como se fosse um tesouro, mas também podia ser uma bomba. Nesse tempo a poesia era a única válvula de escape dele. Ele era operário, metalúrgico, viu mortes, sabia onde enterravam os corpos, era um pavor, e não poder se manifestar o levou a escrever poesias. Esse é o peso da poesia que carrego”, conta.

Para Vivi, a luta deve ir muito mais além da defesa dos direitos das mulheres. “Temos que construir uma nova identidade como humanidade porque isso é que está por trás do machismo. Cadê a dignidade da humanidade? Esta é uma área que invisto muito na minha vida”, diz. “Outro aspecto é a justiça, o acesso do cidadão à justiça. Tudo passa pelo poder, nem todos tem dinheiro para se defender. Se você estuda tanto é para semear conhecimento na sociedade, e quando não consegue se angustia", conclui. 

Comentários
Obrigada pelo carinho Nelson Urt, e para esclarecer, ainda continuo estudando, na verdade nunca parei... pois acredito que e o estudo e a única revolução possível por nos mesmos e pelos demás tentando juntos transformar nossa realidade! Se você enxergou essa esperança utópica em mim foi por que você a carrega também! Juntos somos mais! Abraços! (Vivi Mendez, 06/03/2019)

Só quem conhece essa linda mulher, sabe como ela tem um coração lindo, sempre pensando no próximo!! Que Deus a abençoe sempre. Saudades de vocês e dos meus amados sobrinhos. (Irami Maeda, 06/03/2019)

Parabéns nobre amiga Embaixadora da Paz Profª. Dra. Vivi Mendez pelos relevantes serviços prestados as causas Humanitárias e Culturais em defesa de um Povo que precisa de apoio logístico, acessória Jurídica e cumprimento das Leis que amparam e protegem as famílias.(Iguaci Luiz de Gouveia, 06/03/2019)

Tem o dom de ensinar e encantar. Parabéns, mulher!!! (Arlene Inez Costa, 06/03/2019)

Nota do Editor
Os mais de 300 acessos a esta publicação tiveram como origem o Brasil (140), Bolívia (44), Argentina (30), Estados Unidos (6), Inglaterra (4), Austrália, Portugal, entre outros países.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Do lixo para o livro: a literatura independente

Licetti, Vivi Mendez, Benedito, Aládio e Antônio: livros na praça
Jota Etcheverria
Navepress

Lançados à sombra dos arvoredos e sobre os bancos de concreto da Praça Independência, em Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense, neste sábado, 16 de fevereiro, dentro do projeto Passa na Praça que a Arte te Abraça, os primeiros livros artesanais da Editora Cartonera Maria Preta, criada em 2018 pelo jornalista Nelson Urt. 
São dois títulos: Paixão e Morte no Bordel, com contos dos jornalistas e historiadores Luiz Fernando Licetti, Silas de Almeida e Nelson Urt, e Amor em Tempos de Chumbo, com contos, crônicas, poesias e artigos publicados em dez anos no Blog Nave Pantanal, editado por Urt. 
O primeiro título da coleção saiu em 2018 com o título Horizonte, reunindo poesias da professora Marilene Rodrigues. A Editora Cartonera Maria Preta é inspirada nos projetos de livros artesanais criados a partir de 2003 na Argentina que se propagaram mundialmente. 
Em Mato Grosso do Sul, o maior representante desta linha de literatura artesanal autônoma e independente é Douglas Diegues, criador das poesias escritas em portunhol selvagem. Trata-se de livros elaborados com material reciclado. A capa é moldada com sobras de caixas de papelão jogados ao lixo. Daí a origem do nome cartonera: cartão, papelão.
Desenhista de origem, Nelson Urt escreve e ilustra manualmente os títulos usando guache e nanquim, e hoje é 100% responsável pela elaboração dos livros montados em casa. Há dez anos ele edita o blog Nave Pantanal e recentemente lançou o site Navepress. Em 2018, Urt integrou a equipe de reportagem do Festival América do Sul, ao lado de Rodrigo Teixeira e Jerry Espíndola. Graduado em História na UFMS, em 2018 iniciou seus estudos no Mestrado de Estudos Fronteiriços com um projeto sobre os dois livros e influências deixados pelo poeta corumbaense Lobivar Matos. 
Serviço: Os livros artesanais da Editora Cartonera Maria Preta podem ser encomendados aos sábados, das 9h às 11h, na Praça Independência, em Corumbá, pelo whatsApp 98439-3002 ou pelo e-mail nelsonurt@gmail.com.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Os riscos da mineração em Corumbá


