terça-feira, 11 de agosto de 2026

Lejeune Mirhan: memórias e lutas de um militante comunista corumbaense


Maio de 1977. Em plena ditadura militar, um protesto mobiliza 15 mil estudantes para uma passeata em São Paulo. Ao atravessarem o Viaduto do Chá, gritando pelas liberdades democráticas, são duramente reprimidos pela tropa de choque da Polícia Militar. Bombas de gás lacrimogêneo caem sobre as primeiras fileiras de estudantes. Enquanto muitos recuam, um jovem corpulento, de barba e óculos de graus, se adianta e, sozinho, chuta uma das bombas de volta na direção dos policiais. “Era o Lejeune, conhecido na época pelo apelido de Mato Grosso”, conta o jornalista Igor Fuser, ao evocar a histórica passeata e relembrar um traço marcante do jovem militante corumbaense Lejeune Mirhan. A imagem seria retratada pelos jornais paulistas.

Dois anos antes ele havia iniciado sua militância no Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e ajudou a reorganizar o DCE Livre da USP em São Paulo. No fim daquele ano, o partido decidiu deslocá-lo para Campinas, com o objetivo de construir a organização estudantil nas duas universidades da cidade. Décadas depois, em Campinas, criaria sua própria editora, a Apparte, para publicar suas obras e de outros camaradas sem oportunidades.

Ao encerrar seu ciclo neste plano material em 6 de agosto de 2026, aos 69 anos, Lejeune possuía 23 livros publicados, entre eles Marx para principiantes, E se Gaza cair..., Palestina, Reflexões sobre a multipolaridade do mundo, Relatos de viagem: Síria e Líbano, todos baseados em suas minuciosas pesquisas. Sociologia, geopolítica, sindicalismo, marxismo, cultura árabe foram áreas em que se especializou e fez questão de compartilhar, incansavelmente, com seus alunos, amigos e admiradores.

O sociólogo, escritor e ativista político Lejeune Mirhan nasceu em Corumbá em dezembro de 1956, no tempo em que nosso estado era Mato Grosso e nossa capital era Cuiabá. Descendente de sírios e armênios que chegaram a Corumbá em 1913, migrou com a família para São Paulo, onde se estabeleceu e se tornou um dos mais influentes escritores e articulistas da geopolítica internacional, com intensa participação nos podcasts de canais independentes do youtube, entre eles o portal Brasil 247.

Formou-se em Ciências Sociais pela PUC-Campinas em 1981 e fez o mestrado em Filosofia da Educação entre 1982 e 1984 na mesma PUC. Deu aulas em universidades e na rede pública. Foi um árduo defensor da inclusão obrigatória da Sociologia e da Filosofia no ensino médio. Fundou, ao lado de Florestan Fernandes, o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, do qual foi presidente duas vezes.

“No debate geopolítico contemporâneo, Lejeune destacou-se por demonstrar, com absoluto rigor científico, que o mundo já se tornou multipolar”, declarou José Reinaldo, presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz), que Lejeune ajudou a criar.

“Lejeune partiu deste mundo, mas não partiu da história”, escreveu o jornalista Leonardo Attuch, criador do portal e TV Brasil 247. “O mundo pelo qual ele lutou, estudou, ensinou e militou já se impôs. A multipolaridade, que durante muitos anos foi tratada pelos centros de poder ocidentais como uma hipótese distante, uma ameaça ou até uma fantasia, hoje é uma realidade concreta. Lejeune venceu porque a tese central que orientou sua vida pública venceu. O planeta já não aceita ser comandado por uma única potência, por um único sistema financeiro, por uma única narrativa geopolítica ou por um único centro de poder”.

Convivi por algumas semanas com Lejeune – cujo nome, em francês, quer dizer O Jovem – durante o curso de Mestrado dos Estudos Fronteiriços da UFMS, na unidade 3, no Porto Geral de Corumbá. Ele veio cursar uma disciplina optativa ministrada pelo professor de História Paulo Esselin. No final das aulas, escolhíamos os melhores bares corumbaenses para longos bate-papos sobre política, geopolítica, literatura, ao lado de Esselin. Ganhei dele o livro Relatos de Viagem: Síria e Libano, de 2015, que já era um prenúncio do que viria ser, onze anos depois, a guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Tenho também na minha biblioteca comunitária “E se Gaza cair...”

Criou o Comitê pelo Estado da Palestina e o Comitê de Solidariedade ao Povo da Síria, e combatia a exaustão o imperialismo estadunidense e seus aliados sionistas. Tornou-se figura imprescindível nos debates e entrevistas dos canais independentes durante o ápice da guerra EUA-Israel-Irã. Recentemente havia feito uma viagem à China, que resultou na reportagem A “República Popular da China que eu conheci”, compartilhada com seus seguidores em quatro episódios no seu Canal de Geopolítica, no Youtube.

Para sua família e amigos, antes de partir, deixou este lembrete: “Se você quiser me encontrar, pare um pouco e, em silêncio, pense em mim; se quiser me encontrar, olhe bem dentro de você, sinta seu coração bater forte, sinta-se feliz e não procure mais por mim; eu estou aí...dentro do seu coração”.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

O rap indígena da retomada

 

Nelson Urt/Navepress

O show do Brô MCs, sexta no Moinho Cultural, trouxe para o coração de Corumbá e do Pantanal a realidade dos indígenas Bruno Vn, Tio Creb, Kelvin Mbaretê e CH, integrantes do primeiro grupo de rap indígena do País, de toda a etnia guarani kaiwoá e o clamor dos povos originários brasileiros, em um momento crítico de opressão. A apresentação fez parte do Forum e Teia Cultural de Mato Grosso do Sul, que reuniu Pontos e Pontões de Cultura de MS, seus gestores, artistas, coletivos e fazedores de cultura de todo o estado, em um espaço de troca, formação, articulação e fortalecimento da Cultura Viva no território. O encontro durou dois dias e se encerrou com um cotejo pela orla do rio Paraguai, marcado pela diversidade cultural e sincretismo religioso, com o entrelaçamento da imagem de Nossa Senhora de Urkupiña, trazida de Puerto Suarez, junto do grupo de dança boliviano Los Caporales, e os rituais de umbanda e candomblé num culto a Iemanjá, a rainha das águas, com oferendas de velas e flores na beira do rio. Nesse aspecto, os pontos culturais cumprem seus principais objetivos: a promoção do conhecimento, da tolerância, da alteridade e o congraçamento de povos, em nome da paz. Os integrantes do Brô MCs ainda moram nas aldeias Bororo e Jaguapiru, onde o grupo se formou há 16 anos, quase que engolidos por grandes fazendas monocultoras situadas no município de Dourados, em Mato Grosso do Sul, um dos estados com maior índice de mortes violentas de indígenas no Brasil. Os indígenas vivem em pequenos terrenos, encurralados pelo mar de fazendas do agronegócio que rodeiam a reserva Francisco Horta Barbosa, sobreposta às suas aldeias. Em suas músicas, cantadas em guarani e Kaiowá, os Brô’s entoam e denunciam as consequências do empobrecimento cíclico em que seu povo foi condicionado. Anunciam a luta e resistência através das retomadas. O movimento de retomadas das terras ancestrais por parte dos indígenas Guarani e Kaiowá está se fortalecendo nos últimos anos, e é uma forma que eles encontraram de reivindicar seus territórios que foram sendo espoliados. (Fonte: Instituto Socioambiental/Fotos: João Albuquerque/Dzawi Filmes /ISA e Nelson Urt/Navepress.

 







quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Miguelito, o menino da Vila, derruba o Brasil do altar

NELSON URT/NAVEPRESS

Confesso que planejei ver o jogo pessoalmente nas arquibancadas do estádio Titán de Vila Ingenio, o estádio mais alto do mundo, nos 4150 metros de altitude de El Alto, na cordilheira da Bolívia. Mas não consegui, e acompanhei o jogo aqui embaixo, na planície do Pantanal, nas bordas do rio Paraguai, em Ladário. Mesmo distante do temido Titán, observei um raro fenômeno por aqui: o espocar de fogos quando Miguelito marcou o gol que deu a vitória para a Bolívia diante do Brasil. Uma vitória, como disse em manchete o boliviano El Deber, de “puro corazón”, que coloca a Bolívia às portas da Copa do Mundo de 2026 (está qualificada a disputar um torneio complementar com outras cinco equipes e buscar uma das duas vagas restantes). Outra surpresa para os menos informados é que o herói do jogo, um menino de 21 anos, Miguel Angel Terceros, número 7 na camisa, é o que chamam de “Menino da Vila”. Embora tenha nascido em Santa Cruz de la Sierra, foi descoberto pelo Santos aos 14 anos durante uma excursão do Projeto Bolívia na Vila Belmiro, passou nos testes e ganhou um contrato até 2027. Por uma série de motivos, inclusive por questões familiares, não se firmou no time principal e hoje disputa o Campeonato Brasileiro da Série B pelo América Mineiro, por empréstimo (ou seja, o Santos esconde na segunda divisão uma jóia da casa). Mas na Bolívia, depois de altos e baixos, hoje Miguelito é o dono da camisa 7, um ponta canhoto que cai para o meio e finaliza muito bem, e se tornou o artilheiro do time e terceiro goleador das Eliminatórias: nessa terça, marcou seu sétimo gol. Comentaristas influentes culpam a Bolívia por ter levado o jogo para a altura insuportável do Titán de El Alto, um ato desumano contra o escrete brasileiro e outras seleções que foram jogar lá e também apanharam. Juca Kfouri, em trocadilho infame com o nome de Miguelito (e com todos os meninos de nome Miguel), afirmou que a Bolívia deu uma de “migué”. Outro influente, Mauro César, aponta como defeito o fato de o VAR ter descoberto um pênalti para “garfar” a Venezuela (garfar Maduro, ele quis dizer, em clara alusão a uma teoria da conspiração acionada por Donald Trump na guerra fria contra a Venezuela). O fato é que a Venezuela perdeu a vaga ao cair por 6 a 3 diante da Colômbia, no mesmo horário, dentro de casa. Após ver e ouvir tantas aberrações, fico a matutar se os mesmos comentaristas se esqueceram dos tempos em que a Bolívia era governada por ditadores militares aquartelados em Santa Cruz e nas Eliminatórias a Seleção Brasileira ganhava, passeava e exibia sua beleza nos jogos contra a Bolívia – sempre em Santa Cruz, é claro. O fato é que os bolivianos, que sempre tiveram o Brasil como segunda opção para torcer – porque a Bolívia não vai à Copa desde 1994 – ganharam uma rara oportunidade de comemorar uma vitória épica contra o Brasil, com espocar de fogos nos dois lados da fronteira: em Puerto Suarez, Puerto Quijarro, Corumbá e Ladário. Se quiserem, podem botar na conta do Titán, do VAR, do balão de oxigênio, das bolas furadas...mas não se esqueçam de Miguelito, o menino da Vila, e do puro corazón de jogadores bolivianos que choravam ao ouvir o hino do seu país e o grito dos torcedores. Puro corazón. Será que não é isso que anda faltando ao Brasil?

 

 

 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Maria, Carnaval e cinzas...e feminicídio



Nelson Urt/Navepress

No dia 8 de março, quatro dias após o encerramento do Carnaval, convém substituir os confetes e serpentinas por momentos de discussão social, reflexão e atitudes diante de um problema que afeta diretamente brasileiras e brasileiros: o feminicídio. É hora de falarmos de cinzas, da Lei Maria da Penha, das leis que não são cumpridas, da normalização do ódio.

Nesta data oficialmente se celebra o Dia Internacional da Mulher. Mas, em vez de entregarmos ramalhetes de flores e bombons às mulheres de todas as classes, gêneros e profissões, propomos marcar a data entregando um pacote com pertinentes debates que nos levem a conclusões e soluções para uma questão de enorme gravidade em nosso País: o crescente número de mortes violentas contra mulheres por questões de gênero.

Neste começo de ano de 2025, foram dois casos e um dos crimes de ódio vitimou a jornalista Vanessa Ricarte, assessora de comunicação do Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso do Sul, na capital Campo Grande. Vanessa procurou a Delegacia da Mulher para relatar perseguição do ex-noivo e pedir medida protetiva. Estava fora de casa havia dois dias. Ao voltar para a casa compartilhada com o parceiro para pedir sua saída, foi morta por ele com três facadas. Ficou mais uma vez evidente o despreparo de policiais no trato com casos como esse, em que o homem, autor das ameaças, continua sendo substimado. O crime ocorre quando a vítima está desprotegida, dentro de casa, a covardia é recorrente nesse tipo de assassinato.