Nelson Urt
Campanhas de preservação do meio ambiente chegam a perder o sentido diante de tantas tragédias anunciadas e o mar de lama que cobre o Brasil. É até constrangedor hoje em dia pedir a uma criança que plante uma árvore quando  recente relatório divulgado pelo Greenpeace mostra que de agosto de 2017 a julho de 2018 o País perdeu 1 bilhão de árvores na Amazônia, onde o desmatamento continua avançando vorazmente, no ritmo desenfreado da economia de mercado. 
Hoje quem lida honestamente com a preservação dos bens naturais corre risco de ser comparado a personagens de filmes de ficção futurista como o recém lançado IO, exibido pela Netflix. O filme narra a persistência e a coragem de uma solitária e jovem cientista, Sam, em salvar um planeta moribundo, distópico, dado como causa perdida pela civilização que já se mandou daqui para viver em colônias espaciais. O último que ficar apaga a luz. E Sam decide ficar, por ser uma menina perdidamente apaixonada pelo planeta terra. 
Sim, ainda temos muitas Sam e pessoas sãs por aqui. Embora um bando de perversos empresários e políticos insistam em manter a alta lucratividade mesmo que para isso tenham de sacrificar a natureza, no outro extremo dessa cadeia ambiental há brasileiros que sentem diretamente na pele os efeitos da devastação e gritam por socorro. Chico Mendes foi um deles. Mas há quem ignore Chico Mendes. 
Em Corumbá e Ladário, representantes das comunidades que vivem no entorno das minas que são exploradas pelas mineradoras e, portanto, das barragens com rejeitos, em Maria Coelho, Urucum, Mato Grande e Albuquerque, protocolaram neste dia 12 de fevereiro no Ministério Público Federal (MPF) e Ministério Público Estadual (MPE) pedido de Audiência Pública para esclarecimento de segurança e riscos de acidentes ambientais. 
Ou seja, querem saber até que ponto eles, produtores rurais, pescadores, donos de balneários e pousadas, moradores que vivem e transitam no entorno dessas barragens podem ter certeza se não serão as próximas vítimas de tragédias como as de Mariana e Brumadinho. Lá como aqui, há pelo menos uma barragem categorizada como de alto risco. E em todas elas existe risco, pela própria estrutura em que são montadas. 
Outras audiências públicas foram anteriormente realizadas para que Vale e Vetorial, as mineradoras que exploram as minas de Corumbá e Ladário, em pleno Pantanal, e nas proximidades de cidades que somam uma população de 130 mil pessoas, pudessem esclarecer dúvidas sobre impactos ambientais provocados pela mineração nas morrarias e arredores. 
E esses impactos, comprovadamente, não foram poucos desde que as mineradoras se instalaram na nossa região com a contrapartida de trazerem mais empregos e crescimento econômico. Nascentes e cachoeiras foram comprometidas, córregos secaram e nunca mais os moradores do Urucum, Maria Coelho e Mato Grande puderam desfrutar da mesma quantidade e qualidade da água mineral que em outros tempos, até a década de 70 do século passado, eram limpas e abundantes. 
Valeu a pena o custo-benefício deste desenvolvimento? Os impactos e riscos compensam os impostos da exploração mineral pagos às duas cidades? Compensam o número de empregos criados? Ou é hora de Corumbá e Ladário reverem suas matrizes econômicas e definitivamente investirem no turismo ecológico como fez Bonito? As respostas devem ser dadas em mais esta Audiência Pública. 