O feminicídio coloca o Brasil na 5ª posição no ranking mundial, atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. Em comparação com outros países, aqui se mata 48 vezes mais mulheres que no Reino Unido, 24 vezes mais que na Dinamarca e 16 vezes mais que no Japão, de acordo com dados do Alto Comissariado das Nações Unidades para os Direitos Humanos.

Em 2020, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, foram registradas 105.821 denúncias de violência contra a mulher através do Ligue 180 e do Disque 100. O número representa um chamado a cada 5 minutos.

A legislação que incluiu o feminicídio como qualificadora do crime de homicídio - Lei nº 13.104 - data de março de 2015, tendo o Brasil sido o 16º país da América Latina a criar a legislação.

Mato Grosso do Sul é um dos estados brasileiros onde mais ocorrem feminicídios. De janeiro a novembro de 2024, MS registrou 31 feminicídios e 78 tentativas de morte contra mulheres por questões de gênero, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública divulgados pelo Observatório da Mulher de Campo Grande. Nesse período, só a Capital somou 9 assassinatos e 15 tentativas.

Uma nota de pesar do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e de Ladário, Pacto pela Cidadania e do Comitê Corumbá pela Paz repudia o crime contra a jornalista e a escalada da violência contra as mulheres.

O professor e historiador Ahmad Schabib Hany, do Pacto pela Cidadania, pede mobilização para deter a normalização do ódio: “Nossos Espaços Públicos não Estatais em Corumbá e Ladário entendem que devemos nos mobilizar, e convocamos a sociedade civil em todo o estado a se posicionar de forma altiva e contundente contra a postura procrastinadora e prevaricadora dos responsáveis pelos órgãos que deveriam assegurar direitos consignados na Constituição e em leis há décadas sancionadas e implementadas, como a própria Lei Maria da Penha.”

(Charge: Latuff/2013)

 


quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Agronegócio financia lobby para censurar livro didático


Nelson Urt/Navepress

Não bastasse a voracidade com que devastam a Amazônia, o Pantanal e outros biomas nativos brasileiros, em nome do avanço do agronegócio que garante os pomposos números de exportação na balança comercial do Brasil, agora o setor que mais consome e usa agrotóxico no mundo quer, com negacionismo, apagar sua imagem negativa dos livros didáticos escolares de todo o País. E, por extensão, das mentes dos jovens estudantes brasileiros. Mais uma tentativa de tratar o brasileiro como um imbecil.

É isso mesmo: o agronegócio financia um lobby (palavra de origem inglesa que designa influência, pressão, jogo de interesses particulares sobre o poder público) para patrulhar e censurar os livros didáticos. Para tanto, um grupo de políticos e empresários do setor criou uma associação chamada “De olho no material escolar”, agora conhecida como “Donme”.

Criada em São Paulo, a Donme tem ligações com secretarias de Agricultura e Educação do Estado e mantem diálogos com a cúpula do Congresso Nacional, na tentativa de influenciar a formação do Plano Nacional de Educação (PNE), que será definido em 2025 com validade para os próximos dez anos. Entre suas ações, promove excursões a feiras de agronegócio com professores, alunos e editores, e se reúne com parlamentares chaves na Câmara e no Senado.

O vice-presidente da associação é Christian Lohbauer, cientista político e um dos fundadores do Partido Novo. Dezenas de corporações e empresas do agronegócio estão por trás do grupo fundado em 2021 pela pecuarista Letícia Jacintho, atual presidente da associação.

O financiamento é pesado, e conta com cerca de 70 empresas. Na lista estão siglas do porte da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que representa companhias como a JBS, Cargill, Itaú BBA e Cosan.

Como se sabe, a JBS substituiu a Vale (que se foi) e explora o minério de ferro e o manganês do maciço do Urucum, em Corumbá, mas seu ramo original é o agronegócio.

A Donme também é financiada pela Coplife Brasil, representante das maiores fabricantes multinacionais de agrotóxicos e que era presidida por Christian Lohbauer (o do Partido Novo) até 2023, quando ele deixou o cargo para assumir como vice-presidente da Donme.

Neste trecho de uma reportagem publicada no dia 30 de outubro deste ano pela ONG Repórter Brasil, fica claro como o grupo Donme pretende “domar” o Ensino e interferir no aprendizado das crianças usando como artifício o negacionismo:

“O que as crianças e os adolescentes estão aprendendo que vai ser bom para o mundo do trabalho?”, perguntou Christian Lohbauer, vice-presidente da associação De Olho No Material Escolar, a uma plateia de políticos e empresários reunidos na capital paulista, no início de outubro. Ele discursava durante evento do Lide, grupo criado pelo ex-governador de São Paulo João Dória.

“Ela não pode aprender, todos os dias, em todos os materiais, há 30 anos, que tem trabalho escravo na cana-de-açúcar. Ela não pode aprender que o alimento brasileiro está envenenado com agrotóxicos. Ela não pode aprender que a pecuária é responsável pela destruição da Amazônia, porque não é verdade”, o próprio Lohbauer respondeu. 

Como se observa, trata-se de um grupo que se apresenta interessado em contribuir com o desenvolvimento do Ensino educacional brasileiro, mas que na verdade defende puramente os interesses das multinacionais do agronegócio e do agrotóxico.

Não interessa para esse grupo a diversidade de temas, conceitos e informações nos livros didáticos, mas sim a hegemonização desses livros em torno de conceitos que as companhias multinacionais defendem, ou seja, o lucro acima de tudo.

A Donme afirma o seguinte em seu site: “Somos uma entidade que busca a atualização do material escolar com base em conteúdo científico, equilibrado e que gere perspectivas positivas para os estudantes”.

Disseminar conteúdos que negam ser o Brasil o maior consumidor de agrotóxicos do mundo (dados comprovados em estatísticas oficiais) é uma das principais estratégias da Donme. Tanto que a organização criou a Agroteca, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), uma biblioteca virtual com publicações sobre o agronegócio, e nela encontram-se conteúdos negacionistas e que tentam implantar uma imagem positiva do setor quando o mundo sabe que a aplicação de agrotóxico é um malefício para a saúde.

Senão, vejamos: segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil lidera, e com folga, o ranking de consumo de pesticidas, quando considerados os dez países cm as maiores áreas da lavoura no mundo. A média no Brasil é de mais de 12 quilos aplicados por hectare; na sequência estão a Indonésia (6,5 quilos por hectare), a Argentina (5,9) e os Estados Unidos (com 3).

O que as crianças e adolescentes precisam aprender com clareza é que existe um outro tipo de agricultura, real e sustentável, capaz de produzir alimentos sem o uso de pesticidas nocivos à saúde, sem agredir o meio ambiente. Essa agricultura, que pode ser chamada de familiar ou agroecológica, e que surge a partir de assentamentos em todo o Brasil, e inclui sítios e pequenas plantações, fornece hoje cerca de 70% dos alimentos que chegam à nossa mesa – ou até mais. E nós, brasileiros, que não somos nada imbecis, temos o direito e o dever de fazer a nossa escolha. A vida não está à venda.

(Com informações da ONG Repórter Brasil/Charge: Latuff)


domingo, 13 de outubro de 2024

Punkcururu do Duo Chipa dá nova pegada à viola de cocho


 Nelson Urt/Navepress

Encerrando turnê com apoio do Fundo de Investimento Cultural (FIC) na Estação Cultural Teatro do Mundo, neste sábado, 12, em Campo Grande, o trio Duo Chipa deixa um rastro de coragem e inovação ao fazer uma releitura e dar nova pegada à música raiz.

Definido pelo escritor, músico e produtor cultural Rodrigo Teixeira como punkcururu, a nova proposta consegue associar elementos do punk ao ritmo de dois acordes da viola de cocho, o instrumento criado pelos povos originários do Pantanal e que serve como base para as cantigas de roda do cururu e do siriri presentes hoje em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

Na apresentação de Audria Lucas (voz e viola de cocho), Cleozinhu Oliveira (voz, violão e viola de cocho) e Rafael Omar (viola de cocho, ganzá e mocho), o cururu ganha outra dimensão ao se associar a elementos do punk, como nas interpretações furiosas do trio para Tramelado e Marrequinha na Lagoa, canções originárias de comunidades de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

As outras nove músicas do álbum Lugar Distante, lançado nesta turnê e disponível na plataforma Spotify, são autorais do trio, com destaque para Polca do Desprezado, Feitiço e Noite Crua.

Estabelecido atualmente em São Paulo, o Duo Chipa começou em 2020 com o paulistano Cleozinhu e a campo-grandense Audria Lucas e em 2022 o grupo recebeu a adesão do corumbaense Rafael Omar.

Até chegar aqui, o grupo havia lançado cinco álbuns pela internet. O repertório do quinto álbum, Lugar Distante (Curupah, na língua da etnia guarani e como Corumbá era chamada pelos indígenas) teve um concerto de lançamento no auditório do Moinho Cultural, outro no Resistência Rock Bar e no dia seguinte um show especial para alunos da Escola Gabriel Vandoni.

O Duo Chipa aproveitou a apresentação em terra sul-mato-grossense para realizar a pré-estreia de “Mestre Sebastião Entre Causos e Toadas”, documentário feito pelo próprio grupo durante os dias que passaram convivendo em Ladário com o mestre Sebastião Brandão, de 80 anos, o mais importante cururueiro e tocador de viola de cocho da região.

Desde novembro de 2023, com incentivo cultural da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, está aberta em Ladário a Casa de Memória Sebastião Brandão, com exposição dos instrumentos e a oficina onde o mestre cururueiro ensina a qualquer interessado o modo de fazer da viola de cocho. “Foi uma emoção incrível se apresentar para uma plateia que tinha o mestre Brandão na primeira fileira”, destacou Rafael Omar.

Aplaudido de pé no final da turnê em Campo Grande, o Duo Chipa provavelmente terá uma volta triunfal à região para fazer o show de abertura do Quebra Torto com Letras, o famoso encontro literário do Festival América do Sul em Corumbá.

Show no Resistência Rock Bar em Corumbá



sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Gaza brasileira: nem casas de reza escapam ao massacre contra indígenas em Douradina


Nem as casas de reza dos povos indígenas estão escapando dos ataques dos jagunços (agora conhecidos como milicianos), a mando de fazendeiros que se recusam a aceitar a lei de demarcação, temerosos em perder suas terras. De 2019 e 2023, foram queimadas ou destruídas 13 dessas Oga Pissy, o nome em guarani das casas de reza. Desse total, 9 ataques criminosos ocorreram em Mato Grosso do Sul.

No momento, a comunidade indígena de Douradina é alvo de um massacre intermitente, ataques com uso de balas de chumbo (e não apenas de borracha, como se imaginava), uso de potentes holofotes para impedir que os indígenas durmam à noite (um verdadeiro ato de tortura pós-ditadura), emprego de tratores para destruir moradias e plantações, além do uso de queimadas como forma de espantar os moradores.

Esses ataques ocorrem desde agosto do ano passado e ganharam mais intensidade enquanto as autoridades discutem se aprovam ou não o Marco Temporal, um projeto de lei criado para impedir novas demarcações de terras mas que está prestes de ser derrubado. Os ataques são uma forma de fazendeiros pressionarem os políticos parlamentares a aprovarem o Marco Temporal e protegerem suas propriedades que se encontram em terras indígenas.

Douradina fica no sul do Estado e possui pouco menos que 6 mil habitantes, sendo o menor município de Mato Grosso do Sul em área territorial, fazendo divisa com Dourados. Foi uma cidade criada por fazendeiros, proprietários dos latifúndios naquela região antes pertencente aos povos originários.

Quando os povos indígenas foram expulsos a toque de caixa de suas terras, no começo do século passado, o Governo criou a Reserva Indígena Guarani Kaiowá, em Dourados, como forma de aldear e apaziguar os nativos. Com o passar do tempo, a região tornou-se um ponto de conflito e manifestações, quando houve um despertar da consciência e os povos indígenas passaram a reivindicar a retomada de suas terras que ficam no entorno dessa reserva, cansados de esperar por novas demarcações. Douradina é apenas um desses pontos.

As Oga Pissy não são simplesmente casas de reza, mas locais de encontros sociais, culturais e políticos das comunidades indígenas. Ali são discutidas as principais questões que afligem a comunidade. Queimar e destruir Oga Pissy é uma tentativa de o oponente apagar os principais traços culturais do povo, trata-se de um atentado às tradições seculares. As Oga Pissy são consideradas centros sagrados pelos indígenas, que nelas guardam apetrechos de seus rituais.