“Violação de direitos humanos”

Organizações globais de direitos humanos e meio ambiente, incluindo o Greenpeace Brasil, pediram neste mesmo dia 12 de fevereiro à ONU (Organização das Nações Unidas) que a Vale seja excluída do Pacto Global, maior rede de responsabilidade social corporativa do mundo, com mais de 9 mil empresas. Em carta enviada à ONU, entidades denunciam que no rompimento da barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão identifica-se “séria violação de direitos humanos” e “graves danos ambientais” pela mineradora, o que fere os princípios do Pacto Global. De acordo com as organizações a Vale falhou ao não avaliar adequadamente os riscos e ao deixar de tomar medidas preventivas e de mitigação. No documento, a Vale também é apontada como violadora persistente, citando o caso do rompimento da barragem da Samarco, uma joint venture da Vale e da australiana BHP Billiton, em Mariana em 2015. Para as entidades, se trata de um “caso sem precedentes de má conduta corporativa” e o pior acidente trabalhista da história do Brasil. (Fonte: Greenpeace Brasil)


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Dia da Consciência Negra (e das nossas quilombolas)


Quilombolas expressam historicamente a cultura afrodescendente
Nelson Urt

Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, entramos na nave da História para lembrar que hoje também é dia das quilombolas. Elas representam nosso elo com a cultura afrodescendente e a herança deixada pelo sistema escravocrata. Corumbá é o segundo município de Mato Grosso do Sul com maior número de comunidades quilombolas. São três comunidades, todas na ali na região portuária, onde poucos costumam descer: Família Ozório, Família Maria Theodora Gonçalves de Paula e Campos Correia. Visitei uma delas, a Família Ozório, em reportagem para o jornal O Estado, de Campo Grande, e constatei a dedicação dos moradores à lavoura – e as plantações à beira do rio Paraguai – e o respeito entre eles, quase todos ligados a um mesmo tronco familiar, descendentes do patriarca Ozório, que migrou do norte mato-grossense para aqui fincar raízes. São descendentes de antigos escravizados, que conquistaram reconhecimento oficial por meio da quilombola, um pedaço de terra à beira do rio onde podem criar seus filhos e transmitir a eles seus valores culturais. Até bem pouco tempo Corumbá (leia-se a elite corumbaense) resistia em aceitar sua ligação com o sistema escravocrata, virando as costas e os olhos para a história. Mas graças ao empenho da comunidade negra – o poeta Benedito C.G.Lima e a presidente do Instituto da Mulher Negra, Ednir de Paulo à frente, entre outros – a realidade foi colocada a limpo e as reivindicações quilombolas aceitas. Pesquisadores como as professoras corumbaenses da UFMS Elaine Cancian e Maria Brazil foram igualmente importantes para este reconhecimento, contribuindo com a elaboração do conteúdo histórico de uma sala que trata exclusivamente do sistema escravocrata em Corumbá inaugurada neste 2018 no Museu de História do Pantanal (Muhpan).

Mapa do MPF - Nioaque é o município com o maior número de comunidades quilombolas em Mato Grosso do Sul. São quatro: Família Cardoso, Famílias Araújo e Ribeiro, Família Romano Martins da Conceição e Família Bulhões. Em terceiro lugar está a capital Campo Grande, com duas comunidades:  Tia Eva (São Benedito) e Chácara do Buriti. As outras nove comunidades estão espalhadas por nove municípios, de norte a sul de Mato Grosso do Sul. Estas e outras informações sobre as comunidades quilombolas de MS, incluindo os procedimentos que tramitam no Ministério Público Federal (MPF), podem ser encontradas no mapa interativo disponibilizado pelo órgão ministerial neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Acesse o mapa pelo endereço: www.mpf.mp.br/ms/quilombolas