O fato é que o movimento das retomadas em TI (Terras Indígenas) está escancarando uma onda de violência que vem crescendo na medida em que os fazendeiros, megaempresários do agronegócio brasileiro, sentem-se ameaçados em perder bens e lucros acumulados desde a instalação da República, quando a ordem vigente passou a ser desalojar indígenas de suas terras e repassá-las aos produtores rurais com a formação dos enormes latifúndios.

E o governo progressista permanece neutro, apesar do massacre. Tanto é que, em vídeo gravado por agências de notícias independentes, fica claro o tom conciliador com que a ministra dos Povos Originários, Sonia Guajajara, trata a questão durante sua visita à Douradina, ao solicitar que as vítimas do massacre fossem “mais pacíficas”.

A Força Nacional também esteve presente, mas a barbárie continua, tanto é que no fim de semana de 3 e 4 de agosto dois novos ataques com armas de fogo foi perpetrado, deixando 11 indígenas feridos, dois deles com gravidade, na cabeça e no pescoço.

A retomada Guaaroka é uma das sete ocupações feitas pelos Guarani Kaiowá dentro da Terra Indígena (TI) Panambi-Lagoa Rica. A área de 12,1 mil hectares já foi identificada e delimitada pela Funai em 2011, mas o processo demarcatório está estagnado desde então.    

Vinculada ao Ministério da Justiça (MJ) e com a atuação criticada pelos indígenas, a Força Nacional delimitou um espaço para cada um dos dois grupos que acampam na área sobre a qual está a fazenda do agropecuarista Cleto Spessato. De um lado, os povos originários na retomada Yvy Ajere. De outro, os ruralistas armados, que contam com o apoio dos deputados federais ligados à bancada do agronegócio.

No início da noite de domingo, 4 de agosto, fazendeiros avançaram com fogo, trator, rojão e tiros, a despeito da presença da Força Nacional, contra a retomada Yvy Ajere.  Segundo relatório do Conselho Missionário Indígena (CIMI), "os agentes se mantiveram atrás da linha de ataque dos jagunços sem esboçar qualquer reação para impedir as agressões". Cenas que, se mostradas em rede nacional pela tevê comercial patrocinada, lembrariam ataques contra palestinos na faixa de Gaza. Mas esse massacre aos povos indígenas continua restrito à cobertura de uma pequena parcela da imprensa independente e a pedidos de socorro das próprias vítimas. 

 

 

 

 


quinta-feira, 4 de abril de 2024

Povos Guarani Kaiowá e Krenak recebem reparação inédita por crimes cometidos pela ditadura militar

 


Em decisão histórica, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), a Comissão de Anistia, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, concedeu nesta terça, 2 de abril, a primeira reparação coletiva a indígenas. Com a anistia política, a União deve reconhecer e reparar, por meio de órgãos como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ministério da Saúde, violações a direitos humanos causados pela ditadura militar aos povos indígenas Guyraroká (Guarani Kaiowá), de Mato Grosso do Sul, e Krenak, de Minas Gerais.


Os pedidos de anistia aos povos originários foram apresentados pelo MPF em 2015. Nos documentos, o órgão apontou que, durante a ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985, as comunidades indígenas sofreram os mais diversos tipos de violações. No caso dos Guarani Kaiowá, políticas federais de povoamento do país levaram agentes estatais a promover traslados compulsórios dos indígenas, provocando mortes e desintegração dos modos de vida da comunidade. Os indígenas foram retirados das vastas áreas que ocupavam e confinados em espaços exíguos, definidos unilateralmente pelo poder público. As terras anteriormente ocupadas por eles foram liberadas à ocupação de terceiros, que tiveram a posse dos terrenos legitimada por títulos de propriedade. O afastamento violento de seus territórios impossibilitou o exercício de suas atividades econômicas, relacionadas principalmente à agricultura.


Os Krenak foram expulsos de seu território, presos e torturados, além de serem submetidos a maus-tratos e ao trabalho forçado pelo poder público. Entre as principais atrocidades estão a criação da Guarda Rural Indígena, a instalação de um presídio chamado de Reformatório Krenak, e o deslocamento forçado para a fazenda Guarani, no município de Carmésia (MG), que também funcionou como centro de detenção arbitrária de indígenas.


De acordo com o MPF, essas violações colocaram em risco a existência desses povos. "A perda do território tradicional teve impactos gravíssimos sobre os indígenas, colocando em risco a própria existência desses povos, inclusive diante da importância do território, do qual foram removidos compulsoriamente, para sua reprodução física e cultural", defendeu o MPF.


Os dois pedidos de anistia haviam sido rejeitados em 2022, pela anterior composição da Comissão de Anistia, no governo passado, mas foram analisados novamente após recursos apresentados pelo MPF. Com as novas decisões, as reivindicações indicadas pelos povos indígenas como medidas reparadoras da violência a que foram submetidos durante o regime militar foram integralmente acatadas.

Medidas de reparação

Em relação aos Krenak, parte das reivindicações aprovadas pela Comissão de Anistia foram apresentadas ao MPF em reunião realizada dia 1º de abril, na sede da Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Além de reconhecer a condição de anistiados políticos, os indígenas pediram à Comissão que recomende ao Estado brasileiro a criação de programas de assistência psicológica continuada, bem como de iniciativas voltadas à cultura, incentivando práticas tradicionais no território.


Outra reivindicação apresentada foi a criação de um grupo de trabalho para discussão e formulação de proposta de lei que inclua os povos indígenas como destinatários das reparações econômicas, sociais e culturais referentes ao período da ditadura militar no Brasil. Os indígenas também pediram à Comissão que recomende à Funai a conclusão da demarcação do território tradicional de Sete Salões, considerado sagrado para o povo Krenak, e que o órgão reveja o seu posicionamento em ação civil pública na qual pediu a suspensão do processo de demarcação e titulação do território tradicional. Em 2021, ao julgar procedente ação civil pública ajuizada pelo MPF, a Justiça Federal determinou que a Funai concluísse o processo em 6 meses, mas a Funai recorreu da sentença.


“O povo foi expulso do território, aprisionado, feito de cobaia aos macabros experimentos da ditadura. Para que não exista uma repetição do passado, deve-se estabelecer obrigações”, apontam os indígenas no documento entregue ao MPF, que também foi lido na sessão da Comissão de Anistia.

Anistia aos Guyraroká 

Representante do MPF no julgamento do pedido de anistia ao povo Guarani Kaiowá, o procurador da República Marco Antonio Delfino de Almeida destacou diversos casos de remoções forçadas vivenciadas pela etnia. “Nós, sistematicamente, violamos os direitos dessas populações. É necessário que a memória e a verdade saiam desse subterrâneo do Estado brasileiro, para que possamos promover a devida reparação aos povos indígenas”, ressaltou.


Ainda durante o julgamento, o procurador da República Edmundo Antonio Dias, responsável pelo pedido de anistia coletiva do povo indígena Krenak, apresentou também a reivindicação de que seja concluída a implantação do Memorial da Anistia Política do Brasil, em Belo Horizonte (MG). A proposta é que o espaço tenha uma seção que trate exclusivamente das atrocidades massivas cometidas contra os indígenas.

“O Memorial da Anistia Política do Brasil é um compromisso assumido pelo Brasil perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos, que foi valorada positivamente pela Corte na sentença proferida no Caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia). A criação de uma seção destinada exclusivamente às graves violações cometidas contra os povos indígenas – que resultaram, segundo estimativa da Comissão Nacional da Verdade (CNV), em pelo menos 8.350 mortes – constitui medida essencial no eixo da Memória e Verdade”, afirmou Dias.

Notícia publicada em: https://www.mpf.mp.br/ms/sala-de-imprensa/noticias-ms/a-pedido-do-mpf-povos-guarani-kaiowa-de-ms-recebem-anistia-coletiva-inedita-por-danos-causados-pela-ditadura-militar


Fonte: Assessoria de Comunicação Social do MPF em Mato Grosso do Sul www.mpf.mp.br/ms

Foto: Ministério da Justiça e Segurança Pública/Arquivo Nacional/Memórias Reveladas (Confinamento de indígenas Krenak durante a ditadura militar)


quinta-feira, 28 de março de 2024

Caos na BR-262: fuja dos congestionamentos gigantes

Fila de mais de 2 km antes da ponte na BR-262 (Navepress|28/03/24)

Aviso aos condutores: quem pegar a BR-262 no sentido Corumbá-Campo Grande está sujeito a uma espera de uma, duas ou até três horas na ponte sobre o rio Paraguai, que continua em reparos. Eu já havia postado neste blog detalhes sobre um iminente colapso na BR-262, que teve a situação agravada com a interdição da ponte sobre o rio Paraguai. Dois meses se passaram e o problema só se agrava, para desespero dos usuários que pagam pesados impostos mas não veem retorno em bons serviços na malha rodoviária. O tráfego de veículos na BR-262 funciona no sistema Pare e Siga, em pista única, e isso está acarretando congestionamentos gigantes, principalmente em horários de pico, quando grande parte das carretas levando minério tomam a rodovia em direção à capital e dali para outras cidades fora do Estado. Uma fila enorme, de mais de dois quilômetros, voltou a se formar nesta quinta-feira, 28 de março, véspera do feriado, penalizando a todos os que rumavam para a capital. Muitos desistiram da viagem e deram meia volta. Outros tantos aguardaram a longa espera na fila que começou a se formar por volta das 14h30. “Isso vem ocorrendo há três meses, é imprevisível, e a espera pode ser de uma a quatro horas”, contou um caminhoneiro brasileiro, que trazia uma carga de amônia da Bolívia e seguia em direção a São Paulo. Portanto, para quem pretende pegar a BR-262 e não passar longas horas parado na estrada, é bom ficar atento e consultar a PRF com antecedência para saber como está o fluxo de veículos. Do contrário, vai ficar sem qualquer informação e pode entrar numa fria. Está claro que existe uma crise de tráfego ocasionada pela multiplicação da frota de carretas e bitrens responsáveis pelo transporte de minério pela estrada e pela ponte, que não suportam tamanho volume de peso e da trepidação. No trecho até o início da ponte, em direção à capital, há buracos por toda a pista. E a ponte passa por reparos de concretagem após serem constatadas fissuras. Como saída, a balsa para transporte de veículos chegou a funcionar durante três dias, mas parou, e continua sendo uma opção para evitar um colapso que seria a interdição total da ponte. Pegar a estrada durante a madrugada é sempre uma alternativa perigosa devido aos acidentes com animais. Outra saída seria disciplinar e organizar os horários das saídas das carretas.

EM TEMPO: A má notícia é que nesta primeira semana de abril de 2024 a concessionária da malha ferroviária Bauru-Corumbá comunicou a inviabilidade de reforma dos trilhos e retomada dos serviços diante do alto custo do investimento, certa de R$ 18 bilhões. Diante disso o governo do Estado de Mato Grosso do Sul prontamente iniciou parceria com o de São Paulo em um projeto que visa escoar a produção por meio de uma ligação ferroviária de Três Lagoas a Aparecida de Taboado, para acesso a São Paulo e porto de Santos. Resumindo: Corumbá fica mais uma vez fora de projeto ferroviário e, sendo assim, cada ano que passa mais isolada. Um dos preços desse isolamento é que nossos jovens estão indo embora.

 


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

O tráfego insustentável de carretas na BR-262: colapso anunciado


Congestionamento na chegada a Corumbá: muitas carretas para pouca estrada (Navepress, 25/01/24

Nelson Urt/Navepress

E inevitável conversar sobre os tempos antigos sem sentir uma ponta de nostalgia e lembrar das viagens demoradas mas imperturbáveis do Trem do Pantanal, mesmo com a travessia da balsa. Agora, viajar pela a rodovia BR-262 no trecho entre a ponte sobre o rio Paraguai e a entrada para as mineradoras é correr riscos em uma pista perigosa e precária, interdições, congestionamentos de carretas e, em breve, até a uma paralisação total.

Minha viagem Campo Grande-Corumbá nesta quinta, 25 de janeiro, durou 1 hora e meia a mais do que o previsto. Devia chegar às 18h mas só conclui a viagem às 19h30 após ficar retido na rodovia BR-262 em uma fila de mais de 2 quilômetros, entre carretas, ônibus e carros de passeio, na entrada do distrito Maria Coelho. Os bitrens que não conseguiam acesso à entrada das minas do Urucum bloquearam a pista no sentido a Corumbá e provocaram um engarrafamento gigante, que para nossa sorte não se prolongou por muito mais tempo: a noite caia no Pantanal e os mosquitos estavam avançando.