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

MPF pede urgência na restauração do ILA deteriorado


Prédio do ILA, de 170 anos, em estado de alerta
Nelson Urt
Em setembro, na semana de aniversário de 240 anos de Corumbá, visitei o prédio do Instituto Luiz Albuquerque (ILA) e constatei o estado precário das instalações e do acervo de peças e livros da Biblioteca Municipal Lobivar Matos e do Museu Regional do Pantanal. Na reportagem para o Diário Corumbaense relatei que o mofo provocado por infiltrações, a deterioração do piso de madeira, do teto e telhados colocam em risco a estrutura do prédio de 170 anos, tombado desde 2007 pelo Governo do Estado.
O prédio não dispõe de um sistema de prevenção contra incêndio, e há uma considerável quantidade de material de combustão lá dentro. Não é climatizado. As janelas precisam permanecer abertas para manter a circulação de ar. Não há guarda municipal durante as madrugadas. Enfim, um patrimônio transformado em barril de pólvora a poucos metros da Praça da República.
A fragilidade do ILA  coloca a comunidade acadêmica, científica, educacional e cultural em alerta neste ano em que um incêndio transformou em cinzas grande parte dos 20 milhões de itens do acerco de cinco sécul0s do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.
Nesta quinta, 15 de novembro, feriado da Proclamação da República, o
Ministério Público Federal (MPF) em Corumbá ajuizou Ação Civil Pública, com pedido de liminar, para que o Governo de Mato Grosso do Sul e a Prefeitura de Corumbá, com supervisão da União, elaborem diagnóstico das falhas estruturais com indicações de medidas emergenciais de correção para a manutenção do ILA.
Como outra medida de urgência, também foi solicitado que o Município de Corumbá elabore relatórios sobre o atual sistema de alarme de incêndio, aliado a um plano de combate ao fogo, que deverá ser supervisionado pelo Governo do Estado por meio do Corpo de Bombeiros Militar. Este, junto da União e do Município, também deverá apresentar um plano de risco sobre o ILA.
Como forma de preservar a integridade dos bens culturais, o MPF também pediu a restrição da exposição das peças, para que não haja qualquer risco à deterioração dos objetos por parte de pessoas desautorizadas e pelo público externo. Tais medidas deverão ter início dentro do prazo de 30 dias, a partir da intimação.
Dentre os pedidos definitivos da ACP estão a elaboração, por parte do Município, Estado e União, de um Plano de Gestão de Conservação do ILA, com medidas de intervenções futuras, e também a instauração de Planos de Pânico e Incêndio.
Outro pedido é o de início da restauração do prédio por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no programa de Cidades Históricas, com repasse de verbas pela União e a execução das obras pelo Município e Estado.
Também foi solicitada a instalação de uma infraestrutura que possibilite o bom aproveitamento da função social do museu e a implementação de práticas de preservação e conservação do patrimônio histórico, por também ser competência do poder público.
Caso não haja o cumprimento das determinações, o MPF solicitou o estabelecimento de multa diária no valor de R$ 5 mil.

Inquérito de 2016 - Um Inquérito Civil Público está aberto desde 2016 para apurar o estado de conservação do ILA após denúncias da imprensa. O prédio foi contemplado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas, mas o MPF constatou que o processo caminha em passos lentos. Para o órgão ministerial, o ritmo conduzido pelos órgãos envolvidos no processo é “incompatível com as medidas necessárias para a preservação, conservação e manutenção do patrimônio histórico”, o que requer medidas de caráter urgente.
Após vistorias feitas pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul e pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o MPF promoveu visita técnica ao Instituto, diagnosticando problemas ligados à má preservação do prédio. Desde infiltrações, bolor e deterioração do madeiramento, apodrecimento de janelas e assoalhos, até a presença de pragas e cupins, ocasionados pela falta da manutenção adequada. Segundo o relatório de visita, os acervos culturais permaneciam no prédio, expostos aos riscos provocados pela estrutura fragilizada.
O Instituto Luiz Albuquerque guarda um acervo de mais de 40 mil exemplares de livros e acervos originários do Museu Regional do Pantanal e da Biblioteca Municipal Lobivar Matos. Para o MPF, “trata-se de área portadora de referência à identidade, à ação e à memória de grupos formadores da sociedade brasileira, incumbindo ao Poder Público promover a sua proteção.” (Fonte: Assessoria de Comunicação do MPF)