Este, porém, é apenas um detalhe nos problemas provocados pelo super tráfego de carretas que podem se tornar frequentes e levar o transporte rodoviário de Corumbá a um colapso nesta temporada de férias e de Carnaval, quando muitos turistas estão sendo aguardados na cidade e outros milhares de corumbaenses, ladarenses e bolivianos retornam de férias.

O trecho de 50 km entre a ponte sobre o rio Paraguai e o posto Lampião Aceso da PRF continua bastante castigado, com ondulações, buracos e deformações, em um trajeto inseguro e perigoso, que requer atenção redobrada e redução de velocidade. Recentemente, parlamentares alertaram que as operações tapa buracos não são mais suficientes naquele trecho da entrada construída nos anos 80 e que agora carece de uma revitalização completa para se adaptar à nova realidade.

Mais ou menos 200 caminhões bitrens cruzam diariamente esse trecho da estrada levando em média 50 toneladas de minério em direção ao porto de Santos. São mais de 10 mil toneladas de minérios transportadas diariamente pela estrada, cada vez mais castigada pelo sobrepeso, mesmo em trechos em que receberam recapeamento completo.

E incrível como a ponte sobre o rio Paraguai trepida e balança quando passa uma carreta bitrem. Pude sentir pessoalmente essa trepidação enquanto aguardava com meu carro, sobre a ponte, a passagem de outros veículos, já que estrutura de concreto passa por reparos e também tem interdições. Com o tráfego pesado das carretas da mineração, o concreto da ponte não iria resistir por muito tempo. E para fevereiro, conforme anunciou a Agesul (Agencia de Gestão de Empreendimentos em Mato Grosso do Sul), devem ocorrer interdições totais em espaços de 24h, 48h e até 72 horas, o que exigirá o bloqueio total das duas pistas da BR 262. A Agesul não determinou as datas, que devem ser marcadas, provavelmente, após o Carnaval.

Neste caso de interdição total, os veículos de passeio terão como única opção a Estrada Parque (de terra) e a balsa para a travessia dos veículos no Porto Morrinho, sistema que foi utilizado até 2001, antes da construção da ponte. Só que as balsas não vão comportar as carretas da mineração e nesse período as mineradoras terão de suspender o transporte rodoviário de minério e se concentrarem no transporte hidroviário pelos três portos em funcionamento: Granel Química, Gregório Curvo e Porto Correa (este último reativado em 2023 pela Vetorial). Boa oportunidade para governantes, empresários e parlamentares voltarem a discutir sobre a revitalização da malha ferroviária, abandonada.

 

 

 

 


domingo, 19 de novembro de 2023

Rodrigo da Matta no Resistência Rock Bar: a voz de Corumbá


Nesses rincões do Centro-Oeste, onde despontam poetas como Chumbo Grosso, Lobivar Matos e Manoel de Barros, cantores e compositores como Dary Esteves, Almir Sater, Paulo Simões e Geraldo Roca, músicos da nova geração carregam um peso enorme de responsabilidade. Nesse aspecto, Rodrigo da Matta pede passagem e surge como a voz emergente de Corumbá. Com 20 anos de estrada como vocalista da banda Exilados, o cantor corumbaense apresenta um repertório eclético de rock balada que inclui Raul Seixas, Beatles, Legião, Cazuza, aquelas boas canções que sempre fazemos questão de voltar a ouvir. E na voz vigorosa e melódica de quem se torna referência na música contemporânea de Corumbá. Em mais uma noite dos 12 anos de movimento do Resistência Rock Bar, na rua Portocarrero, Rodrigo da Matta foi a dose certa e aclamada, com casa cheia na celebração deste 18 de novembro. Para os próximos sábados, o professor de História José Lourenço Santiago, âncora do bar, com assistência de Igor Punk e Paulo Baroah, mantem a diversidade libertária na programação incluindo um ato de manifesto pelos 40 anos do assassinato do líder indígena guarani Marçal de Souza. E a novidade da casa: uma vitrola para você ouvir seus discos de vinil. Acompanhe a programação pelo facebook: resistenciarockbar.


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Livro descreve extermínio de Gaza desde os anos 60

Neste livro publicado em 2013, há exatos dez anos, pelo sociólogo corumbaense Lejeune Mirhan, tem se a sensação de que acaba de ser escrito para esses tempos. A história se repete, com todos os seus requintes de perversidades. "E se Gaza cair..." começa descrevendo "o ataque do exército israelense na Faixa de Gaza no final dos anos 2008". E prossegue: "ocupação, cerco, bloqueio, ataque maciço de artilharia, testes de novas armas de fabricação israelense, restrição de água...este é o menu servido no cardápio do cotidiano israelense para a população palestina". 

O livro reúne 47 textos dos mais expressivos autores da literatura e imprensa independente e autônoma e lança luz sobre o vergonhoso sistema criado em 1962 e que tem seu apogeu no cerco à Faixa de Gaza, transformada em uma prisão a céu aberto. 

Corumbaense descendente de sírios e hoje um dos articulistas da geopolítica internacional mais requisitados do país, Lejeune descreve assim os acontecimentos de 2008: "a  guerra desencadeada por 22 dias de forma ininterrupta contra uma área densamente povoada como Gaza não foi contra o Hamas. Isso foi um mero pretexto. Não é uma guerra de Israel contra o Hamas, mas um massacre, uma limpeza étnica contra o povo palestino, dentro de um projeto neocolonial. E isso vem desde muito antes da existência do Hamas e mesmo da OLP (Organização para Libertação da Palestina), surgida em 1964". 

O livro esclarece que estamos diante de uma guerra permanente, com o objetivo de extermínio de um povo. Em 2008, conforme relata Lejeune, 53 escolas foram arrasadas, inclusive duas da ONU, onde morreram 40 crianças. E pelo menos dois hospitais foram inteiramente destruídos. Mais de 1500 mortos. Qualquer semelhança com os ataques recentes não é mera coincidência, mesmo porque o bloqueio permanece desde aqueles tempos, com novos e sistemáticos ataques e novas armas, como a munição à base de fósforo branco, que causa graves e prolongadas queimaduras na pele.

Em 2014, conforme lembrou Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil, novo bombardeio israelense causou graves danos a 40% das habitações de Gaza, deixando 90% da população sem água adequada. "A população de Gaza vive uma situação análoga a um campo de concentração", constata Ualid Rabah nos dias de hoje. E enquanto Gaza é reduzida a pó, perguntas permanecem sem resposta: quem são os responsáveis por esses crimes de guerra? Quando e por quem serão julgados? 

E se Gaza cair...Lejeune Mirhan (org.), coletânea de 47 textos de autores independentes, 278 páginas. Editora Anita Garibaldi, São Paulo, 2012.



 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O Fantástico Relógio da Rute: onde o tempo gira a nosso favor


O Fantástico Relógio da Rute, livro infantojuvenil lançado dia 13 de outubro na Biblioteca Helô Urt, em Corumbá, leva a assinatura da pedagoga campo-grandense Eva Vilma, escritora revelação do Mato Grosso do Sul. Com ilustrações de Paulo Alaor, o livro é endereçado ``para toda criança, grande ou pequena, que em cada canto do mundo descobre no tempo um amigo, não um senhor´´. Rute achou o relógio no baú de lembranças da vó Regina.  Rute com o relógio tem o tempo a seu favor. O relógio com a Rute aprendeu sobre o amor. Para além da poesia que exalta as qualidades do tempo como companheiro nas horas certas e incertas, os olhos de cronista de Eva vão encontrar na periferia de Campo Grande uma menina que vive em um bairro alagado pelas chuvas: a Sara dos lábios de mel, uma amiga de Rute. A personagem é inspirada na garotinha Sarah Arruda Rocha Cantero, de 12 anos, que a escritora conheceu na Rua Poética, em uma comunidade periférica frequentemente afetada pelas enxurradas, e transportou para as páginas do livro. Enquanto olhava para as crianças durante o lançamento do seu livro no bairro Nova Corumbá - o bairro que abriga o lixão municipal de Corumbá – a escritora podia estar diante de outras Saras que vivem os mesmos tormentos tão comuns nas periferias esquecidas. Nada, porém, suficientemente forte para tirar dessas meninas e meninos a dignidade, o talento, a criatividade. Nada que lhes tire os bons predicados do tempo. De uma das garotinhas presentes a escritora ganhou um desenho feito a lápis preto ali mesmo, naquele tempo, um desenho do seu rosto. O Fantástico Relógio da Rute é um livro irretocável, admirável e transformador. Nele, Eva Vilma se descreve como ``uma fantástica menina que tem mil relógios mágicos para dividir seu tempo entre o chão da sala de aula para alfabetização, a missão de ser mãe, a atividade na roda de capoeira, a escrita de livro infantis e de poesias e o ativismo cultural pelo Coletivo Tarja Preta de Literatura Independente´´. Dessa forma, ela sempre teve vontade de achar um relógio mágico com um tempo em que coubessem todas as suas vocações. E conseguiu. Não por milagre, mas por resistência, luta e dedicação. 

Serviço: O Fantástico Relógio da Rute, literatura infantojuvenil, ancestralidade, emoções, Avá Editoria, 2023. Textos: Eva Vilma Souza Barbosa. Ilustrações: Paulo Alaor. Preço de capa: R$ 30,00. 




 


A estudante Rayanne e a escritora Eva: tempo de desenho



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Quando o ouro não Vale o quanto pesa


O ouro brasileiro deixou buracos no Brasil, templos em Portugal e fábricas na Inglaterra. A frase é do escritor Eduardo Galeano e resume o que representou o ciclo da exploração de ouro, que se tornou a maior fonte econômica brasileira entre os séculos 17 e 18. Mas, lendo até o final, vocês verão que, passados 300 anos, o ouro continua fazendo misérias em solo brasileiro, além da já conhecida garimpagem. 

Ao lado de Minas Gerais e Goiás, nosso Mato Grosso detinha uma das maiores jazidas no ciclo do ouro, lá por volta dos anos 1700. Foi um ciclo vigoroso que influenciou até a mudança da capital federal de Salvador para o Rio de Janeiro para que houvesse maior rigor na fiscalização pela Coroa portuguesa, que abocanhava 20% de toda a produção brasileira. Havia muita sonegação e venda clandestina.

Passados mais de 300 anos, o ouro continua sendo explorado no Brasil e em torno dele gravitam gravíssimas questões como o garimpo desenfreado que tantos impactos provocam na Amazônia e aos povos originários. O Brasil é um dos dez maiores produtores de ouro do mundo, com a movimentação de 106 toneladas. E para onde vai tanto ouro? Para fazer funcionar seu aparelho celular, por exemplo.

Não bastasse tanta ganância e sequelas provocadas pelo metal, recentes investigações de comissões parlamentares de inquérito no Pará acabam de constatar que a mineradora Vale vendeu ouro para fora do Brasil sem pagar royalties por pelo menos dez anos.

O minério, segundo as CPIs, era extraído de duas minas de cobre exploradas pela empresa nos municípios de Canaã dos Carajás e Marabá no sudeste paraense.

De acordo com as CPIs, a empresa deixou de pagar R$ 446 milhões referentes à Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) pela exploração de ouro não contabilizada nas duas cidades.

Experimente você, caro contribuinte, ficar sem pagar seu imposto de renda sobre o seu salário à Receita Federal, uma vez sequer, para ver o que acontece.

CFEM é o tributo conhecido como royalty da mineração. É o mesmo imposto que a Vale pagava aos municípios de Corumbá e Ladário quando explorava ferro e manganês no Urucum, e o mesmo que pagam as mineradoras que a sucederam na exploração das minas.

As informações foram levantadas pela CPI da Vale na Assembleia Legislativa do Pará e pela CPI do Salobo na Câmara de Vereadores de Marabá.

Essas mesmas CPIs do Pará também calculam que a omissão das vendas de ouro pela Vale resultou num rombo de R$ 20 bilhões na balança comercial brasileira. É triste saber disso em um País de enormes riquezas minerais imerso em uma grave crise habitacional e de alimentação, com milhares passando fome. E será que o governo brasileiro vai atrás dos responsáveis ou a população de baixa renda continuará pagando a conta? 

E como anda o pagamento dos impostos CFEM pelas mineradoras aos municípios de Corumbá e Ladário diante do grande volume de exploração e movimentação de caminhões que tomam conta das avenidas 14 de março e Rio Branco? A Câmara de Vereadores está atenta à contrapartida de todo esse impacto ambiental?

A reportagem completa foi publicada neste 13 de julho de 2023 pelo site UOL que você pode conferir no link abaixo:

 CPI acusa Vale de vender ouro e pagar tributo como subproduto de cobre (uol.com.br)